terça-feira, 1 de dezembro de 2015

O Brasil não é um ilha: A cegueira da mídia e os limites do "nacionalismo metodológico"



     Tenho comentado sistematicamente em minhas intervenções públicas esse fato: O Brasil não é uma ilha. O tratam como um abstração diante do mundo, distante, isolado, quase um planeta marciano.

        Não se trata de, nesse breve comentário, evidenciar como diversas crises se articulam e potencializam-se em diferentes esferas e escalas (local, regional, nacional, mundial) mas de registrar que essa cegueira cognitiva reproduzida e ampliada cotidianamente pela Mídia hegemônica produz uma visão mesquinha do Brasil e dos Brasileiros; gera uma representação extremamente simplificada, polarizada e moralista da política nacional, reduzindo-a basicamente a um mar de lama e podridão que a tudo abarca e compromete, não sobra nada, a política em todas suas esferas e escalas é considerada corrupta, inútil e como elemento a ser eliminado como um tumor maligno.

    Simplesmente não percebem um mundo inteiro em crise, uma Europa em desintegração, o fim da relação amorosa entre democracia e capitalismo no globo, o colapso do modelo de desenvolvimento Estadunidense, a China em desaceleração econômica, enfim a crise do capitalismo enquanto modo de produção e civilização. Faz-se necessário relativizar o nacionalismo metodológico e suas explicações dos problemas nacionais. Nossa situação não é certamente resultado mecânico de um imperialismo, mas tampouco produto endógeno sem articulação com as teias político-econômicas de um mundo cada vez mais multipolarizado e em intenso processo de globalização (em suas dimensões de homogeneização e fragmentação).

    O fato é que estamos longe de ter o "privilégio" de estar em envoltos em múltiplas crises, de natureza econômica, financeira, política, ecológica produzidas unicamente em solo nacional. Longe de defender o governo ou a "política que está ai", trata-se de reconhecer a complexidade da conjuntura, discutirmos medidas menos medíocres para superação de nossos problemas a partir de um novo patamar do fazer/debater político.

    Mas eu me pergunto caros colegas, a quem interessa anular absolutamente o sentido da Grande Política à pequena política? A quem interessa transformar o espaço político em um deserto? A quem interessa anular a potencialidade política da multidão? A quem interesa reduzir a pó as instituições políticas? Quem irá ocupar esse espaço? Na política não existe espaço vazio e certamente o espaço já está sendo ocupado e não há indicios de que os "novos" sujeitos, grupos e instituições que passam a ocupá-lo vão reinveitar a política desde baixo, com um agenda progressista e democrática. Ideias e práticas conservadoras em momentos de crise ganham terreno para serem agenciadas pela renovação da pequena política travestida de "interessa nacional". 

    É necessário participar da batalha das ideias, fugir às polarizações políticas e mostrar sua complexidade, desmistificar meias-verdades, anular os moralismos e reconhecer as emergências em termos de movimentos, práticas e ideias alternativas que precisam urgentemente ganhar terreno no debate publico, sem esquecermos e invisibilizarmos movimentos e pautas tradicionais que continuam extremamentes importantes. Nada nasce do vazio. É indispensável articular o melhor tradição e reinventá-la dialeticamente a partir das inovações teóricas e práticas produzidas pelo momento histórco em que vivemos. 

    Dai que não podemos nos intimidar, recusar debate, nos afastar das ruas e das redes. Temos que disputar o sentido da liberdade, justiça e democracia a partir das implicações que representam as pautas - novas e tradicionais - como Reforma Agrária, Reforma Política, Reforma Urbana, Reforma Urbana e Garantia e afirmação dos direitos das minorias, subalternos, vítimas de violência, estigmas e preconceitos. 

    São agendas que longe de se excluirem se complementam reciprocamente no sentido de garantir ampliar e as liberdades coletivas e individuais em um contexto de reconhecimento social, étnico e de gênero, de distribuição justa de bens e riquezas socialmente produzidas, considerando a inclusao produtiva e democrática da população em um modelo de desenvolvimento em bases sustentáveis, que nao seja subordinado aos ditame do crescimento/consumo infinito e reconheça os limites ecológicos (dimensão biofísica) para garantir de fato desenvolvimento sustentável. 

