quinta-feira, 15 de maio de 2014

Pochmann: ortodoxia nostálgica e economicista

Publicado em 15 de maio de 2014 por BRUNO CAVA

Resenha de POCHMANN, Márcio. O mito da grande classe média; Capitalismo e estrutura social. São Paulo: Boitempo, 2014.
MarcioPochman
Fazer de um país fraco com miseráveis um país forte de classe média, este é o projeto declarado do governo. Seu slogan “país rico é país sem pobreza” se realiza publicitariamente na figura da “nova classe média”. Dezenas de milhões de brasileiros que, graças às políticas de inclusão social dos governos Lula/Dilma, “ascenderam” socialmente. São milhões de brasileiros incluídos no mercado de trabalho e consumo. Formou-se uma nova composição social. O mito da grande classe média, do economista Márcio Pochmann, se insere nessa discussão vívida sobre os projetos de desenvolvimento e suas bases sociais, políticas e econômicas.
O autor coloca em xeque que o Brasil esteja se tornando um país de classe média. O termo de comparação é a classe média surgida na Europa ocidental e nos Estados Unidos, no período seguinte à segunda guerra mundial. Naquele período, as economias centrais do capitalismo global se industrializaram densamente, segundo o modelo fordista. No fordismo, a construção da cidadania se dá pela inclusão no mercado de trabalho e consumo da grande indústria, e pela generalização do consumo de bens duráveis, como casa, carro e utensílios domésticos, que uma indústria nacional diversificada produz. Nesse contexto fordista, a esquerda europeia adotou a linha do reformismo gradual, de inspiração keynesiana, fundada na defesa de um estado forte, planificador e investidor da produção nacional, e garantidor direto dos direitos sociais como saúde, educação e transportes. Apoiada nas relações de produção do fordismo, essa esquerda se organizou em sujeitos e instâncias políticas típicas desse período: o sindicato, o partido operário, os movimentos sociais tradicionais, que pressionaram o capital e dele arrancaram direitos. Márcio explica que, como resultado dessa específica correlação de força entre capital e trabalho, operante no panorama fordista, foi possível formar no primeiro mundo uma “classe média densa e estruturada”, até então inédita.
O fordismo foi um fenômeno de regulação do capital bastante localizado histórica (1945-75) e geograficamente. Suas características simplesmente não aconteceram na América Latina em nenhum período. Hoje, em especial, a formação da “grande classe média” no Brasil não está condicionada pelas coordenadas próprias da luta de classe no fordismo. Não existem mais as condições históricas que propiciaram aqueles sujeitos políticos, suas formas de organização e atuação. O momento do capitalismo é de pós-industrialização da economia, com primazia do setor de serviços, globalização das cadeias produtivas e deslocalização financeira dos centros de comando. Na ausência da centralidade da grande indústria, desaparece também o operariado de massa, outrora estruturado politicamente em sindicatos e no partido operário
Para Márcio, a restruturação do capitalismo, na passagem do fordismo para o pós-fordismo, dissolveu as instâncias e sujeitos políticos daquela esquerda, que tanto serve de referência à boa fração da brasileira. Seguindo sua narrativa, com o derretimento das formas “clássicas” de lutas do trabalho, se desarticularam as formas de pressão e mediação ante o capital, o que por sua vez serviu de sésamo para a regressão das conquistas e direitos sociais. Nesse momento, o welfare state vira uma quimera política, já que a margem de lucratividade do capital se torna cada vez mais inacessível, rapidamente fluidificada e abstraída dos lugares da produção. A dinâmica do valor pulveriza-se mundialmente, movendo-se com liberdade por sobre as fronteiras, numa era de desregulamentação e privatização. Representado pelo neoliberalismo, o capitalismo no pós-fordismo se torna hegemônico a partir dos anos 1990, com a derrocada final do socialismo real e o desmantelamento do estado de bem estar social, nos países de primeiro mundo. O resultado disso é que a classe trabalhadora vira suco. É nesse cenário que se forma a “grande classe média”, consumidora sim de bens duráveis e inserida a seu modo no mercado de trabalho, porém desestruturada e inorgânica, enquanto classe. Impossibilitada de organizar-se, pressionar o capital e formular projetos alternativos em termos próprios, a nova classe trabalhadora termina por tendencialmente aderir aos valores do próprio capitalismo: despolitização, moralmente conservadora e consumista, atravessada inclusive por pulsões fascistas. Eis aí o diagnóstico pessimista de boa parte da esquerda brasileira, para quem a ascensão da “grande classe média” acelera o fim da história.
Então, o que fazer quando tudo está escoando? É aí que, segundo o quadro pintado por Márcio, só apareça um único sujeito com nitidez para disputar hegemonia com a dissolução final da pauta de classe e a consequente vitória derradeira do neoliberalismo. É o governo do PT e seu projeto de desenvolvimento, o único sujeito forte para formular e realizar uma estratégia vantajosa aos novos trabalhadores brasileiros. Diante de uma globalização que reserva ao Brasil um papel coadjuvante, faz-se necessário forjar um pacto abrangente entre o que sobrou da esquerda e a burguesia nacional mais esclarecida, a fim de inserir a economia do país nas cadeias produtivas globais em condições minimamente vantajosas. Isto significa, por um lado, enfrentar o “capital financeiro” e promover uma industrialização que diversifique o “setor produtivo”; por outro lado, dinamizar o mercado interno, combatendo as ineficiências e arcaísmos crônicos, incluindo todos nos circuitos de trabalho e consumo. Para o autor, não há alternativa à esquerda ao projeto do governo do PT, já que, afinal, não existem bases materiais para radicar outros sujeitos políticos ou tensionar uma “correlação de forças” muito desfavorável. Deveríamos nos unir, portanto, em estratégica coalizão pelos interesses industrial-nacionais.
