terça-feira, 29 de outubro de 2013

Nasce uma vida, renova-se os dilemas do mundo


O sentimento profundo de amor e alegria que irradia dos pais no nascimento de uma criança é um momento de inflexão, de ruptura na vida dos pais e simultaneamente de renovação dos dilemas do mundo. Em relação a ruptura podemos afirmar que o nascimento de uma criança marca um novo momento na vida dos pais, temporalidade outra onde nossas vidas se inscrevem, se perdem em uma preocupação continuada de manter-se vigilante; nesse novo tempo estamos sempre atentos aos movimentos, choros, gemidos desse novo ser, se não estamos por perto a intuição logo te leva a uma busca desenfreada para encontrá-lo se algo estiver errado.
Sua experiência do tempo social e suas 24h se alteram profundamente assim como sua vivência nos espaços sofre limitações. Sua liberdade de manejar seu tempo-espaço sofre restrições para você criar as condições e as possibilidades de ampliar e diversificar a experiência do tempo-espaço de um novo ser que se inicia seu desenvolvimento social, moral e intelectual.
De repente seu tempo torna-se mais curto, contudo, mais produtivo. Aos poucos saberá extrair as atividades ou inatividades supérfluas que faziam parte da sua experiência do tempo. Desta maneira
É assim que a civilização avança; talvez menos pelo avanço técnico e científico e mais pela capacidade de subtrairmos nossa liberdade em prol da liberdade dos pequenos que precisam de cuidado e amor para desenvolverem-se e tornarem-se autônomos e capazes de reproduzir essa atitude moral.
                Sua experiência financeira não escapa à mudanças profundas,  onde a preocupação em manter saudável sua nova razão de existir torna-se imediatamente central em sua existência. Desta maneira, a administração financeira requalifica-se ou se inicia em sua vida de cuidados. O planejamento emerge como ferramenta essencial do seu cotidiano; planeja-se o tempo, o reordenamento do espaço de sua casa, seus rendimentos através do orçamento e até seus objetivos de vida em seu sentido mais amplo. Aos poucos você se metamorfoseia, é completamente outro; um outro mais cuidadoso,amoroso e vigilante.

Renovação dos dilemas do mundo

                Certa vez em uma aula do Professor Antonio Carlos Witkoski mobilizou Hanna arendt  para afirmar que toda vez que uma criança nasce no mundo os dilemas e problemas deste mundo são igualmente renovados. É assim que ao me deparar com o nascimento da minha filha me defrontei irremediavelmente com alguns desses problemas ao frequentar uma maternidade pública durante alguns dias.
                Não me alongarei demais nas descrições da experiência, registrarei  apenas alguns fatos que compõem o cenário de renovação cotidiana de problemas públicos.
                Ao chegar na recepção da maternidade Ana Braga ás 11 da noite a  impressão é que não havia nenhuma futura mãe esperando o nascimento de sua criança, imperava um silêncio sepulcral, contudo, após a internação da minha esposa tudo mudou; o ambiente era absolutamente outro, os gritos e gemidos eram constantes, o atendimento rarefeito com médicos dormindo em bancos e corredores com mães em macas desconfortáveis esperando a manhã do dia seguinte para subirem para os leitos.
                Nesse tempo da chegada ao parto da Viviana ( minha filha ) prefiro não comentar mais detalhadamente, basta dizer que quando foram vê-la a criança já estava praticamente nascendo e que houve uma demora de 10 a 15 no meio do parto apenas para esperar alguém para limpar o chão para o médico retirar a criança. Nascida às 4:45 da manhã subiu com a mãe para o leito apenas 11 horas da manhã. Como  o parto foi normal em no máximo 2 dias ela sairia da maternidade, não fosse a demora de um simples tipagem sanguínea da criança que nunca chegava, chegando a ser solicitada duas vezes para turnos de trabalho distintos que se acusavam reciprocamente de não terem realizado o serviço. Saímos em 4 dias, sim saímos pois acompanhei de perto todos os dias. Poisé, apesar da demora ainda não tenho a tipagem sanguínea da Viviana. Imaginem que essa situação não foi única, ao lado da 109, a 110 alegou que estava esperando igualmente o mesmo exame a mais de um dia e que tiraram sangue de sua criança duas vezes, deixando a mão do nascituro inchada.
                Tudo na maternidade é numerado, o leito tem um tipo de numeração existencialista, o nome da mãe e do bebê não importam, fundamental é saber se o 120 está bem, se o 115 já tomou remédio e assim por diante, número que a cada 12 horas é consultado pela mudança da equipe de trabalho. O número de consultas religiosas também é notório, todos os dias e , por vezes, mais de uma vez perguntavam as mães se eram “crentes” e entregavam uns santinhos para reorientar algumas que porventura tenham se “desviado do caminho”. Os efeitos dos santinhos é assunto de fé, assim como passar por “crente” para ficar em “paz” igualmente o é.
                Por fim, vale registrar que limpeza e alimentação eram totalmente instáveis quanto aos sabores e a qualidade; havia almoços dignos de restaurante “caro” assim como frango pitiú sem um limãozinho. Os corredores dos 3 andares com seus 6 leitos em cada quarto expressavam bem essa inconstância do sabor alimentar, geralmente servido em torno de uma hora da tarde, muito tarde segundo mães famintas. Para não me alongar basta mencionar que ao chegar na maternidade vi um estacionamento enorme para os médicos onde era expressamente proibida estacionar carros de não-médicos, sob o risco de enfurecimento do médico que ver seu lugar ocupado segundo o guarda de plantão. A enormidade do espaço e o  vazio  do estacionamento na chegada estavam imediatamente ligados ao déficit de atendimento no interior da maternidade; vi o médico que fez o parto da minha esposa e o pediatra no último dia, o restante dos funcionários eram estagiários e algumas enfermeiras que cuidavam de 2 a 3 leitos por quarto.  Termino esse breve registro muito tranquilo, minha mulher teve atendimento razoável e minha filha está com saúde, diferente de uma mãe que veio saber através da vó que sua criança fora trocada. O barraco foi terrível, assim como o corporativismo para cobrir a merda.
É assim que a profunda felicidade que me comovia durante os primeiros dias de nascimento da minha filha se confundia com um profundo mal-estar diante de problemas públicos diariamente vivenciadas por nossa população.  