O debate público em torno dessas pautas deveriam representam o conteúdo para renovação/construção da Política com P maíusculo. Construida sim a partir dos conflitos e das diferenças, mas sem ser reduzida ao período eleitoral, a conluios de gabinete, a disputa por cargos, ministérios e quinhões do poder. Seu horizonte seria a produção do Comum, entendido como a gestão/distribuição democrática dos recursos, bens, espaços e riquezas materiais e simbólica socialmente produzidas. Esse debate - vital para nosssa democracia - tem sido privilegiado na Mídia hegemônica meus caros?

terça-feira, 29 de setembro de 2015

A luta de Classes Contemporânea: Notas sobre uma entrevista "policamente incorreta"




Para quem quer conhecer a luta de classes contemporânea!

O que podemos extrair dessa breve entrevista?

Em primeiro lugar, que tal luta  não tem a haver com "sangue",  mas "tem haver com os recursos postos para os 1%", tem haver afinal de contas, com uma 'luta de classes silenciosa", de "classes que monopolizam o acesso a bens escassos na sociedade  e condena outras classes a reprodução da miséria", uma luta que produz gente virtuosa, de um lado, e subgente humilhada e sem reconhecimento, por outro.

 Trata-se da produção e reprodução simultânea, posto que articuladas, da inclusão e da exclusão, da cidadania e da subcidadania, da riqueza e da pobreza, dos 1% e dos 99%.

 Classes sociais não são entidades abstratas que se reproduzem isolamente uma das outras, como certa filosofia liberal quer fazer crer, como se individuos e grupos sociais ascendessem socialmente somente "pelo empreendedorismo e esforço individual" (discurso meritocrático).

Ora, classes sociais, se constróem cotidianamente por relações sociais envolvendo todos os grupos e coletividades; se tornam carne e osso mediante relações de exploração econômica e dominação política que são invisibilizadas pelo débil e falso debate político que ocorre em nossa esfera pública.

Ora, a luta de classes  começa desde o nascimento (reprodução) geracional das classes sociais que tendencialmente possuem origem, reprodução e futuro comum. É uma luta diferencial e diferenciadora, posto que desigual desde a origem, pelos bens, recursos e riquezas socialmente produzidos em sociedade. Luta de Classes é acesso diferencial das classes a uma educação de qualidade, ao atendimento de saúde decente, ao "rancho" familiar mensal, a bens de lazer e entrenimento, a um casa confortável, ao tempo livre, ao reconhecimento social.

 A luta de classes acontece aqui e agora, somos parte dela e cabe a cada de um de nós lutar contra ou a favor das estruturas de privilégio que fundamentam uma sociedade injusta e desigual.

Daí que a superação dos privilégios corresponde a superação da sociedade de classes tal como conhecemos hoje, baseda na exploração econômica, dominação política com seus efeitos deletérios em termos de desigualdade, pobreza, humilhação,opressão, preconceitos e estigmas de várias ordens,

 A superação dos privilégios, corresponde igualmente, a tão falada "igualdade de oportunidades", uma ilusão propolada por liberais de diferentes matizes. Dai que o fim da luta de classes (no sentido aqui colocado) anda de mãos dadas com todos os mecanismos, reformas, práticas, discursos e movimentos sociais que buscam a justiça e a liberdade substântiva expressas na conquista de direitos, riquezas e reconhecimentos que tornam mais efetiva a "igualdade de oportunidade"e, por tabela, a luta contra reproduçao dos privilégios.

 Tudo está conectado, em interdependência e a distribuição/redistribuição dos capitais (cultural, econômico, político, de reconhecimento) tanto quanto  a transformação da quantidade (indivíduos considerados em números) em qualidade (individuos vistos como sujeitos e como classe) passa inelutavelmente pela desnaturalização das desigualdades (tematizando sua origem e reprodução) e  radicalização das lutas, resistências e mobilizações que atacam seus fundamentos.