***
Ao criticar o “mito” da “grande classe média”, Márcio no entanto tampouco enxerga o outro lado da inclusão social, patrocinando seus próprios mitos de esquerda desenvolvimentista. A estrutura social aparece como reflexo objetivo das transformações do capitalismo, como se o capital estivesse em épica jornada. No livro, a passagem do fordismo ao pós-fordismo é apresentada apenas como uma estratégia vitoriosa do capital, achatando a ambivalência do processo. Não aparece o lado da produção de subjetividade, a formação de novos sujeitos. Isto significa que só aparecem na análise os momentos de reorganização do capital, mas não da classe trabalhadora, suas transformações políticas e antropológicas. Porque ela muda, junto das mutações do próprio conceito de trabalho, que nunca foi a-histórico.
A cegueira da análise compromete as conclusões políticas. Márcio não lembra que o fordismo das economias centrais e também o socialismo real foram destruídos não por iniciativa do capital, mas antes pelas próprias lutas operárias. A passagem para o pós-fordismo foi uma imposição de uma luta de classe ampliada, ao que o capitalismo teve de reestruturar-se, reflexamente. As lutas operárias, anticoloniais, estudantis e feministas dos anos 1960 e 70 bombardearam a ordem fordista/socialista a tal ponto que o modelo se tornou produtiva e politicamente insustentável, em Paris, Nova Iorque, Budapeste ou Praga. A globalização do capital nunca avançou independente da globalização das lutas. Uma produção de subjetividade em disseminação mundial que explica não só o surgimento da cultura pop dos Beatles, como também a possibilidade de um movimento black power global ou de transformar a cultura em trincheira para a luta de classe. A classe trabalhadora quis virar suco. Seu projeto histórico não se limitava ao welfare state, este foi um projeto mediador e arbitral de uma esquerda dirigista aliada à parcela nacionalista da burguesia. O projeto era deixar o macacão em casa e organizar sua vida e seu tempo. Na base do fordismo ainda estava o pequeno patrão pai de família homem branco ocidental, governando com os jugos da família nuclear, do colonialismo e do racismo, da heteronorma — tudo isso que a esquerda clássica não fez autocrítica. Por isso, é mais correto politicamente enxergar que a classe não virou suco, ela se liquefez para escoar dos muros da sociedade disciplinar, nomadizou-se, derramando-se pela cidade, para produzir mais viva e liberta. Nada disso aparece na narrativa extremamente ortodoxa do autor. O livro traz argumentos ilustrados com tabelas e gráficos, como se estivesse reunindo dados empíricos, embora só consiga com isso reforçar o próprio economicismo, já abundante na narrativa.
A ortodoxia da análise repercute a ortodoxia de certa esquerda no governo, mas também fora dele. A “grande classe média” até agora falhou porque não reproduz a bitola da esquerda fordista/keynesiana. É um mito porque não se parece à “densa e estruturada” classe média fordista do segundo pós-guerra europeu e norte-americano, a Meca dos sonhos branco-esquerdistas. Já a nossa não passaria de um suco Tang: desestruturada e inorgânica, tendencialmente conservadora, manipulável, negativamente liquefeita a ponto de balouçar ao sabor das flutuações econômicas, correntes consumistas ou derivas midiáticas. Uma análise muito próxima de André Singer (Os sentidos do lulismo, 2012), que fala em “subproletariado”, realçando o caráter de “subclasse” da nova composição social. Estamos novamente na literatura de formação do Brasil, que diagnostica o fracasso congênito do projeto de desenvolvimento devido a suas heranças malditas: os ibéricos pessimistas e , os índios preguiçosos e atrasados, os negros malandros e sentimentais, as mulheres promíscuas… e por aí vai, cabendo à esquerda aliar-se com a burguesia mais esclarecida para modernizar e emancipar o país, seguindo o exemplo da modernidade colonizadora e São Paulo.
Tanto Márcio quanto André no fundo fazem a mesma coisa: uma história da luta de classe do ponto de vista do capital, uma ciência do capitalismo perfeitamente acomodável na ideologia do governo. Apesar de colocarem-se como críticos dos rumos do PT e vocalizadores de uma guinada à esquerda, seus livros estranhamente acabam parecendo justificativas lógicas para os pactos e mediações em que os governos Lula/Dilma, paulatinamente, se atolaram. É que, se a “nova classe média” que serve de base social ao governo é um suco manipulável facilmente pela direita, então é preciso apegar-se quase paranoicamente às últimas instâncias de organização da “boa e velha” classe, ao PT. E tentar realizar algum tipo de nacional-industrialismo e welfare dentro das tenebrosas condições pós-fordistas de hegemonia neoliberal.
Trata-se de um livro que reproduz a incapacidade crônica da esquerda, e não só no poder federal, em reconhecer culturas dissidentes e lutas heterodoxas na condição subdesenvolvida, além do marco da modernidade estatal e capitalista. Um livro estritamente ideológico, no sentido que sua narrativa passa a borracha nas resistências e desmerece sistematicamente as subjetividades. Não à toa, o levante de junho de 2013 seja um não-fato na narrativa de Márcio, enquanto Singer restringe-se a reconhecer-lhe um amorfo caráter reivindicativo. Os ideólogos não percebem que, — não fossem tão nostálgicos, nem acomodados nas pranchetas maceteadas de sua zona de conforto intelectual e política, — poderiam pesquisar e identificar outras bases materiais e sujeitos sociais, que atuam no pós-fordismo, dentro do suco, tensionando-lhe sem saudosismos.
Não seriam os termos pós-fordistas da luta, os mesmos termos em que, fora das economias centrais da Europa, se formaram as culturas diaspóricas, como os fluxos e redes afroatlânticas, em permanente reorganização e luta? Não poderíamos simplesmente pular a miragem da sociedade disciplinar fordista onde algo como o keynesianismo ainda poderia fazer sentido, e encontrar as nossas próprias tendências e coordenadas da luta de classe, além da fixidez e das estruturas “clássicas”? Nonsense, dirão! Para eles, não passa de pós-modernismo sofisticado, a serviço do avanço dissolvente da nêmese neoliberal. Com essa “nova classe média”, pelo jeito, precisaríamos mesmo era continuar fazendo o jogo da direita.

