quinta-feira, 17 de julho de 2014

Sociologia como narrativa crítica sobre o mundo social


A sociologia desmistifica, revela, critica e, por consequência, desnaturaliza relações, processos e estruturas de dominação, expropriação, violência, rompendo com mecanismos que reproduzem misérias e desigualdades, tidas como componentes “naturais” de uma sociedade pseudodemocrática.
            Sim! A Sociologia é geradora de consciências reflexivas, rebeldes e democráticas. É uma arma de combate que substitui e anula os  automatismos dos indivíduos e forja atores com competências para a realização da crítica, julgamentos e estratégias argumentativas.
A sociologia é reconhecida pelo incômodo que causa a “ordem social” e esse incômodo reside precisamente no fato dela questionar o estado de coisas vigentes, de não aceitar como natural e dado o funcionamento  e a dinâmica das coisas, relações e fenômenos. Crenças, dogmas e a rotina auto-evidente são inimigos da sociologia reflexiva, pois teimam em nos conformar ao poder do senso comum e do seu quadro referencial supostamente natural, de certezas inquestionáveis que dotam de lógica e sentido o nosso estar no mundo; nos situa ,organiza e explica nossas condições de vida.
A sociologia, pois, se constrói contra as rotinas que são produtoras e legitimadoras de desigualdades; que conferem poder e riqueza a alguns e incapacidade de ação e pobreza para outros. Na medida em que se contrapõe a essas rotinas a sociologia se converte em um componente fundamental para a transformação social, sobretudo porque coloca a luta pelos direitos e pela cidadania como prática que deve ser exercida cotidianamente diante do poder constituído e dos privilégios que ainda reproduz. Como salienta Bauman e May (2010,p.83) o cerne da Sociologia só faz sentido no momento em que estiver sendo incorporado pelo conjunto da cidadania e não cada vez mais mantido à parte. Um cerne, portanto, de uma sociologia reflexiva e crítica
A sociologia não apenas evidencia que não existem fatalismos como sugere múltiplas formas e interpretações para construção sociológica e política das trajetórias individuais e coletivas, regionais e nacionais. Desta maneira amplia não somente os níveis de percepção da realidade como as margens de liberdades individuais e coletivas, mostrando a responsabilidade histórica dos homens na construção do mundo social e no combate consciente as mazelas e desigualdades que afligem a sociedade. Por isso, talvez seja uma ferramenta fundamental para fornecer os léxicos, as tendências práticas e interpretações apropriadas para viabilizar as mudanças indispensáveis para uma sociedade justa e democrática. Afinal, como diria Octávio Ianni (2011), a sociologia é uma forma de autoconsciência científica da realidade social, realidade que está sempre em movimento, formação e transformação resultante das lutas, impasses e problemas que desafiam os homens, grupos e coletividades.
Isso não significa que a perspectiva sociológica é a única a operar tais realizações, mas talvez por ter nascido em um momento de crise e sobre as crises sempre analisar, terminar por lidar de maneira particularmente privilegiada com as causas manifestas e latentes que originam os problemas sociais, políticos e culturais expresso nas lutas, impasses e problemas acima registrados. Não poderia ser diferente  a sociologia é considerado por alguns  até como ciência da crise, pois sempre esteve enredada com grandes efervescências e irrupções sociais, aliás, o  marco de seu nascimento se inscreve em um mundo de amplas transformações sociais que compreendiam guerras, revoltas, rupturas seculares e novos empreendimentos culturais.
            De forma ambivalente, podemos afirmar que a sociologia, seu avanço, contribuição e significação para sociedade corresponde às suas crises contínuas, aos ataques frequentes às suas bases e pressupostos causados pelas transformações sociais. Crise social e crise da sociologia convivem e se nutrem reciprocamente.
            Pode-se afirmar que esse -  a crise da sociologia - é um indicativo de que ela está em ótima forma. A sua crise corresponde por um lado as características de seu próprio objeto que é sujeito ao mesmo tempo; um sujeito em sociedade, nas suas relações de negação e afirmação, dependência e interdependência, tecidas nos mais variados e distintos níveis de experiência e sociabilidade.
Sua crise (que é seu modo ser, pois possui como característica autoquestionar-se e duvidar sistematicamente de toda e qualquer certeza ) reflete a dinâmica da sociedade; as ações e motivações dos seus indivíduos, expressa os movimentos de tensão e indignação, corresponde aos impulsos e sentimentos coletivos em ebulição. Indica as bases contraditórias e assimétricas sobre a qual se assenta as relações em sociedade.
Sobre esse aspecto, poderíamos afirmar que as crises convertem-se em um “objeto” especialmente atraente para a sociologia, pois permitem a realização de reflexões e diagnósticos que captam uma conjuntura em ebulição, momento propício para explicitação das causas,  razões, motivos e forças que configuram ou delineiam certo status quo.  Nesse sentido, é possível afirmar que há uma diversidade de modalidades ou tipos de crise, com diferentes escalas, e graus variados de impacto; Quanto à modalidade, há crises econômicas, sociais, políticas, ambientais, culturais, identitárias etc; Quanto às escalas, podemos afirmar que há crises em escala individual, familiar, grupal e a societária. Cabe apenas assinalar que em última análise todas essas crises possuem conexões entre si, se condicionam e nutrem reciprocamente, de modo que não há crise que se engendra por si, de forma independente, mas guarda uma relação mais ou menos significativa com outras modalidades, escalas e implicações de outras crises. A crise é sempre relacional, sempre social. Como nos lembra Santos,  a noção de crise deriva de uma velha palavra de origem grega ( crisis ) que significava separação, abismo e também juízo. Lembra-nos que “o existir é um separar-se, uma crisis, um abismo”, pois “tudo quanto existe se separa, afirma abismos”. (SANTOS, 1959,p.12) 

Mas como bem adverte Santos a separação e o abismo é fundamental para crítica, especialmente para crítica sociológica;

Nós não podemos viver sem a crisis, e não podemos viver com ela(...) É a crisis que leva o homem a crítica(..) Por isso quer  vencê-la, vadear o abismo, ultrapassá-lo, que é o devir, o constante transmutar-se das coisas. ( SANTOS, 1959, p.13).

A crise, nesse sentido, seja em suas formulações teóricas ou práticas, possui uma dimensão muito positiva para o desenvolvimento de uma análise sociológica, pois é um indicativo da força ativa e transformadora dos agentes sociais na construção e direcionamento da história. É a emergência da tomada de consciência da crise “que leva o homem à crítica”, revelando a dinâmica histórica do movimento social em contraponto a estática funcional própria do poder instituído e suas instituições que tendem ao fechamento buro e democrático.
 A crítica implica, pois. na mudança de ordenamentos estabelecidos e engessados do ponto de vista institucional.  Além disso, diz respeito à atualização e renovação de instituições sociais  e seus mecanismos de reprodução social, a exemplo das formas de pensar, sentir e agir que orientam indivíduos e coletividades. Serve como ponto de partida de novas obrigações, agendas e lealdades.
Trata-se, enfim, de um sinalizador de novos horizontes e utopias, expressos em novas relações em diferentes escalas entre Estado, economia, política e sociedade. A crise, ou crises como veremos adiante, marca uma período de transição, de amplas mudanças onde, como diria Gramsci[1], o novo tateia seu nascimento e o velho teima em resistir. O devir crísico do mundo é surpreendente e a sociologia tem papel fundamental no sentido de explicar e compreender os dilemas em aberto pelas conjunturas crísicas; prenha de forças e possibilidades.
Por fim, sem celebrar demasiadamente o horizonte crítico da perspectiva sociológica, que apesar de singular não é insubstituível , poderíamos afirmar, ancorados em Bauman (2010) que uma das caracteristicas fundantes da sociologia e do pensamento sociológico é seu “poder de antifixação;