Sim! tal desnaturalização e radicalização é um momento decisivo na busca do Socialismo, que nada mais é o resultado desses dois processos, daí que essa palavrinha é tão descredibilizada por setores e classes conservadoras da sociedade brasileira, afinal, valorizá-la significa atacar sistematicamente seu privilégio de ter privilégios, afinal, não se trata de socializar a pobreza como muitos falsamente propagam.Trata-se, em última análise, de socializar a riqueza, de redistribuir os privilégios, democrátizá-lo.

Muitos, inclusive liberais e neoliberais, buscam o socialismo mas não o sabem, pois desconhecem a natureza do modo de produção  em que vivemos, não percebem seus fundamentos e buscam reparar seus males com remédios que em geral aprofundam o mal-estar da civilização. Falta-lhes uma conversão de olhar, um deslocamento de perspectiva, uma troca de ponto de vistas, espero que essa entrevista seja a antessala para o reconhecimento dos verdadeiros problemas brasileiros: as desigualdades, sua origem, reprodução, efeitos e os discursos/ideias/teorias que a naturalizam/invisiblizam como "normal", quando em verdade é patológica nos termos em que se apresenta.

sábado, 4 de julho de 2015

"Quem nos salvará dos salvadores?": Da Grécia ao Brasil

"Quem nos salvará dos salvadores?" perguntava Alan Badiou há alguns anos quando a Troika (formada por Banco Central Europeu, Comissão Europeia e Fundo Monetário internacional) sob o argumento de equacionar o problema da crise grega desferia um golpe a soberania e um assalto ao povo grego - via planos de austeridade -  tendo em vista salvar os bancos privados.

Nesta entrevista breve, mas esclarecedora, Maria Lucia Fattorelli apresenta alguns resultados da auditoria da dívida grega, registrando a ilegalidade e ilegitimidade de uma dívida que ampliou significativamente os problemas econômicos, sociais e políticos da Grécia.

 Aponta com muita objetividade que o pagamento da dívida grega, especialmente a partir de 2010, tem sido um instrumento de saque e drenagem de recursos públicos para salvamento dos bancos privados. 

A Grécia estava ajudando os bancos com os planos de austeridade! Pagamento este que rendeu uma grade recessão ao país; sua economia reduziu 30%, salário dos aposentados diminuiu em 50%, 60% estão desempregados, o número de pobres e suicídios se ampliou consideravelmente.

O FMI, assim como o fez na década de 80 na América Latina, saiu desesperadamente em "socorro" aos países que teriam "gastado demais". Basicamente um socorro aos bancos privados e aos conluios destes com corporações, grupos empresariais e políticos que se beneficiam com suas operações financeiras. 

Sob o discurso da "ajuda", por um lado, e da culpabilização dos países ( "A grécia é culpada de sua situação") nações se ajoelham de maneira ilegítima sob o império da exploração financeira. Golpes financeiros rondam o mundo! E o Brasil não apenas esta na rota do saque como suas "autoridades" políticas e econômicas apresentam uma crença inflexível no remédio adotado:os planos de austeridade ou ajustes fiscais.

 O plano de austeridade que aprofunda as desigualdades e contradições, drena recursos financeiros para uma elite rentista e não toca nos privilégios dos super-ricos e milionários, simplesmente aparece como única opção possível. O fatalismo e a resignação são eficazmente inventados por "especialistas" da economia que tem suas vozes amplamente legitimadas e reproduzidas pela mídia hegemônica, o "príncipe eletrônico" da modernidade-mundo segundo Ianni.


A tendência é a situação brasileira se agravar, pois em nome da governabilidade o governo anula suas próprias condições de governar e rende-se as forças conservadoras - algumas reacionárias e fascistas - que dominam o congresso nacional e aproveitam a conjuntura crítica para apresentar e aprovar pautas extramente importantes para uma rentabilidade eleitoreira, mas de fato desprezível para o equacionamento dos graves e históricos problemas da maioria das classes subalternas.