A Chave explicativa Global-Local: um momento lógico de esclarecimento.



Desafiando-me ao participar de uma seleção para professor de Sociologia da UFAM fui movido, pelo sorteio temático realizado, a dar uma "aula" sobre o Global e o local: Amazônia no Século XXI. Transcrevo abaixo a introdução que fiz da aula, texto escrito na tensão de apresentá-lo menos de 14 horas depois como ponto de partida da minha exposição.


Sem essa dimensão lógica a Amazônia sofreria de um déficit explicativo; não se pode compreendê-la ou interpretá-la isoladamente, sem situarmos sua geografia no âmbito das relações, processos e estruturas que agenciam a globalização. Sem essa chave analítica a Amazônia e o mundo seriam representados analiticamente pela desordem e pelo caos. Seus processos culturais, econômicos e políticos que  lhes são constitutivos são melhor visualizados sob esse prisma: A dialética Global e Local , em suas acomodações e conflitos, é definidora da formação social amazônica. Se há um devir-Mundo na Amazônia, existe igualmente um devir-Amazônia que atua sobre o mundo. Muito do que foi local, a exemplo da cultura ocidental, tornou-se global.
 Nesse sentido, podemos afirmar que Amazônia globaliza-se não apenas como receptáculo de forças, relações e processos vindos do mundo. A amazônia nesse mesmo processo se afirma e se recria diante do mundo, se coloca como força e ator na dinâmica global. Se o global habita o local, por outro lado, o local não deixa-se capturar; rebela-se, insurge-se, reinventa-se “desde baixo” e “por dentro” das estruturas globais, de  forma antropofágica.
Trata-se, pois, de um momento lógico muito fecundo para entender a dinâmica da Amazônia contemporânea no âmbito da globalização.
Poderíamos dizer que a Amazônia é emblemática nesse sentido; é um laboratório empírico  de articulações entre o local e o global, permite pensar e esclarecer não apenas as formas de poder, dominação e sociabilidade contemporâneos, mas igualmente é fonte para pensar lutas, resistências e emancipações.
Entender as relações entre o local e o global pressupõe, antes de mais nada, o entendimento adequado sobre os processos de globalização.  Aspecto a ser desenvolvido no segundo momento da presente aula. Sim. As relações entre o local e global no mundo contemporâneo  correspondem em boa medida aos movimentos da globalização enquanto modo de produção e processo civilizatório. A verdade é que todo empreendimento intelectual sobre a Amazônia não pode prescindir dessa chave analítica. Como seria explicar impactos locais de demandas globais como a mineração, soja e outros commodities cuja produção alteram profundamente as dinâmicas locais
O movimento entre o local e o global na Amazônia se traduz na redefinição entre Região e Nação, Nação e mundo, capital e trabalho, subdesenvolvimento e desenvolvimento, exploração e conservação, conhecimento científicos e conhecimentos tradicionais, ilustrados no terceiro momento da presente aula.
Não se pode negar que a Amazônia já fora narrada e interpretada múltiplas vezes, desde os viajantes, missionários, ficcionistas até as aquelas invenções mais recentes Europeias,  Americanas e a realizada pela nação brasileira, mas é no âmbito da globalização e suas articulações com a nação e o mundo, que a Amazônia tem as melhores condições e possibilidades para se pensar e firmar no mundo, enquanto geográfia, história, política e cultura autodeterminada, inventada horizontal e autopoieticamente em suas dialética complexas e não lineares, em sua zona de contato com as forças e relações externas.
A amazônia já foi periferia, inventada como periferia. No século XXI ela explode potentíssima como centro do mundo; o centro habita nas suas entranhas e como registra Ianni, Corrêia da Silva e Cocco, a crise da relação entre o centro e a periferia acena para superação em potencial, das dimensões hierárquicas e deterministas que condicionam o habitar da Amazônia no Mundo, me refiro os “ismos” que capturam suas energias insurgentes, colonialismo, neocolonialismo, imperialismo, neoliberalismo.
Por fim, vale registrar que através dessa perspectiva, visualizamos não apenas o mundo na Amazônia através dos movimentos que  a sociologia clássica apanhou teoricamente; modo de produção de produção, processo civilizatório, divisão social do trabalho, ocidentalização, racionalização, burocratização. Visualizamos igualmente a Amazônia no mundo, através de lutas, resistências, epistemologias pós-coloniais, processos de indigenização, saberes insurgentes. Sim! No Âmbito da dialética Global-Local na Amazônia do século XXI, não apenas identidades, culturas e conflitos se redefinem como simultaneamente se realiza uma amazonização do mundo (Cocco,2009). Está em curso um devir-Amazônia do Brasil e um devir-Amazônia do mundo marcado pela hibridização, crioulização, pluralidade e  libertação de uma cosmologia ameríndia que requalifica as ideias de crescimento, desenvolvimento e progresso, expressões evolucionistas e lineares da  “máquina antropológica do ocidente”.
 Um exemplo dessa dialética antropofágica no âmbito da teoria pode ser vista em Marx Selvagem (Tible,2013) expressão de uma interlocução crítica e radical entre o local selvagem representado pelo pensamento revolucionário de Mariategui e o Global , representado pela tradição crítica elaborada por Marx. O diálogo de Marx com os “povos sem história” ou “América Indígena” , impacta de modo notável seus últimos escritos. Tal impacto se realizou como autocrítica ao seu pensamento, permitindo um “deslocamento de posições eurocêntricas, em direção a uma crescente abertura ao ‘outro’”. É assim que Marx indigeniza-se, coloca em xeque sua perspectiva linear de história e passa a vislumbrar possibilidades de rupturas emancipatórias através da potencialização dos comunismos primitivos, a exemplo da organização social dos Iroqueses estudadas por Morgan, cujo material etnológico Marx leu com fascínio. Eis um exemplo criativo e rebelde (Demo,2012) da dialética local-Global no plano teórico, cabe agora pensar possibilidades práticas dessa perspectiva.

Cumpri agora registrar o panorama lógico e histórico sobre o nexo explicativo Global-Local na Amazônia no século XXI, intenção primeira da presente aula. O objetivo é, pois, iniciar o debate e quiçá convertê-lo em uma disciplina acadêmica. 

sábado, 15 de fevereiro de 2014

É hora de retomar a reflexão!

      Na minha dissertação intitulada "NARRATIVAS SOBRE A CRISE ECONÔMICA MUNDIAL E CRISE DAS REPRESENTAÇÕES: O QUE A CRISE EVIDENCIA ?" sugeri a hipótese de que a crise que irrompera nos EUA (em 2008) e que se alastrara pela Europa estava intimamente conectada com as implicações dos processos de globalização ( que permitiu por exemplo o "big bang" dos mercados financeiros, isto é, a conexão online dos mercados ) e ela (a crise ) explicitava os principais impasses de uma ruptura histórica-epistemológica em curso. Um indicador ou sintoma dessa ruptura estaria na redefinição das "representações coletivas"  em escala global, especialmente as representações tradicionais  vinculadas a dimensão política.              
    Registrei que os "Indignados" na Espanha, Occupy nos EUA e as "jornadas de junho" no brasil se inscreviam nesse processo de redefinição. 

   Eu estava apenas intuindo no calor dos acontecimentos da conjuntura global, mas me parece apropriado retomar as reflexões considerando, sobretudo, a conjuntura nacional após junho de 2013, afinal, seus desdobramentos estão se prolongando e parecem indicar uma ruptura em curso.

   Um trecho da dissertação para deixar mais claro a ideia de crise e redefinição das "representações coletivas".

p.194-197

    "As representações coletivas em Durkheim em termos conceituais possuem uma vinculação direta com os fatos sociais.  São, portanto, maneiras de pensar, sentir e agir internalizadas durante o  aprendizado nas instituições de socialização e terminam por orientar a experiência individual. Funcionam enquanto crença,  “institui fora de nó certos modos de agir e certos juízos que não dependem de cada vontade particular tomada isoladamente”. Vale ressaltar que em Durkheim as representações coletivas não são entidades que pairam sobre o indivíduo, “ Sem dúvida, cada um contem alguma coisa dela; mas ela não existe inteira em nenhum”. mas  se constituem na forma e conteúdo com que este opera no cotidiano, pois,  “as representações coletivas são o conteúdo conceitual interno da sociedade. O conceito expressa a maneira que a sociedade, no seu conjunto, representa os objetos da experiência. Se o conceito muda, não é porque está na sua natureza mudar, mas porque descobrimos nele uma imperfeição, é porque ele deve ser corrigido. O conceito torna-se, de alguma maneira, uma ferramenta da existência coletiva; se ele é imperfeito ou torna-se inútil, nós o mudamos”. (  Durkheim, 2004, 2005, 2009 )

    Não temos dúvida de que esse processo de mudança conceitual entrelaçada com as mudanças de pensar, sentir e agir se realizam continuamente e nunca param, contudo, devemos salientar que existem momentos crísicos  onde essa mudança acelera, ocorre de maneira abrupta, pegando muitos de surpresa ao deslocar os quadros habituais de apreender e classificar as eventos e movimentos sociais, políticos e econômicos que nos condicionam.