Ele torna flexível aquilo que pode ter sido a fixidez opressiva das relações sociais e, ao fazer isso, abre um mundo de possibilidades. A arte de pensar sociologicamente consiste em ampliar o alcance e a efetividade da liberdade(...) A sociologia pensa de forma relacional para nos situar em redes de relações sociais(...) Nesse sentido, pensar sociologicamente significa entender de um modo um pouco mais completo que nos cerca, tanto em suas esperanças e desejos quanto em suas inquietações e preocupações” ( Bauman e May. Pg.26 )

Eis uma face singular da sociologia, ela diz respeito a desfamiliarização; tonar questionável o evidente e auto-explicativo, de modo a evidenciar que as coisas e estados existentes são construídos social, material e simbolicamente. Três argumentos, a meu ver, sintetizam a expressão sociológica em sua potencialidade crítica:
a)      A sociologia nos indica que os fenômenos sociais que nos rodeiam e dos quais participamos ativa ou passivamente resultam de dinâmicas processuais, cujas teias de relações, ações e intenções, situados em um contexto especifico, nos fornecem o quadro explicativo do qual emergem as tendências e orientações, sentidos e razões que nos situam e nos conformam compreensivelmente neste mundo.
b)      A sociologia diz respeito a politização, visto que nos situa no mundo enquanto atores que constroem socialmente seu destino, através de ações orientadas, intenções veladas e projetos ousados. Construir socialmente nosso destino não significa projetarmos e construirmos uma vida ideal, de modo quase arbitrário e supostamente isolado das coações externas e condicionamentos sociais de todas as espécies. Significa,pois, termos compreensão e consciência de que, apesar dos imperativos sociais que condicionam nossas ações e projetos, nós possuímos uma margem de liberdade e controle para atuarmos nos rumos e tendências que a vida segue, assegurando alternativas de caminhos  mais seguros e com menos instabilidade para consecução de nossos projetos de vida. 
c)      Por fim, e em último lugar, a sociologia não apenas explica que somos partes de uma organização social e que podemos nos guiar consciente e politicamente nesse habitat coletivo, sugere sobretudo, que as formas de viver e conviver são historicamente construídas e que as formas contemporâneas de dominação, hierarquia, exploração, alienação, desigualdades e outras contradições são resultado dessa construção. E como resultado de uma construção social, podem socialmente serem desestruturadas e reconstruídas segundo outros ideais de sociedade, economia e política.

Para narrativa sociológica da realidade, sempre outros mundos são possíveis!


Bibliografia

BAUMAN, Zigmunt & MAY, tim. Aprendendo a pensar com a sociologia. Rio de Janeiro. Editora Zahar,2010
BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. 11 ed. Tradução de Fernando Tomaz. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.
IANNI, Octávio. A sociologia e o mundo moderno. 1Ed. RJ, Civilização Brasileira, 2011, 406p.

SANTOS, Mario Ferreira dos. Filosofia da crise. 1959. 3 ed


[1] Em uma famosa frase de seus Cadernos argumenta  sobre um momento de interregno  entre o novo que nasce e o velho que morre marcada por uma crise.  "A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece".

sábado, 14 de junho de 2014

Revolução passiva que nada!


Que "revolução passiva" que nada, este conceito ( quando reproduzido acriticamente para explicar mudanças ou modernizações "pelo alto") não capta uma realidade que é complexa e não-linear. Usualmente é usado para caracterizar um "movimento defensivo" das elites  para "conservar-mudando", se antecipando a "surtos libertários". Ocorre que - mobilizado como "tipo ideal" - de ferramenta heurística pode converter-se em ferramenta ideológica para deslegitimar a priori levantes e mobilizações sociais de caráter revolucionário.De antemão sugere-se logo que as manifestações atuais logo vão acabar, vão ser incorporadas, manipuladas, controladas e capturadas pelas malhas do poder constituído e para mais um capítulo de "modernização conservadora". Daí que apesar do suor, dor, lágrimas e sangues pretéritos, termina-se por registrar, legitimar e ampliar o reconhecimento de acordos, negociações, apertos de mão, figuras carismáticas e decisões de gabinete.
Usada desta maneira, suprime vozes e corpos que resistem ao poder constituído. Registra como simples  cooptação e captura conquistas e  realizações notáveis. Apaga da história milhares de lutas e resistências que se travam fora dos gabinetes. Colabora com uma narrativa oficial dos grandes fatos, eventos, contratos, negociações personalizados em figuras políticas à revelia das múltiplas correlações de força, negociações e conflitos que, enquanto processos abertos e potentes, encurralam, pressionam e obrigam os poderes constituídos a cederem espaço político, mudarem de atitude,aprovarem leis, escutarem demandas. 
A ideia de revolução passiva remete a uma representação mais menos assim: algumas figuras autoritárias, centralizadoras ou mesmo carismáticas realizando mudanças, tomando decisões "desde cima", obrigando "os de baixo" a aceitarem  unilateralmente as condições de negociação ou de conflito, aliás nesses termos nem se trata de negociação, mas simples imposição. Essa perspectiva realiza um reducionismo da noção de política e de poder,  contribui para criar ou reproduzir dicotomias e polarizações, simplificações da política e do poder que servem apenas para empobrecer o debate político.
Ora, a canetada é apenas resultado de um longo processo, é apenas o instante da foto! Por isso é preciso reafirmar e disputar o sentido do que vivemos desde ontem, pois pode ocorrer que daqui a 20 anos registrem a complexidade do evento atual como simples manifestações urbanas iniciadas por causa de "20 centavos"e potencializadas pela Copa que ocorria no Brasil.
Vivemos sim uma revolução, uma revolução ativa que mobiliza e articula a trindade ruas ,redes e corpos que hoje disputam e oferecem novos significados para a política, requalificando-a com mais democracia! Temos que desmistificar a ideia de revolução e evidenciar que existe a outra moeda da "revolução passiva", nunca há somente passividade, tanto é que de junho para cá o " medo muda de lado", inaugurando o século XXI Brasileiro do ponto de vista político. 
A revolução, enquanto processo nem sempre explícito, por vezes, sutil, molecular, subterrâneo, habita muitos lugares, corpos e vozes simultaneamente, encadeando ações e dinâmicas coletivas que se explicitam abruptamente como um raio na escuridão. Lembrem que o trovão anuncia que vem o raio, este apenas ilumina o que antes era incerto, caótico, probabilidade, escuridão; a microfísica das relações antecipa a química da multidão, é sua fonte, sua causa primeira.
Trata-se, de um lado de visualizar com menos conservadorismos os processos que possuem dimensões revolucionárias e, de outro, de olhar com mais radicalidade e complexidade daqueles processos ditos conservadores, resultantes de "revoluções passivas." Exatamente por sermos  conhecidos como o "país da revolução passiva" que a mídia nacional e internacional tem dificuldade de entender e aceitar o que está ocorrendo.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

De Junho em Junho: O Brasil visto pelo debate em torno das "Copa" das manifestações.