A saída da crise em que vivemos certamente não é simples ou evidente, mas não tenho dúvida que passa pela radicalização dos movimentos sociais e pela defesa de reformas incontornáveis ( Reforma Tributária, Reforma Agrária, Reforma política acrescida da Auditoria da dívida e da reforma urbana) que parte significativa da esquerda deixou de lado para lutar basicamente em nome da democracia (burguesa) e seu Estado democrático de direito, deixando o Socialismo órfão de sujeitos que operassem sua práxis histórica.


sexta-feira, 19 de junho de 2015

A eficiência da greve como plataforma anti-austeridade e momento de politização.



Alguns colegas professores afirmam que a greve não é o melhor caminho, que está ultrapassada e que precisamos de outras formas de luta, pois criamos problemas com calendário acadêmico e prejudicamos os alunos. Mas eu sempre pergunto, quais são essas alternativas e formas de luta? Panelaço? Abaixo assinado? Conseguir dar 75% das aulas do período? Construir fundo anti-greve? Talvez a greve não seja a mais eficiente para conseguir certas conquistas específicas para categoria, mas quem disse que sua “eficiência” deve ser julgada unicamente sob esse prisma?

A eficiência de uma greve se mede por sua capacidade de explicitar as contradições da sociedade, desconstruir discursos mesquinhos, desfazer consensos fabricados, desafiar o poder constituído e suas redes de corrupção e conluio, sua eficiência se mede por sua capacidade de mobilizar e politizar a sociedade! Fico pensando no aprendizado não contabilizado em aulas, avaliações e notas produzido através de diálogos, reuniões, atividades culturais e conflitos entre os partidários e não partidários da greve. Pela primeira muitos alunos e professores debateram sobre política, perceberam o jogo partidário no interior da universidade, aprenderam sobre o funcionamento e papel de um sindicato, enfim, a greve é ineficiente apenas pela perspectiva utilitária e economicista do capital e das classes dominantes dentro e fora da universidade.

Muitos afirmam que a conjuntura não é propicia para nenhum ganho do movimento grevista, pois a crise econômica é séria e o pais não está crescendo. Mas eu me pergunto, devemos subordinar tudo em uma nação ao crescimento econômico? A conjuntura não é boa para que e para quem? Será que crescimento significa desenvolvimento? O “Milagre econômico” brasileiro que o diga! Crescimento da economia não significa automaticamente melhor distribuição de renda, poder e maior qualidade de vida para a população, pode ocorrer exatamente ao contrário!

Ora, as concessões de portos e aeroportos vão bem, o agronegócio recebeu quase 200 bilhões, as universidades particulares continuam recebendo somas milionárias do governo, o sistema da dívida pública continua drenando tranquilamente quase metade do PIB nacional (46%). A crise é para quem mesmo?

Percebemos notavelmente, não apenas no Brasil como em boa parte do mundo, que momentos de crise do capital, representam momentos de espoliação das classes e setores sociais subalternos, de forma que se realiza a socialização dos custos da crise através dos planos de austeridade ou ajustes que privilegiam e selecionam as classes trabalhadoras para pagarem a crise ao mesmo tempo que ocorre concentração de renda e poder nas mãos de 1%.

Certamente vivemos uma crise econômica nacional e internacional como partes interligadas de uma crise sistêmica do capitalismo desigual e combinado, mas ao mesmo tempo é importante registrar que os “remédios” e soluções para equacionar a crise em solo nacional, via ajuste fiscal, não é a única solução possível, um fato inevitável. Repito: Trata-se de uma opção política, está muito evidente que as opções ou remédios para saída da crise brasileira beneficiam diretamente o Capital em detrimento do Trabalho, isto porque os momentos de crise representam "oportunidades" para o refinamento das dinâmicas de concentração de riqueza e espoliação da classe trabalhadora, e o discurso da "segurança jurídica" e da "competitividade" (dos economistas do capital) - são quase sempre os os fundamentos legitimadores dessas operações.