     Esse é o momento que Durkheim torna-se extremamente atual, pois tal como sugere Ianni, as ideias ou categorias forjadas exclusivamente no interior do Estado-nação (Democracia, Partido, sociedade civil, Sindicato etc.. ) estão em crise, redefinição, tal redefinição é precisamente a reformulação das representações coletivas, do “conteúdo conceitual interno da sociedade”. Ora, se os indivíduos, grupos, coletividades e nações percebem na “pele” que tais conceitos e sua realização prática não está coerente, não faz sentido , é porque tais conceitos se realizam de forma imperfeita, tornam-se inúteis, daí a vivacidade da multidão que de repente foi para as ruas em várias partes do mundo para mudarem tais conceitos, representações coletivas que carecem de legitimidade, isto é,  precisam de atualização histórica.

     Na esteira dessa reflexão podemos afirmar que o quadro de crise e mudança representacional pode se incluir como evento emblemático daquilo que Santos designa por “transição paradigmática”  que tem como uma de suas características uma “crise de confiança epistemológica, de crescente confrontação entre conhecimentos rivais”, onde a ciência, o direito – acrescentaria a política -  como motores da racionalidade moderna explicitam seus limites ( sua arrogância ) indicando a exaustão da modernidade ocidental defrontada com os entulhos do “progresso”, “modernização”, “desenvolvimento” que sua “monocultura racional” tem amontoado nas últimas décadas. 

    A conjuntura de múltiplas crises e déficit teórico e político para solucioná-las revelam a incapacidade da racionalidade ocidental ( racionalidade da dominação do mundo ) para realizar uma autocritica e se reinventar diante dos desafios que se apresentam. 

    Redefinição de representações coletivas podemos sugerir é a resposta crítica e criativa de grupos e coletividades para fazer face a crise da racionalidade ocidental, para tentar renová-la a partir de outros saberes, lógicas e processos que a médio e longo prazo possam constituir uma nova gramática epocal. Essa nova gramática talvez se revele com mais lucidez no léxico das lutas e resistências que se realizam em várias partes do mundo, viabilizando a reinvenção da política através de processos instituintes, gerados na efervescências das lutas e movimentos  políticos concretos, que criam, recriam e reorganizam através de suas experiências, as instituições que vão referenciar  os horizontes  de vida e trabalho, práticas e usos sociais das próximas gerações.

    Em uma conjuntura onde as representações coletivas estavam se tornando cada vez mais globais  e cuja vanguarda representacional estava sendo realizada sobretudo por algumas empresas transnacionais e agencias multilaterais no contexto da globalização dos mercados  ( globalização hegemônica ), as lutas e resistências de caráter contra-hegemônico  assumem vital importância no sentido de desestabilizar a repetição do presente enquanto ideologia assente no “fim da história. 

    O futuro deixa ser repetição ( economia de mercado e democracias liberais que dinamizam os fluxos do capital ) e abre-se, nervoso e instável, para experimentação política, social e econômica no interior de lutas institucionais e extra-institucionais em várias escalas que,  operadas por  subjetividades rebeldes e insurgentes tateiam de forma ousada “ampliar o presente” e “antecipar o futuro”  através de  outros regimes de existência e coexistência."

sábado, 11 de janeiro de 2014

CAVA, Bruno. A Multidão foi ao deserto: As manifestações no Brasil em 2013 (Junho-Outubro) – São Paulo: Annablume.156 páginas.




“Em 2013, a poeira debaixo do tapete acabou por levantar o tapete, despindo a dominação de seu discreto charme e sua altiva soberba” Bruno Cava

A multidão foi ao deserto  é um livro que exala paixão pela resistência, resultado da práxis de um “pensador-manifestante” (p.9). A cartografia das lutas e microinsurreições é tecida em 20 textos; 2 entrevistas, 4 textos escritos em parceria e 14 que foram publicados inicialmente em seu blog quadradodosloucos.com.br, espaço no qual o autor articula literariamente o “campo das lutas e das ideias”, “produzindo conhecimento nas lutas e para as lutas” (p.120),  produto de co-pesquisa.

      Se a narrativa captura por dentro um evento inscrito no tempo e espaço, contextualizado será igualmente os interlocutores que durante os acontecimentos travaram debates analíticos e teóricos sobre os desdobramentos múltiplos das manifestações. Parte da interlocução se realizou com os pesquisadores colaboradores da Universidade Nômade ( UniNômade brasileira)  entre os quais Giuseppe Cocco, Alexandre Mendes, Hugo Albuquerque, Bárbara Szaniecki entre outros que mobilizam o arsenal teórico e analítico do Filósofo Italiano Antonio Negri para pensar as relações e processos insuspeitados que conformam as transformações  do devir brasileiro e mundial.


       Pensando o livro objetivamente pode-se afirmar que o mesmo exala política, política em sentido bruto; das formas pelas quais razões, interesses e afetos “selvagens” se convertem em resistências e lutas extra-institucionais face ao poder da ordem, poder constituído.

   Trata-se de uma lúcida análise de conjuntura do Brasil contemporâneo! Apresenta-se, portanto, não apenas como parte da política, é em si mesmo um ato político. Como diria Betinho (2009:8) faz análise política quem faz política, mesmo sem saber. Neste caso em particular o autor do livro, Bruno Cava, sabe que seu texto é “uma arma de combate” pela qual articula estrutura e conjuntura do Brasil contemporâneo, mapeando acontecimentos, cenários, atores e correlações de forças explicitadas de forma aguda no evento[1] de junho.


      A imersão do autor no interior das lutas se comprova pela pela etnografia dos acontecimentos, lugares, performances e seus atores. Sua militância se homologa pelo risco assumido entre o ricochetear das balas e lançamentos de gás lacrimogêneo acionados pela política da violência e criminalização. Se legitima pela expressão fenomenológica que o texto apresenta; captando intuitiva e intelectualmente ritmos, movimentos, sonoridades, cores e sensibilidades que atravessaram os corpos da multidão enquanto experiência ontológica. Consciência e evento, experiência e razão, campo de lutas e de idéias são mobilizadas processualmente para constituição do texto, “um evento no evento” segundo Giuseppe Cocco, alem de “um belo momento de luta”, sem insinuar-se “vanguarda”.