E lá se vai um ano, temporalidade potente, transformadora. Junho de 2013 funcionou como uma flecha no tempo; entre utopias e nostalgias que expressaram o evento,alargou-se o presente com  diferentes e múltiplos devires insuspeitados. O presente antecipou realizações e debates  Essa constelação monstruosa de manifestações colocou o “Brasil Maior” em perspectiva, suspensão.
Certamente que as manifestações em si são prenhes de intenções, sentidos, transformações individuais e coletivas, afinal, uma alquimia dos corpos se realizou quando os mesmos se tocaram, tensionaram, dialogaram em suas diferenças para constituição de um “monstro selvagem”, rebelde, inominável, quase irracional.
É precisamente para dar conta dessa anomalia complexa e não linear que muitos se propuseram a codificá-la, dar-lhes nome, sentido, direção, lógica.
Narrativas foram construídas para decifrar a esfinge em movimento, é sobre algumas delas que me deterei nos próximos textos; colocando-as em diálogo convergente ou em fricção dialógica, trata-se de explicitar os dilemas e problemas do Brasil contemporâneo.
 2013, “o ano que não acabou”, sem sombra de dúvidas, já constitui um marco importante da história política brasileira. Não da política em seus moldes tradicionais mas, sobretudo, da política que emergiu, se explicitou, ganhou densidade em sua articulação entre redes e ruas. Essa outra política que abalou o poder constituído.
 Igualmente poderíamos afirmar que Junho de 2013 representou um forte impacto, não apenas para o poder e a política estabelecida, mas também pra as representações coletivas , quadros teóricos e cognições afins a elas relacionadas.
 Intelectuais, acadêmicos e pessoas comuns pensaram substantivamente nos desdobramentos do evento de junho; A produção teórica, analítica, opinativa em mídias tradicionais e alternativas, blogs, revistas ( com edições especiais e dossiês ) e livros foi gigantesca, evidenciando a diversidade de explicações e representações sobre o evento.
 E mais, explicitou as fragilidades,  limitações e esforços de quadros conceituais tradicionais em apreender e codificar o fenômeno. Ao mesmo tempo, criativas e inovadoras perspectivas de análise ganharam densidade e ocuparam um lugar que estava órfão de imaginação teórica e analítica.
Poderíamos afirmar que em um pequeno espaço de tempo se realizou uma espécie de mega reflexão sobre a nação vinda de todas as áreas, pessoas e direções; foi uma efervescência que tirou parte da intelligentsia da letargia e do “silêncio” e, além disso,  concedeu oportunidade para outsiders disputarem os sentidos e narrativas apropriadas para o evento em questão. Talvez estejamos vivendo um momento de deslegitimação de certos paradigmas explicativos e legitimação de novos modelos de apreensão da realidade. O momento de crise serviu apenas para acelerar mudanças em curso.
            Para adiantar, o capítulo central do diálogo dessas narrativas refere-se a  uma fricção entre, de um lado, as redes colonizadas dos poderes constituídos do  Estado e do capital e, de outro, a afirmação constituinte  de uma composição social criativa, potente, rebelde, múltipla, horizontal e auto-organizada. Uma multidão em extâse, pulsando emergentes subjetividades, desafiando  e resistindo as técnicas de poder, controle  e captura da ordem esta(do)belecida.


sexta-feira, 30 de maio de 2014

Bauman: O capitalismo parasitário e o Estado assistencial para os ricos.


O presente texto é um trecho da minha dissertação "NARRATIVAS SOBRE A CRISE ECONÔMICA MUNDIAL E CRISE DAS REPRESENTAÇÕES: O QUE A CRISE EVIDENCIA ?"

não foi apenas o sistema bancário e a bolsa de valores que sofreram duros e sucessivos golpes – nossa confiança nas estratégias de vida, nos modos de agir, nos padrões de sucesso e no ideal de felicidade que, dia após dia, nos últimos anos, nos disseram que valia a pena seguir também foi abalado e perdeu parte considerável de sua autoridade e poder de atração. O fato é que agora o tempo da orgia acabou. Chegaram os dias (meses, talvez anos) de fazer contas, de calcular, Dias de ressaca e de recobrar a sobriedade”  ZIGMUNT BAUMAN
                                                                                                               

Dentre os livros que tomam como objeto a crise que irrompeu em 2008 nos EUA e atingiu imediatamente a Europa, o de Bauman talvez seja o que reservou menos tempo para uma analise mais acurada da natureza e dimensões da crise, não obstante apresenta em seu ensaio,  Capitalismo Parasitário: e outros temas contemporâneos, ideias e sugestões que corroboram e complementam argumentos e análises desenvolvidos por Harvey (2011) e Santos (2011).
O estilo de apresentação dos textos de Bauman é ensaístico e geralmente associado a uma apreensão fenomenológica da vida social expressa em uma abordagem que privilegia o cotidiano, as percepções das pessoas e até seus sentimentos, mas nem por isso deixa de tecer relações mais densas e sofisticadas conectando ações individuais às dinâmicas mais gerais e estruturantes da vida social.
Dito isso vamos nos ater à sua breve análise.

 CAPITALISMO À CRÉDITO

            A primeira afirmação de Bauman (p.7) relativamente a crise irrompida em 2008 é a de que o ‘tsunami financeiro’ evidenciou a  milhões de indivíduos que o capitalismo se destaca por criar problemas, e não por solucioná-los.
. Lembra que “a aventura das ‘hipotecas subprime’, vendidas a opinião pública como forma de solucionar o problema dos sem-teto, esta praga que, como todos sabem, o capitalismo produz sistematicamente, acabou, ao contrário, multiplicando o número de pessoas sem casa, com a epidemia de retomada de imóveis. Se ele tenta resolver problemas, não pode fazê-lo sem cair na incoerência em relação a seus próprios pressupostos fundamentais” (Bauman, 2010:8)
Recorre a Rosa Luxemburgo que em “seu estudo sobre a ‘acumulação capitalista’, no qual sustentava que esse sistema não pode sobreviver sem as economias ‘não capitalistas’.  Esclarece que o capitalismo só  é “capaz de avançar seguindo os próprios princípios enquanto existirem ‘terras virgens’ abertas à expansão e à exploração” privando-as  de sua “virgindade pré-capitalista, exaurindo assim as fontes de sua própria alimentação”. Assevera, “o capitalismo é um sistema parasitário”, pois como todos os parasitas ele pode prosperar durante algum período explorando algum organismo que lhe forneça alimento. Contudo, adverte, que o parasita não pode “fazer isso sem prejudicar o hospedeiro, destruindo assim, cedo ou tarde, as condições de sua prosperidade ou  mesmo de sua sobrevivência” (Bauman, 2010:8-9)
É importante ressaltar aqui que os novos hospedeiros a qual Bauman se refere são os cidadãos que viviam à credito e consumindo por impulso, a exemplo do povo americano que antes da crise era responsável por 70% das atividades econômicas do pais realizadas basicamente pelo consumo. Além desses hospedeiros habituais há ainda aqueles que sem condições de conseguir sua habitação foram ‘contemplados’ pelas  operações sub-prime dos bancos que ofereciam crédito a pessoas sem condições de pagamento, mas com altas taxas de juros.Os milhares de despejos que já vinham acontecendo nos Eua (Harvey, 2011) já prenunciavam um mal maior.
Bauman  (p.9-10) escreve que Rosa Luxemburgo a mais de cem anos atrás não poderia prever que os “territórios exóticos não eram os únicos ‘hospedeiros’ potenciais, dos quais o capitalismo poderia se nutrir para prolongar a própria existência e gerar uma série de períodos de prosperidade”, sempre que as espécies anteriormente exploradas se tornam escassas ou se extinguem.  Prossegue argumentando que  um dos principais  hospedeiros, como já citado anteriormente, se expressa através das “hipotecas subprime”,

que estão na origem da atual recessão: o expediente de fôlego curto, deliberadamente míope, de transformar em devedores indivíduos desprovidos dos requisitos necessários à concessão de um empréstimo”(...) é também no oportunismo e na rapidez, dignos de um vírus, que se adapta às idiossincrasias de seus novos pastos