Por fim, registro que em momentos de “bonança” as melhorias, por exemplo, em termos do salários dos trabalhadores e investimentos na área da educação são realizadas aos poucos e lentamente, contudo, em tempos de crise a dilapidação dessas conquistas ocorrem rápida e intensamente, geralmente seguida de processos de privatização se não nos opormos frontalmente a esses ataques. No caso especifico das universidade públicas nossa resistência significa a manutenção do caráter público da universidade face aos processos de mercantilização que ambicionam converter o “estar em sala de aula” em mercadoria.

A greve hoje, muito mais que uma luta por melhores salários, representa uma plataforma anti-austeridade, uma ação coletiva contra a opção de ajuste fiscal em curso que não é inevitável e poderia ser direcionado para as classes ricas e privilegiadas através da taxação sobre grandes fortunas, aumento de impostos sobre sobre heranças que no brasil é uma piada. Eu apoio a greve porque outro ajuste fiscal é possível e urgente! Um pátria educadora de fato se constrói com mobilização, organização e politização para construção do protagonismo cidadão crítico. Só a luta ensina!


!

terça-feira, 16 de junho de 2015

O SENTIDO DA "AULA NORMAL" NA UFAM







Aqueles professores que reduzem o sentido da universidade ao ato de "dar aula" são, em sua grande maioria, aqueles que atendem acriticamente ao menos duas funções:


" A primeira delas é a redução da universidade a mera formadora de mão de obra, ou seja, sua plena identificação com a posição do país na divisão internacional do trabalho cujos cursos de engenharia ou economia constituem expressão máxima.


A segunda é a redução da universidade a instrumento de colonialismo mental, cultural e científico a que, de fato, está quase limitada" Nildo Domingos Ouriques (2014)


Para aqueles professores que afirmam que está tendo "aula normal" é preciso registrar a normalidade a que eles se referem.


Infelizmente "Aula normal" para muitos alunos representa a relação ensino/aprendizagem da "educação bancária", aquela em que o "professor" professa o conhecimento "iluminado" e o aluno passiva e acriticamente recebe o "conteúdo" que vai "cair na prova", que provará apenas a eficácia em reproduzir conhecimento alheio sem a devida contextualização ou aproximação com os problemas reais da população.


Essa "aula normal" representa uma "universidade anti-povo", que quer viver de títulos e "status acadêmico" ,de um lado, e de outro, quer oferecer adestramento técnico para simples inserção dos alunos no mercado.


Essa "aula normal" aceita passivamente e resignada os problemas que afetam a população brasileira em geral e os cortes na área da educação em particular.


Essa "aula normal" é precisamente aquela que pretende construir conhecimento supostamente "neutro e universal", quando na maioria dos casos está apenas ocultando "todas as misérias de uma instituição a serviço da classe dominante, especialmente graves na periferia do sistema capitalista".


Essa "aula normal" que garante o "estamos em aula" dos alunos, sob o pretexto de garantir o calendário acadêmico, é aquela que não garante a anulação do processo de precarização das universidades em curso; é aquela que não contribui com uma universidade autônoma e com a reestruturação da carreira docente; é aquela que crê fazer um grande favor aos alunos formando-os apressadamente sem que os mesmos conheçam e reconheçam criticamente os problemas da sociedade na qual eles estão inseridos; é aquela que reduz a democracia a voto sem debate sobre o tema ser votado; é aquela que realiza assédio moral aos alunos, obrigando a muitos a estarem em sala de aula porque se não sofrerão retaliações; é aquela que não respeita um resultado democrático de deflagração de uma greve decidida em assembléia geral pela categoria.


Ora, estar em sala de aula é na atual conjuntura uma atitude resignada , fatalista e de aceitação do conjunto de problemas que afetam o funcionamento de uma universidade de caráter público, gratuito, de qualidade, popular e descolonizada! É em prol de qual UFAM que certos "amigos da Ufam" se mobilizam?

domingo, 3 de maio de 2015

Por que Socialismo? Notas para início de conversa.