     É assim que Cava apanha criticamente no interior das manifestações o movimento real do campo político brasileiro; mapeia as lutas e suas respectivas agendas, táticas e estratégias; registra as artimanhas do poder dominante com suas formas de controle e captura dos poderes que colocam a “terra em transe”. Sua análise corresponde a  uma desnaturalização de um Brasil “Maior” realizada por um mosaico de micronarrativas tecidas “por dentro” das manifestações, no calor das lutas e no sofrimento dos corpos que não apenas resistiam a um “choque de ordem”, mas igualmente denunciavam as rachaduras, contradições e conflitos de um Brasil escravocrata, racista e colonial. Sim! Este livro se fez nas lutas e pelas lutas e trata, sobretudo, das relações e tensões do poder constituído contra o poder constituinte.

       Cava deixa claro que o ciclo de lutas atacou frontalmente não apenas a imagem superlativa de uma Brasil “para inglês ver” mas, sobretudo, a máquina representativa, responsável por operacionalizar uma democracia mesquinha de baixa intensidade, capturada pela lógica econômica  que regula, pacifica e converte os votos e zonas eleitorais em territórios onde os fluxos de capital devem circular com segurança.


     Evidência que ciclos de protestos e indignações não são particularidades de países que estão inscritos em crises econômicas e financeiras, que existe um “fator global” em cena, disparado pelas revoluções árabes em 2011 (p.51). Segundo Cava as manifestações no Brasil “se inserem no ciclo global de lutas insurrecionais e constituintes” (p.81). Lutas e microinsurreições podem igualmente ocorrer em momentos de expansão do capital, de crescimento econômico e inclusão social. Aliás, segundo o autor as manifestações também expressam um revolta com um certo tipo de inclusão (p.109). Resumidamente Cava sugere, captando os sentidos em mudança, que a “realidade está solta, sem gentileza pros esquemas” (p46;56;55), por isso a mídia corporativa com seu arsenal de jornalistas  e os partidos tradicionais erraram amplamente na explicação do evento.


       A multidão de Junho em sua retroalimentação entre redes e ruas atravessou o Brasil de Oiapoque ao Chuí em um contexto de relativo  crescimento econômico, baixas taxas de desemprego e forte inclusão social realizada na última década que criou as condições para emergência da “nova classe média”; “monstro” forjado pelo Lulismo,  seu melhor produto e pior pesadelo, que de repente ousou “querer mais” e saiu às ruas, gerando incompreensão e perplexidade da direita à esquerda, que impossibilitadas de ler a multidão de junho (p.43;78;106) trataram imediatamente de desqualificá-la (p.86), criminalizá-la. Da mobilização produtiva de caráter econômico originou-se por dentro das políticas oficiais uma criativa mobilização produtiva da multidão de pobres, emergentes e bárbaros que ousaram não apenas dinamizar o mercado interno ( atenuando o impacto da forte crise que atingia a Europa e os EUA ) mas abalar o mundo política brasileiro, dinamizando igualmente as condições históricas e políticas de mudança social.

     O livro está recheado de intuições e lampejos teóricos que transbordam de texto em texto, contudo, para finalizar a presente resenha cabe sugerir o que seria o argumento central do conjunto de textos: que o ciclo de lutas, protestos, tumultos e resistências se inscreve em um contexto de “constituição selvagem” ainda em curso, uma mudança subjetiva de larga escala nascida do crescimento econômico (p.11) e caracterizada pela nova composição social brasileira (p.106) que em um certo momento de suas ascensão cansou das múltiplas e naturalizadas violências e humilhações da qual seu corpo ainda é objeto; uma violência seletiva, “cristalizada no ônibus, no metrô, no hospital, na escola, na arquitetura (p.103), na atuação da polícia que mata, enfim, nas operações de higienização, remoção e expropriação explicitadas em um projeto de cidade que privilegia grandes projetos e eventos em detrimento do trabalhador metropolitano. Sim! Os corpos da multidão se chocam contra um projeto de cidade (p.59), contra um estado distante da composição social, “incapaz de comunicar-se, de ser perpassado desde baixo” (p.117) e que prossegue bloqueando  perspectivas de vida, ampliação de liberdades.


      A mudança na esteira das manifestações de junho converteram-se em novas relações entre Estado e sociedade, mas impactaram especial e irreversivelmente a percepção política de toda uma geração, traduzindo-se numa mudança em curso da cultura política brasileira que apesar de  funcionar pela “pacificação do dissenso” e “esquemas de governabilidade” nada transparentes, agora se vê mexida por

 “forças subterrâneas e míticas, até então mantidas escravas e domesticáveis(..) que desobstruíram forças, desataram conflitos, desencadearam possibilidades. Nascidos de pressões insuportáveis, pelas quais se movem e vivem as tensões sociais, políticas e econômicas do novo brasil e os ‘custos do progresso’. Foi como se placas tectônicas tivessem se mexido, transmitindo abalos em vários níveis, mudando a paisagem, reconfigurando espaços e temporalidade da políticas brasileira” ( CAVA,2013, p.134)

BIBLIOGRAFIA
SOUZA, Herbert J.S. Como se faz análise de conjuntura. 3ª Edição.  Petrópolis, RJ:Editora Vozes, 2009
NEGRI, Antonio.Kairós, Alma vênus, Multitudo: Nove lições ensinadas a mim mesmo. Rio de Janeiro: DP&A,2003




[1] Ver  (p.39) Kairós, prolegômenos do nome comum. In: Kairós, Alma vênus, Multitudo. Antonio Negri Evento significa um temporalidade histórica onde o “nomear e coisa nomeada nascem ao mesmo tempo. Ambos são chamados a existir: nesse sentido, o nome e nome comum constituem um evento.





quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Indignação na Amazônia: O fogo da multidão em Tapauá