Aponta que “a atual contração do crédito não é um sinal do fim do capitalismo, mas apenas da exaustão de mais um pasto” que a busca de novas paisagens terá início imediatamente, alimentada, como no passado, pelo Estado capitalista, por meio da mobilização forçada de recursos públicos (usando os impostos, em lugar do poder de sedução do mercado, agora abalado e temporariamente fora de operação) (Bauman, 2010: 10)
Segundo o autor (p.11-12) o anúncio de nova ‘descoberta’, de uma ilha ainda não assinalada nos mapas, atrai multidões de investidores, destacando que a introdução dos cartões de crédito foi um sinal do que viria a seguir, pois foram lançados no mercado cerca de 30 anos atrás, com o slogan exaustivo e extremamente sedutor de ‘Não adie a realização do seu desejo’. Argumenta que se no passado era preciso adiar a satisfação, lembrando Weber de que esse adiamento (privações de alegrias, gasto com prudência e frugalidade, investindo em poupança) foi um dos princípios que ajudaram a forjar o capitalismo, atualmente “Graças a Deus e à Benevolência dos bancos, isso já acabou! Com um cartão de crédito, é possível inverter a ordem dos fatores: desfrute agora e pague depois!”  Se antes havia necessidade de ganhar  para  atender as satisfações agora trata-se de desejar e ‘passar o cartão.
Bauman sugere que essa atitude “desfrute agora, pague depois”, cedo ou tarde se converterá em “agora”, isto é, o crédito fácil dos cartões de crédito se tornam dividas que terão de ser pagas, por vezes, contraíndo empréstimos. É ai que a dívida contraída é “transformada numa fonte permanente de lucro”, e assim os “credores modernos e benevolentes resolveram e conseguiram transformar (o débito) na principal fonte de lucros constantes”. Para esses credores, acrescenta o autor, o “devedor ideal é aquele que jamais paga integralmente suas dívidas”(Bauman, 2010:13-15)
Bauman (p18) resume que “a atual ‘contração do crédito’ não é resultado do insucesso dos bancos. Ao contrário, é o fruto, plenamente previsível, embora não previsto, de seu extraordinário sucesso”.

O ESTADO ASSISTENCIAL PARA OS RICOS

Bauman  enfatiza que, como em todas as mutações pretéritas do capitalismo, o Estado também participou efetivamente no sentido da “criação de novos pastos a explorar” salientando que foi durante o governo Clinton que as hipotecas subprime foram introduzidas, “a fim de oferecer crédito, para compra da casa própria, a pessoas desprovidas dos meios de pagar a dívida assumida, e, portanto, a fim de transformar setores da população até então inacessíveis à exploração creditícia em devedores” (Bauman, 2010:19)
E assim a sociedade dos consumidores converte-se igualmente na sociedade dos devedores, que na atual fase de capitalismo financeiro, apresenta-se como principal componente de lucratividade e acumulação do capital.
Como exemplo dessa situação Bauman (p.20) registra que nos EUA o endividamento das famílias medias americanas cresceu 22% nos últimos oito anos e a soma de aquisições com cartão de crédito não ressarcidas cresceu 15%. Seus estudantes foram obrigados a “viver à crédito” para permanecerem estudando. Na Grã-Bretanha a situação não é nada alentadora, segundo o autor, em 2008 a inadimplência dos consumidores superou o PIB do país, isto é,

as famílias britânicas tem dívidas num valor superior a tudo o que suas fábricas, fazendas e escritórios produzem(...)  O planeta dos bancos está esgotando as terras virgens e já se apropriou implacavelmente de vastas extensões de terras endemicamente estéreis  (BAUMAN, 2010:20)

. Segundo Bauman (p.21-22)  nenhum dos pressupostos ou estratégias falenciais responsáveis pela crise atual foram postos em discussão pelos poderes constituídos, pois “na cabeça dos que detêm o poder, mais crédito (ou seja, a produção em série de indivíduos endividados) ainda é a chave da prosperidade econômica.” Afirmam que são apenas ‘ativos problemáticos’ e não ‘instituições problemáticas’ que causaram os problemas, precisa-se apenas de um ‘remédio’, e não “uma corajosa intervenção cirúrgica”
O autor destaca (p.23) que recapitalizar as empresas emprestadoras e reabilitar seus devedores para o crédito,  de modo que o negócio de emprestar e pedir emprestado possa voltar à ‘normalidade’, eis a opção política atual. Prossegue informando que,

O Estado assistencial para os ricos voltou ao salão (..)O Estado voltou a exibir e flexionar sua musculatura como não fazia há tempo, pelo bem da continuidade do jogo que tornou sua flexibilização difícil e até – horror! – Insuportável; um jogo que, curiosamente, não tolera Estados musculosos, mas ao mesmo tempo não pode sobreviver sem eles

Anota  que na ocasião da crise o que ficou “alegremente (e loucamente) esquecido nessa ocasião é que a natureza do sofrimento humano é determinada pelo modo de vida dos homens.” , que  as raízes da dor da qual muitos passam, assim como as raízes de todos os males sociais, estão profundamente vinculadas no como nos ensinam a viver: “em nosso hábito, cultivado com cuidado e agora já bastante arraigado, de correr para os empréstimos cada vez que temos um problema a resolver ou uma dificuldade a superar. Como poucas drogas, viver a crédito cria dependências” (BAUMAN, 2010: p.24)
O autor explana (p.25) que chegar as “ raízes do problema que agora saiu do compartimento top secret  para o centro da atenção pública não é uma solução instantânea” , mas precisamente “ a única  que tem alguma possibilidade de se mostrar adequada à enormidade do problema e de sobreviver aos intensos – mas comparativamente breves – tormentos da desintoxicação”. Afirma que por mais imponentes que sejam as medidas que os governantes já tomaram, pretendem tomar ou dizem que querem tomar, todas elas buscam ‘recapitalizar’ os bancos e deixa-los novamente em condições de desenvolver suas ‘atividade normais’: em outras palavras, a atividade que é a principal responsável pela crise.
Assevera (P.26) que  “ ainda não começamos a pensar seriamente sobre a sustentabilidade dessa nossa sociedade alimentado pelo consumo e pelo crédito.”  O ‘retorno a normalidade’ prenuncia, pois, um retorno aos métodos equivocados e potencialmente perigosos. “ São intenções que preocupam,  pois sinalizam que nem as pessoas que dirigem as instituições financeiras nem os governos chegaram à raiz do problema em seus diagnósticos”
Destaca (P.27) que,

essa espécie de Estado assistencial para os ricos (ou mais exatamente, a política de mobilizar, por intermédio do Estado, os recursos públicos que as empresas capitalistas não conseguem convencer o público a lhes entregar diretamente) não é novidade: apenas o alcance e a publicidade que o acompanham assumiram proporções capazes de causar escândalo.