Ofereço aos trabalhadores e as classes subalternas em geral uma pequena reflexão sobre a razão e a necessidade do Socialismo hoje. Um contributo inicial também para a reflexão dos primeiros construtores da UP Amazonas.

Por que socialismo? Por que não vivemos “o fim da história”, e a economia de mercado juntamente com democracia liberal estão em crise ao redor do mundo;

Por que o Capitalismo não foi o primeiro e nem será o último modo de produção e civilização;

Por que o socialismo é muito maior que as poucas e precárias oportunidades históricas que teve para realizar-se; por que o socialismo é mais complexo, plural, libertário e democrático do que a vã filosofia de direita pode sugerir;

Por que vivemos um cenário de crise sistêmica, onde várias crises convergem e as interpretações sobre essas crises e a produção dos “remédios” para solucioná-las são objetos de disputa e nós que queremos participar dessa interpretação e das soluções para os problemas que nos afligem. Não podemos deixar que as forças conservadoras e reacionárias apresentem soluções socialmente excludentes/indiferentes (fascistas), ambientalmente predatórias, economicamente falsas (deslocando o problema no espaço-tempo) e politicamente corporativistas;

Por que em se tratando de política não existe espaço vazio e esse espaço tem sido ocupado sobretudo por forças conservadoras e velhos políticos sem compromisso com as necessidades reais da população;

Por que queremos justiça social, Liberdade de fato, democracia sem limites e o fim da exploração;

Por que o socialismo é muita mais amplo e complexo que as concepções particulares e partidárias que tentam simplificá-lo, desqualificá-lo, diminui-lo etc..;

Por que outras formas de vida e trabalho são possíveis;

Por que outras relações entre homens e destes com a natureza são necessárias, na verdade urgentes;

Por que direitos formais resultam em liberdades formais, seletivas e excludentes e não liberdade da substantiva para maioria ;

Por que uma sociedade mais justa, livre e democrática é um imperativo urgente para uma civilização de fato;

Por que não devemos nos abster das lutas de nosso tempo!;

Por que não somos obrigados a participar de lutas e resistências através de movimentos ou partidos com os quais não temos afinidades ou que oferecem pouco espaço de diálogo para novos integrantes;

Por que toda construção representa um processo de politização, expressa um momento de problematização da realidade e da desnaturalização de seus problemas;

Por que um partido novo traz consigo os anseios, aspirações, desejos, demandas e necessidades das novas gerações, atualizando ao mesmo tempo a reflexão sobre temas e problemas das gerações passadas;

Por que essa criação é uma oportunidade singular para estabelecer diálogos e definir agendas face aos problemas locais e regionais;

Por que o Socialismo representa em primeiro lugar a busca incansável para atender as necessidades reais da população como um todo, essa busca é o que dinamiza o socialismo;

Por que socialismo é também uma construção social cotidiana, um estilo de vida, um modo de conviver e socializar que antecipa os germes da sociedade democrática e justa do futuro. Ela começa aqui e agora!;

Por que o Socialismo não se constrói per se, é obra coletiva produzida por sujeitos históricos. Nós!;

Por que o Socialismo não representa o fim da liberdade, mas sua condição indispensável;

Por que o Socialismo não produz autoritarismos, antes, é um golpe em suas manifestações;

Por que o Socialismo é Democracia sem fim...;

Por que o socialismo não é socialização da pobreza, ao contrário, é distribuição da riqueza socialmente produzida, que atualmente é privatizada e fonte de privações, limitações à liberdade e produtora de pobrezas e desigualdades;

Por que o Socialismo se rebela contra a privilégios e não admite dominação política e expropriação econômica;

Por que o Socialismo não é contra a propriedade em geral, mas contra as as grandes propriedades socialmente improdutivas ou economicamente exploradoras. Estas devem ser de propriedade e usufruto coletivo!;

Por que o Socialismo é uma reflexão teórica comprometida com os processos e lutas de transformação social;

Porque o Socialismo é a reforma indispensável para uma sociedade de todos....
Por que outra economia é possível!;

Por que outra Amazônia é igualmente possível e urgente; por que nossas desigualdades são abissais, nossas pobrezas amplas e diversas, nossos problemas inadiáveis, nossas políticas perversas;

Por que não podemos ficar dependentes da ZFM, por que nossa riqueza é privatizada e expropriada, ficando um resíduo de 4% de tudo o que é produzido;

Por que a liberdade coletiva/democrática é a pré-condição para o livre desenvolvimento das liberdades individuais.