Recentemente fui a Canutama, Municipio do sul do Amazonas, colaborar com uma equipe do NUSEC/UFAM e CEUC em uma OPP ( Oficina de Planejamento Participativo ), momento especialmente democrático para definição do plano de gestão de uma unidade de conservação.
A cultura política da resignação e subordinação associadas ao clientelismo e mandonismo local com seus "patrões" persiste, contudo, há indícios de que vem sendo aos poucos e  cada vez mais desafiada pela multidão amazônica. Uma má notícia para os pessimistas ( autoproclamados realistas) que acreditam que nada muda nessas plagas. Por aqui também existe resistência, certamente imprecisa, “sem” objetivos bem definidos, difusa e aparentemente sem sentido, não deixa, porém, de ser um sintoma de mudanças subterrâneas que estão ocorrendo.
Minha afirmação é contextualizada, não expressa uma movimento inexorável para toda Amazônia, aliás, é sempre bom lembrar que para alem da biodiversidade, nós temos muitas amazônias em termos sociológicos, a exemplo da sociodiversidade indígena, cabocla, quilombola etc. Vou afirmar apenas o que minha experiência permite sugerir e uma sociologia das emergências na amazônia pode confirmar: lutas e resistências rurais, mas igualmente urbanas estão crescendo em vários lugares, em várias amazônias, o caso de Tapauá no sul do Amazonas é apenas um indicativo de lutas e resistências que geram novas práticas, sensibilidades e institucionalidades que, se imediatamente não geram grandes mudanças, permitem-nos vislumbrar mudanças sensíveis em um horizonte não distante.
Em Tapauá, apesar da precariedade da organização social e da tão falada “consciência política” criou um ação destituinte singular: uma revolta popular no mês passado realizou uma sistemática destruição de estruturas físicas de representação da política, prefeitura, câmara e a própria cada do prefeito foram depredados pelos moradores locais que também deram um”basta” face os desmandos políticos reinantes no Município.
Para muitos, verdadeiros vândalos, black blocs amazônicos, contudo, o fogo da multidão representou a força da política silenciado, a válvula de escape das repressões perpetradas pelas elites locais, a potencia política negada ou capturada pelas forças políticas conservadoras que fazem de tudo para manter o povo na ignorância, na dependência e subordinação. O fogo não atingiu apenas as estruturas físicas, atingiu também símbolos do mandonismo, da hierarquia família, da coerção e medo reproduzidos tradicionalmente.  A oficina de planejamento participativo, da qual participei, ocorrera algumas semanas depois do evento que reuniu na  praça principal da cidade cerca de 2 mil moradores indignados com os desmandos da política local e a corrupção sistêmica que perpassava o legislativo e o judiciário local.
            A experiência da OPP certamente significou um momento fundamental e singular de democratização, afinal, momento de politização são raros em muitos municípios do Amazonas. Alí se experiência  igualmente um fogo, este democrático, cujas chamas vinham de muitas singularidades expressas em indivíduos vindos de suas localidades e comunidade situadas no interior da Unidade de Conservação, em um tempo radicalmente outro, onde a experiência da pobreza é potencia de vida , a relação com a natureza de respeito e não de domínio/exploração, mais sustentável que qualquer “desenvolvimento sustentável”. Nessas plagas as estatísticas oficiais ( que vê apenas desvalidos e  miseráveis) e as representações intelectuais conservadores ( que vê uma massa amorfa que deve ser salva pela solidariedade dos “conscientes” ) se requalificam desde baixo e por dentro, evidenciando a riqueza de “viver bem”, para alem da renda medida pelo IBGE. Um diagnóstico recente do “territórios da cidadania” indicou que apesar de tudo o que as medidas oficiais  mostram, grande parte desses “caboclos-ribeirinhos” estão felizes e satisfeitos com aquilo que possuem.
Por fim, vale sugerir que  o fogo na casa do prefeito ( sim!, queimaram sua casa ) e a depredação de seu  novo gabinete indicam certamente um momento de efervescência política em que novos atores, práticas e experiências  ganham espaço para se consolidarem, se constituírem enquanto alternativa política. Onde antes se via apenas autodesvalia, hoje mesmo que precariamente pode-se visualizar um devir revolucionário  amazônico, um devir de construção instituinte, de alargamento da cidadania não tutelada, forjada continuamente em um processo de construção coletiva negociada, no máximo mediada por agentes que acreditam na mudança autopoiética ( que se forja autonomamente ). Como diria Paulo Freire "crer no povo é a condição prévia, indispensável, à mudança revolucionária. Um revolucionário se reconhece mais por esta crença no povo, que o engaja, do que por mil ações sem ela.
            Nessa perspetiva, creio que o futuro das unidades de conservação, assim como da reinvenção política das sociedades amazônicas está na organização social, no emponderamento de suas comunidades, na qualificação política de seu conselhos, na consolidação da politicidade humana, isto é, daquela riqueza política que coloca em suspensão as limitações da pobreza material e rompe com os limites do possível, inovando possibilidades de realização histórica.
É assim que essa minúscula parte do Amazonas  se apresenta não como lugar do exótico, do inferno verde, do lugar isolado “fonte de fantasia”. Surge também, para além da natureza, como cultura e fonte de resistência. As “metamorforses” do povo em multidão que resiste também ocorre entre os “bárbaros”, aliás, sobretudo neles.


domingo, 1 de dezembro de 2013

RESENHA : IANNI, Octávio. A sociologia e o mundo moderno. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.2011. 406p.