Bauman (p.28)recorda Habermas afirmando que a substancia do capitalismo “é o encontro entre capital e trabalho” e que a principal  “tarefa  (e, portanto, legitimação) do Estado capitalista é garantir que ambas as condições se cumpram”, isto é, que o capital compre o trabalho, garantindo ao primeiro subvenções e concessões para que haja a comercialização com o segundo.  Ocorre que, segundo o autor, a sociedade contemporânea viveu uma transição da sociedade ‘sólida’ de produtores  para a sociedade ‘liquida’ de consumidores, resultando que acumulação capitalista migrou da indústria para o mercado de consumo.
Essa transição resultou que,

Para manter vivo o capitalismo, não era mais necessário ‘remercadorizar’o capital e o trabalho, viabilizando assim a transação de compra e venda deste último: bastavam subvenções estatais para permitir que o capital vendesse mercadorias e os consumidores as comprassem. O crédito era o dispositivo mágico para desempenhar esta dupla tarefa. E agora podemos dizer que, na fase líquida da modernidade, o Estado é ‘capitalista’ quando garante a disponibilidade continua de crédito e a habilitação continua dos consumidores para obtê-los. (BAUMAN, 2010:29)

Ilustra (p.30) que  quando os  elefantes brigam, quem paga o pato é a grama, pois antes de mais nada é preciso sublinhar que os dois elefantes, “ o Estado e o mercado, podem lutar entre si ocasionalmente, mas a relação normal e comum entre eles, num sistema capitalista, tem sido de simbiose.”
A cooperação entre Estado e mercado no capitalismo é a regra; o conflito entre eles, quando acontece, é a exceção.  Em geral as políticas do Estado capitalista. ‘ditatorial’ ou ‘democrático, são construídas e conduzidas  no interesse  e não contra o interesse  dos mercados; seu efeito principal (e intencional) embora não abertamente declarado) é avalizar/permitir/garantir a segurança e a longevidade do domínio do mercado. (BAUMAN, 2010:32)
Conclui afirmando (p.32) que,

Se o Estado assistencial hoje vê  seus recursos minguarem, cai aos pedaços ou é desmantelado de forma deliberada, é porque as fontes de lucro do capitalismo se deslocaram ou foram deslocadas da exploração da mão de obra operária para a exploração de consumidores. E também porque os pobres, despojados dos recursos necessários para responder às seduções dos mercados de consumo, precisam de dinheiro – não dos tipos de serviços oferecidos  pelo Estado assistencial – para se tornarem úteis segundo a concepção capitalista de “utilidade”

Depreende-se  desses últimos  argumentos do autor, que  a vertiginosa onda de privatizações que atingiram o mundo nas últimas décadas, traduze-se em  diminuição ou desmantelamento deliberado dos serviços públicos simultâneo à  ampliação dos serviços privados para  atender a condição de consumidores dos antigos cidadãos. Se antes havia serviços públicos para cidadãos agora há serviços privados para consumidores.
Exposta essa breve análise do autor, conclui-se que as raízes da crise estão vinculadas ao próprio desenvolvimento do capitalismo; ao modo como cria modos de vida e inovações tecnológicas que permitem descobrir `novos` pastos de acumulação sempre que limites se apresentam na sua frente. Bauman resume que o modo de vida que propiciou a crise atual é a vida a crédito para o  consumo descartável, e as inovações que o capitalismo realizou para atender esse modo de vida foram os cartões de crédito, com crédito fácil, eletronicamente fornecidos pelas instituições financeiras.
Embora nesse livro o autor não apresente medidas ou indicações políticas que poderiam ser resolver ou atenuar seja a crise econômica ou seus impactos sociais, em livro mais recente Danos colaterais: desigualdades sociais numa era Global (2013), apresenta alguns indícios de mecanismos que poderiam fazer face aos “danos colaterais” da crise que atinge especialmente a Europa.
De modo sucinto Bauman argumenta nesse livro que existe e se potencializa no mundo atual repleto de crises uma correspondência entre “danos colaterais” e seu impacto nos “dejetos da ordem”, no “refugo da modernização”. Cada vez mais os efeitos explosivos e indiretos da globalização afetariam as classes mais baixas, o polo pobre da reprodução e criação das desigualdades.
Afirma que num passado recente os “Estados sociais”, responsáveis pelos “30 gloriosos” na Europa, eram fundamentais para atenuar efeitos perversos distribuídos desigualmente na sociedade. Não obstante, após o divórcio entre poder e política - acarretado pelas forças cegas e sem condução política da globalização – todas as instituições politicas no âmbito das soberania territoriais estariam fadados ao fracasso diante dos impasses e problemas gerado globalmente, que é precisamente o caso da crise que atualmente afeta o conjunto da Europa. Os Estado-Nacionais diante da crise, utilizando os argumentos de Bauman, seriam no máximo “delegados de policia locais no estilo ‘lei e ordem’, na medida em que apenas cumprem rigorosamente as diretrizes impostas pela Troika,  e por instâncias financeiras globais, o tal do ‘mercado’.
Diante de um poder livre da política e “de uma política destituída de poder”, onde o poder é global e a política permanece local, Bauman sugere a criação de um arcabouço institucional supranacional a partir de instrumentos e ações qualitativamente superiores aos nacionais,  como num plano mais elevado dos anseios e desejos de uma solidariedade humana. Nesse sentido, sugere (p.36) que a modernidade levou a integração humana até o nível das nações, especialmente através do “Estado social”, mas que agora, essa integração desse se dar no nível da humanidade, incluindo toda população do planeta. Trata-se agora, de criar um equivalente global,  do “Estado social”.
Segundo Bauman (p37),

Em algum momento uma ressurgência do cerne essencial da ‘utopia ativa’ socialista – o princípio da responsabilidade comum e do seguro coletivo contra a miséria e o infortúnio – será indispensável, embora desta vez em escala global, tendo como objeto a humanidade como um todo

Bauman sugere que “a pobreza, a desigualdade e, de modo mais geral, os desastrosos efeitos e “danos colaterais” do laissez-faire global”,  - e aqui podemos naturalmente incluir os efeitos “colaterais” da crise e sua própria resolução – não podem, enfatiza,

ser enfrentados de maneira efetiva nem isolado do resto do planeta, num canto do globo(...) Não há uma forma decente pela qual um ou vários Estados territoriais possam ‘optar por se excluir’ da interdependência global da humanidade. O “Estado social’ não é mais viável; só um ‘planeta social’ pode assumir as funções que os Estados sociais, com resultados ambíguos, tentaram desempenhar.(Bauman,2013:37-38)


Por fim, Bauman (p.38) suspeita que os prováveis veículos para nos conduzir a esse ‘planeta social’ não “sejam estados territorialmente soberanos”, mas sim “organizações e associações não governamentais cosmopolitas”, aquelas que segundo o autor, “atingem diretamente as pessoas necessitadas por sobre as cabeças dos governos locais ‘soberanos’ e sem interferência deles”.

Bibliografia
BAUMAN, Zygmunt. Capitalismo parasitário: e outros temas contemporâneo. Rio de Janeiro: Zahar, 2010
__________________. Danos colaterais: desigualdades sociais numa era global. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Boff: A tese de base que sustenta é: a desigualdade não é acidental, mas o traço característico do capitalismo.

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Para teólogo, “O Capital no Século XXI” acerta quando diz que “a desigualdade não é acidental, mas o traço característico do sistema”


Por Leonardo Boff, no Brasil de Fato


Está causando furor entre os leitores de assuntos econômicos, economistas e principalmente pânico entre os muito ricos um livro de 700 páginas escrito em 2013 e publicado em muitos países em 2014. Tranasformou-se num verdadeiro best-seller. Trata-se de uma obra de investigação, cobrindo 250 anos, de um dos mais jovens (43 anos) e brilhantes economistas franceses, Thomas Piketty. O livro se intitula O capital no século XXI(Seuil, Paris 2013). Aborda fundamentalmente a relação de desigualdade socialproduzida por heranças, rendas e principalmente pelo processo de acumulação capitalista, tendo como material de análise particularmente a Europa e os EUA.