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Sim, Lutam contra o capitalismo!


       Embora não o saibam o “estamos contra tudo o que está aí” significa “lutamos contra o capitalismo”, “queremos um mundo pós-capitalista”, e nessa perspectiva lutam contra o modelo de Estado e desenvolvimento estabelecidos, que priorizam basicamente o crescimento econômico visto em termos de superávit, sem converter de maneira mais qualificada ganhos econômicos (  canalizados para pagamento da dívida, rentistas, corporações etc) em ganhos propriamente sociais, isto é, em qualidade de vida , que teria sua expressão em serviços públicos de qualidade, enfim um desenvolvimento e uma orientação Estatal voltada para ampliação das liberdades individuais e coletivas. 
        Não há , em última análises, como fugir dessa constatação, trata-se de anseios, desejos  e necessidades que reformas pontuais e mudança de políticos  nas instâncias representativas não vão conseguir atender de modo satisfatório, vão no máximo, deslocar outras irrupções de manifestações para um horizonte próximo.  Sim, quer saibam ou não lutam contra o capital, lutam contra a “natureza” de um modo de produzir e existir  que de tão incorporados  termina por conduzir uma luta contra a própria consciência.
      Me parece que essas manifestações, movimentos, insurgências se realizam enquanto globalização contra-hegemônica “desde baixo” contra as ingerências e interesses do capital financeiro mundial na figura de bancos, corporações, especuladores etc..
      É como se ao mesmo tempo que travássemos  uma luta nacional estivéssemos em um confronto transnacional contra o capital, o mercado financeiro, a logica da lucratividade.
      Nesse sentido não existe lutas que não sejam globais!
      Movimentos insurgentes de todo o mundo uni-vos!      


sábado, 29 de junho de 2013

A POLÍTICA INSURGENTE E A POLÍTICA CASTRADORA.


        Sim. O que vemos nas ruas em termos de manifestações e insurgências é basicamente política em Estado bruto; dinâmica, processual, criativa, disruptiva. A política não se reduz ao vazio demagógico, por vezes, apresentado no congresso, não se resume ao ativismo puro cuja  ação irreflexiva recaí em mero vandalismo.

        A política é poder constituinte; poder em movimento, aberto, inacabado, infinitamente poderoso e expansivo, que não se deixa capturar pelo constitucionalismo, que se esquiva das cooptações institucionalizantes, que foge das medidas castradoras, despreza os comandos da hierarquia e, por fim, aniquila mediante a cooperação os bloqueios e constrangimentos  que ousam anular a liberdade e fazer dessa anulação privilégio de poucos.