       Em um cenário de convergências de crises em âmbito mundial, compreendendo crise fiscal, política, econômica, social e financeira, todas de alguma maneira vinculadas aos movimentos do capital no quadro da globalizacao do capitalismo, a sociologia é desafiada a renovar-se teórica, metodológica e epistemologicamente para apreender as mudanças em curso; suas raízes históricas, implicações presentes e tendências que tendem a configurar o devir do mundo. Sociologia e o mundo moderno de Octávio Ianni, um síntese de seu estilo de pensamento publicada postumamente, certamente representa um esforço sistemático empreendido durante sua trajetória para compreender os processos históricos sociais que conformaram o mundo moderno. Tal esforço se traduziu como bem indica as temáticas do livro em pauta, num empenho sempre renovado de repensar teorias, metodologias e epistemologias. Daí as diversas problematizações teórico-metodológicas em torno do funcionalismo, teoria sistêmica, dialética, etnometodologia, fenomenologia, individualismo metodológico entre outros que nos seus últimos livros, especialmente em sua trilogia sobre globalização ( A sociedade global,de 1992. Teorias da Globalização,, 1995 A era do globalismo, de 1996 ) aparecem em um síntese sofisticada ( sociologia da globalização ) para apanhar as relações, processos e estruturas que delineam os movimentos e contradições de uma totalidade emergente: a modernidade-mundo e sua sociedade global que “constituem, movem, tensionam, integram e rompem as nações e as nacionalidades, os povos e as raças, as regiões e as línguas, as fronteiras e as cartografias, as culturas e as civilizações” (p.276).
       Autor de dezenas de livros, o discípulo de Florestan Fernandos escreveu livros que se tornaram-se clássicos nas Ciências sociais brasileiras, entre os quais destacam-se "Metamorfoses do escravo", de 1962, e "O colapso do populismo no Brasil", de 1968. Em seu esforço de renovar criticamente as ciências sociais, Sociologia e o mundo moderno, vem coroar postumamente seu empreendimento teórico-metodológico com contribuições significaticas para se compreender e interpretar não só os temas e problemas da modernidade, mas simetricamente aqueles relacionados a modernidade-mundo ou globalismo com suas crises e contradições. Sim! Se a sociologia nasceu com o mundo moderno, como bem enfatiza Ianni, poderiamos igualmente afirmar que ela renasce e atualiza-se com a modernidade-mundo; com a renovaçao dos processos e estruturas que caracterizam o capitalismo contemporâneo.
       Mais especificamente sobre o livro, trata-se de um conjunto de ensaios, estudos e artigos muitos dos quais já publicados em revistas e apresentado em congressos, mas que foram revisados e sequenciados lógica e historicamente para fornecer um contributo não apenas sobre a história da sociologia e as construções teórica-metodológicas que surgiram como resposta as transformações do mundo moderno. O livro oferece igualmente um aguda problematização das condições históricas que vivenciamos atualmente; mobiliza a geografia, a filosofia, a antropologia, a ciência política e outras disciplinas das ciências sociais - tal como o artista escolhe as tonalidades para sua obra de arte - para mapear, refletir e decodificar criticamente os temas e problemas caracterizam o “ mundo da vida” e que fomentam as condições e possibilidades da “ explicação, compreensão e revelação” que se colocam em termos epistemológicos.
       Seria no mínimo empobrecedor tentar realizar uma síntese dos 16 capítulos que compõem a coletânia “ I A formação da sociologia”, “ II A tentação metodológica”, “ III Problemas de explicação”, “ IV A unidade das ciências”, “ V Positivismo e dialética”. “VI Razão e história”, “ VII Dialética e ciências sociais”, “VIII Ciência e arte”, “ IX Sociologia e história”, “ X A vocação política das ciências sociais”, “ XI O novo mapa do mundo”, “ XII A política mudou de lugar”, “ XIII As ciências sociais e a sociedade mundial”, “XIV A internacionalização da sociologia”, “ XV Formas sociais do tempo”, “ XVI Estilo de pensamento” e “ XVII Perspectiva da história”.
       No entanto, vale aqui pontuar sucintamente algumas problematizações e esclarecimentos que Ianni nos oferece sobre a conjuntura contemporânea, mesmo depois de quase 10 anos do fim de suas atividades intelectuais. Atividades traduzidas em um esforço sistemático de conceber e integrar teoria, metodologia e epistemologia como processos de uma mesma dinâmica,como partes integradas do fazer científico que
se cria e recria continuamente através da atividade e pensamento crítico da sociologia diante das “ relações, processos e estruturas” que conformam a realidade e colocam o sociólogo em estado de vigilância na realização de seu ofício.
      Em um contexto marcado por crises dos Eua à Europa, passando pelo Oriente Médio e Brasil e traduzidos em ebulições e revoltas políticas como Primavera Árabe, Occupy, Indignados, Jornadas de junho e Black Blocs, os dois últimos fenômenos manifestos no Brasil, demandam um posicionamento crítico por parte do cientista social, daí que sua pesquisa ( X A vocação política das ciências sociais ) sobre o presente não pode prescindir de um posicionamento político, afinal, como sugere Ianni a ciência social é um técnica de poder e suas pesquisas podem estar inspiradas “ seja pela convêniência de preservar o status quo político-econômico, seja pelo interesse em modificá-lo” . Sendo a pesquisa parte “ importante do processo de produção cultural”, cujo produto passa a ser parte “ da realidade social como pensamento e prática” o autor deixa claro que o ato da pesquisa em tempos de crise vai invarialmente tender para manuteção das estruturas de dominação ou para “ mudar, romper ou refazer relações e estruturas de dominação”.
       As respostas sociais expressas em termos de levantes e resistências face as crises políticas vigentes, especialmente a crise da democracia representativa, indicam uma efervescência global que ultrapassa o território, o Estado-Nação ou nacionalismo, coloca-se no âmbito do globalismo, tal como sugerido por Ianni ( XI O novo mapa do mundo). É nesse espaço global constituido pelo capitalismo mundial, enquanto modo de produção e processo civilizatório, que se realizam num pano de fundo comum as lutas e resistências contra-hegemônicas face a globalização pelo alto operada por poderosas estruturas mundiais de poder, a exemplo das grandes corporações transnacionais e organizações multilaterais, principais dinamizadores do neoliberalismo.
     Estando restritas as condições de hegemonia e soberania do Estado-Nação as condições e possibilidades de lutas sociais se alteram radicalmente e, por consequência, a política redefini-se no âmbito do globalismo ( XII A política mudou de lugar ). Nessa nova ordem global com seus novos atores e suas contradições, as classes sociais, os partidos políticos, o sindicato e os movimentos sociais entram em crise e são obrigados a mudar radicalmente seus quadros de referência política, precisamente o que ocorre em várias parte do mundo atualmente. A respeito da “ reterritorialização” da política Ianni assinala que as categorias da ciência política perdem a vigência e a realidade global torna-se carente de categorias interpretativas. 
       As ciências sociais defrontam-se com causas e crises seríssimas para serem equacionadas em termos de compreensão e interpretação, dando como exemplo a crise do principio da soberania nacional ( a atuação da Troika na Europa explicita essa crise ) e hiato crescente entre sociedade civil e Estado onde este “parece estar crescentemente determinado pelo jogo das forças sociais que operam em escala transnacional”, ao passo que, a sociedade civil não encontra ressonância representativa no Estado e não vê em suas escolhas políticas o atendimento de suas necessidades sociais . Em ambos os casos o autor assinala “ evidente a presença de injunções ‘externas’, isto é, das corporações transnacionais e das organizações multilaterais, cuja diretrizes em geral conjugam-se”. 
       Se vivo estivesse Octávio Ianni certamente oferecia sugestões e análises extramamente importantes para a conjuntura atual, assim como vislumbrou com precisão o deslocamento radical da política. “Ainda que se continue a pensar e agir em termos de soberania e hegemonia, ou democracia e cidadania, tanto que nacionalismo e Estado-nação, modificam-se radicalmente as condições “clássicas” dessas categorias, no que se refere às suas significações práticas e teóricas (p.228)
       É assim que a novidade dos eventos contemporâneos, com suas crises e rupturas, deve igualmente lançar as ciências sociais em sua renovação para apanhar teoricamente as mudanças da sociedade global em constituição, esta é a mensagem oferecida no capítulo ( XIII As ciências sociais e a sociedade mundial ) . É no curso das mudanças históricas e epistemológicas que “todas as formas de pensamento estão sendo desafiadas pela ruptura histórica em curso”. Talvez os levantes e lutas realizadas em várias partes do mundo nos últimos anos sejam não apenas um indicativo da renovação da política e da democracia, mas igualmente apontam para os desenvolvimentos e os impasses da modernidade. Um momento de ruptura histórica onde conceitos tais como “mercantilismo”, “colonialismo” e “imperialismo”, além de “nacionalismo” e “tribalismo”, são redefinidos face a à emergência do “globalismo”, como nova e abrangente categoria histórica e lógica.
Aí está o valor do presente livro. 
       Em um cenário em que proliferam micronarrativas e análises de desconstrução pós-moderna que so vê fragmentos de uma história presentificada, um livro que se dispõem a apanhar o movimento da história em suas tendências que lhe conferem sentido, se distingue imediatamente. Contra uma
visão fragmentada e empobrecida do real, Ianni sempre adotou o ponto de vista da totalidade. Ganha, portanto, um lugar privilegiado em um mundo com déficit explicativo onde predomina a monotônia do economicismo como elemento explicativo das crises e não como causa e expressão das mesmas. Sociologia e Mundo Moderno talvez sirva como um sopro crítico que reencante jovens pesquisadores para o desafio de pensar a complexidade da modernidade-mundo ou globalismo em sua historicidade, conformada certamente por crises derivadas das relações de dominação política e expropriação econômica, mas com horizonte sempre aberto para a realização de lutas e resistências que se orientam pela pela utopia de um mundo mais justo e democrático.
       Certamente se tornará leitura obrigatória para o curso de ciências sociais e demais áreas interessadas na compreensão dos impasses e crises que caracterizam o mundo contemporâneo.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Nasce uma vida, renova-se os dilemas do mundo