A tese de base que sustenta é: a desigualdade não é acidental, mas o traço característico do capitalismo. Se a desigualdade persisitir e aumentar, a ordem democrática estará fortemente ameaçada. Desde 1960, o comparecimento dos eleitores nos EUA diminuiu de 64% (1960) para pouco mais de 50% (1996), embora tenha aumentado ultimamente. Tal fato deixa perceceber que é uma democracia mais formal que real.


Esta tese sempre sustentada pelos melhores analistas sociais e repetida muitas vezes pelo autor destas linhas, se confirma: democracia e capitalismo não convivem. E se ela se instaura dentro da ordem capitalista, assume formas distorcidas e até traços de farça. Onde ela entra, estabelece imediatamente relações de desigualdade que, no dialeto da ética, significa relações de exploração e de injustiça. A democracia tem por pressuposto básico a igualdade de direitos dos cidadãos e o combate aos privilégios. Quando a desigualdade é ferida, abre-se espaço para o conflito de classes, a criação de elites privilegiadas, a subordinação de grupos, a corrupção, fenômenos visíveis em nossas democracias de baixíssima intensidade.


Piketty vê nos EUA e na Grã-Bretanha, onde o capitalismo é triunfante, os países mais desiguais, o que é atestado também por um dos maiores especialistas em desiguldade Richard Wilkinson. Nos EUA, executivos ganham 331 vezes mais que um trabalhador médio. Eric Hobsbown, numa de suas últimas intervenções antes de sua morte, diz claramente que a economia política ocidental do neoliberalismo “subordinou propositalmenet o bem-estar e a justiça social à tirania do PIB, o maior crescimento econômico possível, deliberadamente inequalitário”.


Em termos globais, citemos o corajoso documento da Oxfam intermón, enviado aos opulentos empresários e banqueiros reunidos em Davos nos janeiro deste ano como conclusão de seu “Relatório Governar para as Elites, Sequestro democrático e Desigualdade econômica”: 85 ricos têm dinheiro igual a 3,57 bihões de pobres do mundo.


O discurso ideológico aventado por esses plutocratas é que tal riqueza é fruto de ativos, de heranças e da meritocracia; as fortunas são conquistas merecidas, como recompensa pelos bons serviços prestados. Ofendem-se quando são apontados como o 1% de ricos contra os 99% dos demais cidadãos, pois se imaginam os grandes geradores de emprego.


Os prêmios Nobel, J. Stiglitz e P. Krugman têm mostrado que o dinheiro que receberam do Governo para salvarem seus bancos e empresas mal foram empregados na geração de empregos. Entraram logo na ciranda financeira mundial que rende sempre muito mais sem precisar trabalhar. E ainda há 21 trilhões de dólares nos paraísos fiscais de 91 mil pessoas.


Como é possível estabelecer relações mínimas de equidade, de participação, de cooperação e de real democracia quando se revelam estas excrecências humanas que se fazem surdas aos gritos que sobem da Terra e cegas sobre as chagas de milhões de co-semelhantes?


Voltemos à situação da desigualdade no Brasil. Orienta-nos o nosso melhor especialista na área, Márcio Pochmann (veja também Atlas da exclusão social – os ricos no Brasil, Cortez, 2004): 20 mil famílias vivem da aplicação de suas riquezas no circuito da financeirização, portanto, ganham através da especulação. Continua Poschmann: os 10% mais ricos da população impõem, historicamente, a ditadura da concentração, pois chegam a responder por quase 75% de toda riqueza nacional. Enquanto os 90% mais pobres ficam com apenas 25%”(Le Monde Diplomatique, outubro 2007).


Segundo dados de organismos econômicos da ONU de 2005, o Brasil era o oitavo país mais desigual do mundo. Mas graças às políticas sociais dos últimos dois governos, diga-se honrosamente, o índice de Geni (que mede as desigualdades) passou de 0,58 para 0,52. Em outras palavras, a desigualdade que continua enorme, caiu 17%.


Piketty não vê caminho mais curto para diminuir as desigualdades do que a severa intervenção do Estado e da taxação progressiva da riqueza, até 80%, o que apavora os super-ricos. Sábias são as palavras de Eric Hobsbown: “O objetivo da economia não é o ganho, mas sim o bem-estar de toda a população; o crescimento econômico não é um fim em si mesmo, mas um meio para dar vida a sociedades boas, humanas e justas”.


E como um gran finale a frase de Robert F. Kennedy: ”o PIB inclui tudo; exceto o que faz a vida valer a pena.”

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Pochmann: ortodoxia nostálgica e economicista