O Brasil é de primeiro mundo para quem? De Masi confunde o pensamento crítico com pessimismo.

                De Masi já foi mais feliz em seus comentários e mais preciso em suas respostas. Nesta entrevista1 muita coisa que ela fala é contestável. Comento aqui rapidamente alguns pontos

         "Crise é algo transitório", certamente que é, mas é preciso dizer que a crise é transitória em termos,  quando vista por exemplo de dentro dos espaços nacionais, mas tudo muda quando vista sob outro enfoque, pois o sistema capitalista em seu conjunto sempre está em crise e processo de reestruturação, nesse sentido a crise é um elemento estrutural e permanente do sistema. Como diria Harvey, as crises são momentos de reconfiguração dos termos da acumulação em decorrência da baixa taxa de lucratividade, "crises servem para racionalizar a irracionalidade do capitalismo" e elas nunca são resolvidas, apenas "deslocadas no tempo e no espaço".


Que riqueza mesmo que FHC criou?? Privatizações a preço de banana? Não vamos louvar eternamente a estabilização propiciada pelo plano real né..

Aumento do poder aquisitivo dos pobres não significa distribuição de riqueza! Bolsa família não significa distribuição de riqueza! Esses gastos saíram do orçamento anual do Estado, uma migalha por sinal. Distribuição de riqueza se faz alterando a estrutura agrária com a reforma agrária, se faz realizando reforma tributária de caráter progressivo, se faz com reforma política anulando o poder econômica sobre a política..

Acho que PIB não é e nunca foi o melhor indicador para medir o "desenvolvimento" de um país, especialmente os países que foram colonizados, sofreram o impacto do imperialismo e tiveram uma industrialização com pesados investimentos estrangeiros. E grande coisa sermos o quinto em produção industrial quando a maioria dos países "desenvolvidos" estão lucrando em cima da "propriedade intelectual" (patentes), quando o setor terciário já é muito mais lucrativos em diversos países e ocupa posição central na produção de riqueza e sem contar que a produção industrial já não emprega como nas décadas precedentes. E vale lembrar boa parte dessas "industrias" são de empresas multinacionais, sua pátria é outra, mandam seus lucros para suas matrizes e se elas estão no Brasil é porque houve um processo de desterritorialização do capital buscando pastos novos com mão de obra barata para explorar..

Essas louvações de "Brasil potência", "Brasil Maior" etc.. devem sempre ser relativizadas, se por um lado houve avanços nas últimas décadas em várias direções é sempre importante assinalar as limitações desses avanços e os retrocessos em outros campos.

O Brasil é de primeiro mundo para quem? De Masi confunde o pensamento crítico com pessimismo. Certamente o Brasil avançou, mas não vamos confundir alhos com bugalhos; bolsa família com distribuição de renda. Industria com qualidade de vida, PIB com Desenvolvimento, diminuição da pobreza com diminuição da desigualdade, exportação de commodities com soberania econômica. Isso é o que acontece quando se tenta "medir" ou comparar as transformações na América Latina a partir de parâmetros, modelos e trajetórias dos países Europeus. Não tem muita coisa de louvável em ascender nessa escala "evolucionista" rumo a um suposto desenvolvimento que hoje se mostra ilusório, visto que as grandes conquistas desses países hoje se encontram em desestruturação, cadê o pleno emprego e o Estado do bem-estar social, a eliminação da pobreza e da desigualdade? Estamos seguindo um modelo que já mostrou suas limitações, que destrói a natureza, não resolve o problema da concentração de poder e renda etc..