O sentimento profundo de amor e alegria que irradia dos pais no nascimento de uma criança é um momento de inflexão, de ruptura na vida dos pais e simultaneamente de renovação dos dilemas do mundo. Em relação a ruptura podemos afirmar que o nascimento de uma criança marca um novo momento na vida dos pais, temporalidade outra onde nossas vidas se inscrevem, se perdem em uma preocupação continuada de manter-se vigilante; nesse novo tempo estamos sempre atentos aos movimentos, choros, gemidos desse novo ser, se não estamos por perto a intuição logo te leva a uma busca desenfreada para encontrá-lo se algo estiver errado.
Sua experiência do tempo social e suas 24h se alteram profundamente assim como sua vivência nos espaços sofre limitações. Sua liberdade de manejar seu tempo-espaço sofre restrições para você criar as condições e as possibilidades de ampliar e diversificar a experiência do tempo-espaço de um novo ser que se inicia seu desenvolvimento social, moral e intelectual.
De repente seu tempo torna-se mais curto, contudo, mais produtivo. Aos poucos saberá extrair as atividades ou inatividades supérfluas que faziam parte da sua experiência do tempo. Desta maneira
É assim que a civilização avança; talvez menos pelo avanço técnico e científico e mais pela capacidade de subtrairmos nossa liberdade em prol da liberdade dos pequenos que precisam de cuidado e amor para desenvolverem-se e tornarem-se autônomos e capazes de reproduzir essa atitude moral.
                Sua experiência financeira não escapa à mudanças profundas,  onde a preocupação em manter saudável sua nova razão de existir torna-se imediatamente central em sua existência. Desta maneira, a administração financeira requalifica-se ou se inicia em sua vida de cuidados. O planejamento emerge como ferramenta essencial do seu cotidiano; planeja-se o tempo, o reordenamento do espaço de sua casa, seus rendimentos através do orçamento e até seus objetivos de vida em seu sentido mais amplo. Aos poucos você se metamorfoseia, é completamente outro; um outro mais cuidadoso,amoroso e vigilante.

Renovação dos dilemas do mundo

                Certa vez em uma aula do Professor Antonio Carlos Witkoski mobilizou Hanna arendt  para afirmar que toda vez que uma criança nasce no mundo os dilemas e problemas deste mundo são igualmente renovados. É assim que ao me deparar com o nascimento da minha filha me defrontei irremediavelmente com alguns desses problemas ao frequentar uma maternidade pública durante alguns dias.
                Não me alongarei demais nas descrições da experiência, registrarei  apenas alguns fatos que compõem o cenário de renovação cotidiana de problemas públicos.
                Ao chegar na recepção da maternidade Ana Braga ás 11 da noite a  impressão é que não havia nenhuma futura mãe esperando o nascimento de sua criança, imperava um silêncio sepulcral, contudo, após a internação da minha esposa tudo mudou; o ambiente era absolutamente outro, os gritos e gemidos eram constantes, o atendimento rarefeito com médicos dormindo em bancos e corredores com mães em macas desconfortáveis esperando a manhã do dia seguinte para subirem para os leitos.
                Nesse tempo da chegada ao parto da Viviana ( minha filha ) prefiro não comentar mais detalhadamente, basta dizer que quando foram vê-la a criança já estava praticamente nascendo e que houve uma demora de 10 a 15 no meio do parto apenas para esperar alguém para limpar o chão para o médico retirar a criança. Nascida às 4:45 da manhã subiu com a mãe para o leito apenas 11 horas da manhã. Como  o parto foi normal em no máximo 2 dias ela sairia da maternidade, não fosse a demora de um simples tipagem sanguínea da criança que nunca chegava, chegando a ser solicitada duas vezes para turnos de trabalho distintos que se acusavam reciprocamente de não terem realizado o serviço. Saímos em 4 dias, sim saímos pois acompanhei de perto todos os dias. Poisé, apesar da demora ainda não tenho a tipagem sanguínea da Viviana. Imaginem que essa situação não foi única, ao lado da 109, a 110 alegou que estava esperando igualmente o mesmo exame a mais de um dia e que tiraram sangue de sua criança duas vezes, deixando a mão do nascituro inchada.
                Tudo na maternidade é numerado, o leito tem um tipo de numeração existencialista, o nome da mãe e do bebê não importam, fundamental é saber se o 120 está bem, se o 115 já tomou remédio e assim por diante, número que a cada 12 horas é consultado pela mudança da equipe de trabalho. O número de consultas religiosas também é notório, todos os dias e , por vezes, mais de uma vez perguntavam as mães se eram “crentes” e entregavam uns santinhos para reorientar algumas que porventura tenham se “desviado do caminho”. Os efeitos dos santinhos é assunto de fé, assim como passar por “crente” para ficar em “paz” igualmente o é.
                Por fim, vale registrar que limpeza e alimentação eram totalmente instáveis quanto aos sabores e a qualidade; havia almoços dignos de restaurante “caro” assim como frango pitiú sem um limãozinho. Os corredores dos 3 andares com seus 6 leitos em cada quarto expressavam bem essa inconstância do sabor alimentar, geralmente servido em torno de uma hora da tarde, muito tarde segundo mães famintas. Para não me alongar basta mencionar que ao chegar na maternidade vi um estacionamento enorme para os médicos onde era expressamente proibida estacionar carros de não-médicos, sob o risco de enfurecimento do médico que ver seu lugar ocupado segundo o guarda de plantão. A enormidade do espaço e o  vazio  do estacionamento na chegada estavam imediatamente ligados ao déficit de atendimento no interior da maternidade; vi o médico que fez o parto da minha esposa e o pediatra no último dia, o restante dos funcionários eram estagiários e algumas enfermeiras que cuidavam de 2 a 3 leitos por quarto.  Termino esse breve registro muito tranquilo, minha mulher teve atendimento razoável e minha filha está com saúde, diferente de uma mãe que veio saber através da vó que sua criança fora trocada. O barraco foi terrível, assim como o corporativismo para cobrir a merda.
É assim que a profunda felicidade que me comovia durante os primeiros dias de nascimento da minha filha se confundia com um profundo mal-estar diante de problemas públicos diariamente vivenciadas por nossa população.