Publicado em 15 de maio de 2014 por BRUNO CAVA

Resenha de POCHMANN, Márcio. O mito da grande classe média; Capitalismo e estrutura social. São Paulo: Boitempo, 2014.
MarcioPochman
Fazer de um país fraco com miseráveis um país forte de classe média, este é o projeto declarado do governo. Seu slogan “país rico é país sem pobreza” se realiza publicitariamente na figura da “nova classe média”. Dezenas de milhões de brasileiros que, graças às políticas de inclusão social dos governos Lula/Dilma, “ascenderam” socialmente. São milhões de brasileiros incluídos no mercado de trabalho e consumo. Formou-se uma nova composição social. O mito da grande classe média, do economista Márcio Pochmann, se insere nessa discussão vívida sobre os projetos de desenvolvimento e suas bases sociais, políticas e econômicas.
O autor coloca em xeque que o Brasil esteja se tornando um país de classe média. O termo de comparação é a classe média surgida na Europa ocidental e nos Estados Unidos, no período seguinte à segunda guerra mundial. Naquele período, as economias centrais do capitalismo global se industrializaram densamente, segundo o modelo fordista. No fordismo, a construção da cidadania se dá pela inclusão no mercado de trabalho e consumo da grande indústria, e pela generalização do consumo de bens duráveis, como casa, carro e utensílios domésticos, que uma indústria nacional diversificada produz. Nesse contexto fordista, a esquerda europeia adotou a linha do reformismo gradual, de inspiração keynesiana, fundada na defesa de um estado forte, planificador e investidor da produção nacional, e garantidor direto dos direitos sociais como saúde, educação e transportes. Apoiada nas relações de produção do fordismo, essa esquerda se organizou em sujeitos e instâncias políticas típicas desse período: o sindicato, o partido operário, os movimentos sociais tradicionais, que pressionaram o capital e dele arrancaram direitos. Márcio explica que, como resultado dessa específica correlação de força entre capital e trabalho, operante no panorama fordista, foi possível formar no primeiro mundo uma “classe média densa e estruturada”, até então inédita.
O fordismo foi um fenômeno de regulação do capital bastante localizado histórica (1945-75) e geograficamente. Suas características simplesmente não aconteceram na América Latina em nenhum período. Hoje, em especial, a formação da “grande classe média” no Brasil não está condicionada pelas coordenadas próprias da luta de classe no fordismo. Não existem mais as condições históricas que propiciaram aqueles sujeitos políticos, suas formas de organização e atuação. O momento do capitalismo é de pós-industrialização da economia, com primazia do setor de serviços, globalização das cadeias produtivas e deslocalização financeira dos centros de comando. Na ausência da centralidade da grande indústria, desaparece também o operariado de massa, outrora estruturado politicamente em sindicatos e no partido operário
Para Márcio, a restruturação do capitalismo, na passagem do fordismo para o pós-fordismo, dissolveu as instâncias e sujeitos políticos daquela esquerda, que tanto serve de referência à boa fração da brasileira. Seguindo sua narrativa, com o derretimento das formas “clássicas” de lutas do trabalho, se desarticularam as formas de pressão e mediação ante o capital, o que por sua vez serviu de sésamo para a regressão das conquistas e direitos sociais. Nesse momento, o welfare state vira uma quimera política, já que a margem de lucratividade do capital se torna cada vez mais inacessível, rapidamente fluidificada e abstraída dos lugares da produção. A dinâmica do valor pulveriza-se mundialmente, movendo-se com liberdade por sobre as fronteiras, numa era de desregulamentação e privatização. Representado pelo neoliberalismo, o capitalismo no pós-fordismo se torna hegemônico a partir dos anos 1990, com a derrocada final do socialismo real e o desmantelamento do estado de bem estar social, nos países de primeiro mundo. O resultado disso é que a classe trabalhadora vira suco. É nesse cenário que se forma a “grande classe média”, consumidora sim de bens duráveis e inserida a seu modo no mercado de trabalho, porém desestruturada e inorgânica, enquanto classe. Impossibilitada de organizar-se, pressionar o capital e formular projetos alternativos em termos próprios, a nova classe trabalhadora termina por tendencialmente aderir aos valores do próprio capitalismo: despolitização, moralmente conservadora e consumista, atravessada inclusive por pulsões fascistas. Eis aí o diagnóstico pessimista de boa parte da esquerda brasileira, para quem a ascensão da “grande classe média” acelera o fim da história.
Então, o que fazer quando tudo está escoando? É aí que, segundo o quadro pintado por Márcio, só apareça um único sujeito com nitidez para disputar hegemonia com a dissolução final da pauta de classe e a consequente vitória derradeira do neoliberalismo. É o governo do PT e seu projeto de desenvolvimento, o único sujeito forte para formular e realizar uma estratégia vantajosa aos novos trabalhadores brasileiros. Diante de uma globalização que reserva ao Brasil um papel coadjuvante, faz-se necessário forjar um pacto abrangente entre o que sobrou da esquerda e a burguesia nacional mais esclarecida, a fim de inserir a economia do país nas cadeias produtivas globais em condições minimamente vantajosas. Isto significa, por um lado, enfrentar o “capital financeiro” e promover uma industrialização que diversifique o “setor produtivo”; por outro lado, dinamizar o mercado interno, combatendo as ineficiências e arcaísmos crônicos, incluindo todos nos circuitos de trabalho e consumo. Para o autor, não há alternativa à esquerda ao projeto do governo do PT, já que, afinal, não existem bases materiais para radicar outros sujeitos políticos ou tensionar uma “correlação de forças” muito desfavorável. Deveríamos nos unir, portanto, em estratégica coalizão pelos interesses industrial-nacionais.
***
Ao criticar o “mito” da “grande classe média”, Márcio no entanto tampouco enxerga o outro lado da inclusão social, patrocinando seus próprios mitos de esquerda desenvolvimentista. A estrutura social aparece como reflexo objetivo das transformações do capitalismo, como se o capital estivesse em épica jornada. No livro, a passagem do fordismo ao pós-fordismo é apresentada apenas como uma estratégia vitoriosa do capital, achatando a ambivalência do processo. Não aparece o lado da produção de subjetividade, a formação de novos sujeitos. Isto significa que só aparecem na análise os momentos de reorganização do capital, mas não da classe trabalhadora, suas transformações políticas e antropológicas. Porque ela muda, junto das mutações do próprio conceito de trabalho, que nunca foi a-histórico.
A cegueira da análise compromete as conclusões políticas. Márcio não lembra que o fordismo das economias centrais e também o socialismo real foram destruídos não por iniciativa do capital, mas antes pelas próprias lutas operárias. A passagem para o pós-fordismo foi uma imposição de uma luta de classe ampliada, ao que o capitalismo teve de reestruturar-se, reflexamente. As lutas operárias, anticoloniais, estudantis e feministas dos anos 1960 e 70 bombardearam a ordem fordista/socialista a tal ponto que o modelo se tornou produtiva e politicamente insustentável, em Paris, Nova Iorque, Budapeste ou Praga. A globalização do capital nunca avançou independente da globalização das lutas. Uma produção de subjetividade em disseminação mundial que explica não só o surgimento da cultura pop dos Beatles, como também a possibilidade de um movimento black power global ou de transformar a cultura em trincheira para a luta de classe. A classe trabalhadora quis virar suco. Seu projeto histórico não se limitava ao welfare state, este foi um projeto mediador e arbitral de uma esquerda dirigista aliada à parcela nacionalista da burguesia. O projeto era deixar o macacão em casa e organizar sua vida e seu tempo. Na base do fordismo ainda estava o pequeno patrão pai de família homem branco ocidental, governando com os jugos da família nuclear, do colonialismo e do racismo, da heteronorma — tudo isso que a esquerda clássica não fez autocrítica. Por isso, é mais correto politicamente enxergar que a classe não virou suco, ela se liquefez para escoar dos muros da sociedade disciplinar, nomadizou-se, derramando-se pela cidade, para produzir mais viva e liberta. Nada disso aparece na narrativa extremamente ortodoxa do autor. O livro traz argumentos ilustrados com tabelas e gráficos, como se estivesse reunindo dados empíricos, embora só consiga com isso reforçar o próprio economicismo, já abundante na narrativa.
A ortodoxia da análise repercute a ortodoxia de certa esquerda no governo, mas também fora dele. A “grande classe média” até agora falhou porque não reproduz a bitola da esquerda fordista/keynesiana. É um mito porque não se parece à “densa e estruturada” classe média fordista do segundo pós-guerra europeu e norte-americano, a Meca dos sonhos branco-esquerdistas. Já a nossa não passaria de um suco Tang: desestruturada e inorgânica, tendencialmente conservadora, manipulável, negativamente liquefeita a ponto de balouçar ao sabor das flutuações econômicas, correntes consumistas ou derivas midiáticas. Uma análise muito próxima de André Singer (Os sentidos do lulismo, 2012), que fala em “subproletariado”, realçando o caráter de “subclasse” da nova composição social. Estamos novamente na literatura de formação do Brasil, que diagnostica o fracasso congênito do projeto de desenvolvimento devido a suas heranças malditas: os ibéricos pessimistas e , os índios preguiçosos e atrasados, os negros malandros e sentimentais, as mulheres promíscuas… e por aí vai, cabendo à esquerda aliar-se com a burguesia mais esclarecida para modernizar e emancipar o país, seguindo o exemplo da modernidade colonizadora e São Paulo.
Tanto Márcio quanto André no fundo fazem a mesma coisa: uma história da luta de classe do ponto de vista do capital, uma ciência do capitalismo perfeitamente acomodável na ideologia do governo. Apesar de colocarem-se como críticos dos rumos do PT e vocalizadores de uma guinada à esquerda, seus livros estranhamente acabam parecendo justificativas lógicas para os pactos e mediações em que os governos Lula/Dilma, paulatinamente, se atolaram. É que, se a “nova classe média” que serve de base social ao governo é um suco manipulável facilmente pela direita, então é preciso apegar-se quase paranoicamente às últimas instâncias de organização da “boa e velha” classe, ao PT. E tentar realizar algum tipo de nacional-industrialismo e welfare dentro das tenebrosas condições pós-fordistas de hegemonia neoliberal.
Trata-se de um livro que reproduz a incapacidade crônica da esquerda, e não só no poder federal, em reconhecer culturas dissidentes e lutas heterodoxas na condição subdesenvolvida, além do marco da modernidade estatal e capitalista. Um livro estritamente ideológico, no sentido que sua narrativa passa a borracha nas resistências e desmerece sistematicamente as subjetividades. Não à toa, o levante de junho de 2013 seja um não-fato na narrativa de Márcio, enquanto Singer restringe-se a reconhecer-lhe um amorfo caráter reivindicativo. Os ideólogos não percebem que, — não fossem tão nostálgicos, nem acomodados nas pranchetas maceteadas de sua zona de conforto intelectual e política, — poderiam pesquisar e identificar outras bases materiais e sujeitos sociais, que atuam no pós-fordismo, dentro do suco, tensionando-lhe sem saudosismos.
Não seriam os termos pós-fordistas da luta, os mesmos termos em que, fora das economias centrais da Europa, se formaram as culturas diaspóricas, como os fluxos e redes afroatlânticas, em permanente reorganização e luta? Não poderíamos simplesmente pular a miragem da sociedade disciplinar fordista onde algo como o keynesianismo ainda poderia fazer sentido, e encontrar as nossas próprias tendências e coordenadas da luta de classe, além da fixidez e das estruturas “clássicas”? Nonsense, dirão! Para eles, não passa de pós-modernismo sofisticado, a serviço do avanço dissolvente da nêmese neoliberal. Com essa “nova classe média”, pelo jeito, precisaríamos mesmo era continuar fazendo o jogo da direita.

A Chave explicativa Global-Local: um momento lógico de esclarecimento.



Desafiando-me ao participar de uma seleção para professor de Sociologia da UFAM fui movido, pelo sorteio temático realizado, a dar uma "aula" sobre o Global e o local: Amazônia no Século XXI. Transcrevo abaixo a introdução que fiz da aula, texto escrito na tensão de apresentá-lo menos de 14 horas depois como ponto de partida da minha exposição.


Sem essa dimensão lógica a Amazônia sofreria de um déficit explicativo; não se pode compreendê-la ou interpretá-la isoladamente, sem situarmos sua geografia no âmbito das relações, processos e estruturas que agenciam a globalização. Sem essa chave analítica a Amazônia e o mundo seriam representados analiticamente pela desordem e pelo caos. Seus processos culturais, econômicos e políticos que  lhes são constitutivos são melhor visualizados sob esse prisma: A dialética Global e Local , em suas acomodações e conflitos, é definidora da formação social amazônica. Se há um devir-Mundo na Amazônia, existe igualmente um devir-Amazônia que atua sobre o mundo. Muito do que foi local, a exemplo da cultura ocidental, tornou-se global.
 Nesse sentido, podemos afirmar que Amazônia globaliza-se não apenas como receptáculo de forças, relações e processos vindos do mundo. A amazônia nesse mesmo processo se afirma e se recria diante do mundo, se coloca como força e ator na dinâmica global. Se o global habita o local, por outro lado, o local não deixa-se capturar; rebela-se, insurge-se, reinventa-se “desde baixo” e “por dentro” das estruturas globais, de  forma antropofágica.
Trata-se, pois, de um momento lógico muito fecundo para entender a dinâmica da Amazônia contemporânea no âmbito da globalização.
Poderíamos dizer que a Amazônia é emblemática nesse sentido; é um laboratório empírico  de articulações entre o local e o global, permite pensar e esclarecer não apenas as formas de poder, dominação e sociabilidade contemporâneos, mas igualmente é fonte para pensar lutas, resistências e emancipações.
Entender as relações entre o local e o global pressupõe, antes de mais nada, o entendimento adequado sobre os processos de globalização.  Aspecto a ser desenvolvido no segundo momento da presente aula. Sim. As relações entre o local e global no mundo contemporâneo  correspondem em boa medida aos movimentos da globalização enquanto modo de produção e processo civilizatório. A verdade é que todo empreendimento intelectual sobre a Amazônia não pode prescindir dessa chave analítica. Como seria explicar impactos locais de demandas globais como a mineração, soja e outros commodities cuja produção alteram profundamente as dinâmicas locais
O movimento entre o local e o global na Amazônia se traduz na redefinição entre Região e Nação, Nação e mundo, capital e trabalho, subdesenvolvimento e desenvolvimento, exploração e conservação, conhecimento científicos e conhecimentos tradicionais, ilustrados no terceiro momento da presente aula.
Não se pode negar que a Amazônia já fora narrada e interpretada múltiplas vezes, desde os viajantes, missionários, ficcionistas até as aquelas invenções mais recentes Europeias,  Americanas e a realizada pela nação brasileira, mas é no âmbito da globalização e suas articulações com a nação e o mundo, que a Amazônia tem as melhores condições e possibilidades para se pensar e firmar no mundo, enquanto geográfia, história, política e cultura autodeterminada, inventada horizontal e autopoieticamente em suas dialética complexas e não lineares, em sua zona de contato com as forças e relações externas.
A amazônia já foi periferia, inventada como periferia. No século XXI ela explode potentíssima como centro do mundo; o centro habita nas suas entranhas e como registra Ianni, Corrêia da Silva e Cocco, a crise da relação entre o centro e a periferia acena para superação em potencial, das dimensões hierárquicas e deterministas que condicionam o habitar da Amazônia no Mundo, me refiro os “ismos” que capturam suas energias insurgentes, colonialismo, neocolonialismo, imperialismo, neoliberalismo.
Por fim, vale registrar que através dessa perspectiva, visualizamos não apenas o mundo na Amazônia através dos movimentos que  a sociologia clássica apanhou teoricamente; modo de produção de produção, processo civilizatório, divisão social do trabalho, ocidentalização, racionalização, burocratização. Visualizamos igualmente a Amazônia no mundo, através de lutas, resistências, epistemologias pós-coloniais, processos de indigenização, saberes insurgentes. Sim! No Âmbito da dialética Global-Local na Amazônia do século XXI, não apenas identidades, culturas e conflitos se redefinem como simultaneamente se realiza uma amazonização do mundo (Cocco,2009). Está em curso um devir-Amazônia do Brasil e um devir-Amazônia do mundo marcado pela hibridização, crioulização, pluralidade e  libertação de uma cosmologia ameríndia que requalifica as ideias de crescimento, desenvolvimento e progresso, expressões evolucionistas e lineares da  “máquina antropológica do ocidente”.
 Um exemplo dessa dialética antropofágica no âmbito da teoria pode ser vista em Marx Selvagem (Tible,2013) expressão de uma interlocução crítica e radical entre o local selvagem representado pelo pensamento revolucionário de Mariategui e o Global , representado pela tradição crítica elaborada por Marx. O diálogo de Marx com os “povos sem história” ou “América Indígena” , impacta de modo notável seus últimos escritos. Tal impacto se realizou como autocrítica ao seu pensamento, permitindo um “deslocamento de posições eurocêntricas, em direção a uma crescente abertura ao ‘outro’”. É assim que Marx indigeniza-se, coloca em xeque sua perspectiva linear de história e passa a vislumbrar possibilidades de rupturas emancipatórias através da potencialização dos comunismos primitivos, a exemplo da organização social dos Iroqueses estudadas por Morgan, cujo material etnológico Marx leu com fascínio. Eis um exemplo criativo e rebelde (Demo,2012) da dialética local-Global no plano teórico, cabe agora pensar possibilidades práticas dessa perspectiva.

Cumpri agora registrar o panorama lógico e histórico sobre o nexo explicativo Global-Local na Amazônia no século XXI, intenção primeira da presente aula. O objetivo é, pois, iniciar o debate e quiçá convertê-lo em uma disciplina acadêmica.