          Na perspectiva de Negri podemos pensar o Estado, suas instituições e o atual sistema político com seus partidos e política tradicional como partes do atual poder constituído na sociedade, poder que se nutre da  criatividade e ânsia de mudança da multidão ao mesmo tempo que isola e neutraliza suas forças inventivas. Trata-se de um poder, contudo, que se encontra amplamente contestado e desqualificado em muitos níveis e escalas, carente de legitimidade, com déficit de democracia e superávit de burocracia e tecnocracia. Mostra-se incontornavelmente como obstáculo para o desejo desmedido de coletividades que ousam ampliar os limites do possível, especialmente os limites da democracia. 

         Ultrapassar esse obstáculo  deve ser imperativo  existencial da política bruta que derramam plural e difusamente pelas ruas do Brasil, deve ser objetivo inelutável para reconduzir  a soberania as suas origens, deve ser enfim,  horizonte de radicalização da democracia, cujo  resultado se expressará em uma nova relação entre Estado e Sociedade certamente menos unilateral e domesticadora e mais cooperativa e dialógica.

     Mas sem ingenuidades, a superação das medidas, comandos e privilégios passa imediata e necessariamente pela intensificação das resistências, lutas e disputa autodeterminada dos sentidos e interpretações do próprio movimento que  se realiza enquanto poder que desestabiliza e reinventa o pensamento e a prática da política. 



Poisé, to lendo Negri! O poder constituinte.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Uma rápida e breve resposta ao manifesto da OAB

         

         Não defendo letra morta da constituição, defendo os direito da multidão em injetar vida nas letras dos "direitos fundamentais".


"Como resposta — equivocada — às reivindicações das ruas, a Presidenta da República propõe, entre outras medidas, a convocação de uma Assembleia Constituinte Exclusiva para elaboração de uma constituinte”

         Como poderia ser resposta equivocada as ruas? é a mais acertada que poderia existir, atendendo como raras vezes se viu na história desse país uma demanda legítima da população por mais democracia.

        Não se trata de evidenciar o que a constituição permite ou não, a letra morta não pode suprimir a multidão de vozes que acenam com a mudança do status quo, mesmo não sabendo exatamente o “como” da mudança ocorrer deixa claro que não aceita mais o que está posto como realidade, como "regras do jogo". As regras do jogo não passam de mecanismo privilegiado de reprodução de poder, hierarquias e desigualdades, cabe reinventar as regras do jogo “desde baixo”.

"É impossível convocar uma Assembleia Constituinte — portanto, inovar o Poder Constituinte e tudo o que ele representa — e, nele, estabelecer a sua prévia agenda, pela simples razão de que já não seria Poder Constituinte. O Poder Constituinte possui soberania."

            De que poder constituinte  e soberania estão falando ? Ora, é o verdadeiro poder constituinte - a multidão - que demandou a redefinição do poder constituído. Impossível é acreditar que as coisas possam continuar como estão.  

"A tese fragiliza o Estado de Direito e as Instituições democráticas. Além disso, desmoraliza o Parlamento da república como poder constitucionalmente previsto”

            Este parlamento não poderia estar mais desmoralizado, para atenuar o desgaste de sua imagem deveria é  incorporar o clamor popular para uma   reforma política  como objetivo incontornável para assegurarem alguma legitimidade.

"Crises na democracia se resolvem com mais democracia. E dentro das regras do jogo. Em um Estado Democrático de Direito, é o Parlamento quem deve resolver esse impasse da Reforma Política"

             De que democracia estão a falar? falam de um oligarquia ou democradura onde uma reduzida camada de pessoas conhecedoras das “regras do jogo” definem e protegem com suas vidas o tal do “estado de democrático de direito”, um Estado com democracia de baixa intensidade e com direitos que longe de garantirem os “direitos fundamentais” servem como instrumento de dominação e violência simbólica contra a maioria da sociedade.. Acertaram que crise se resolve com mais democracia, é isso que as ruas estão oferecendo, uma democracia em movimento que para alem das tentativas de captura segue tateando os caminhos para democracia participativa..

"Que tipo de democracia é essa em que uma série de passeatas serve para iniciar um processo constituinte? Passeata e manifestação popular deveriam ser algo normal em uma democracia, não um catalisador de momentos constituintes. Será que o medo que nossas elites têm do povo é tamanho que basta uma manifestação para justificar uma ruptura institucional? Imaginemos se fosse assim na França, nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Itália e tantos outros países democráticos, quantas constituintes eles teriam que convocar?"

          Nada mais absurdo! Manifestações são sim catalisadores de momentos constituintes, aliás, expressão mais legítima não existe. Acreditam que momento constituinte é aquele onde um apanhado de peritos em jurisdição se reúnem para escrever uma constituição, ora esse momento é onde o poder constituinte é castrado, o direito é resultado do poder constituinte não seu fundamento. O verdadeiro poder constituinte é aquele dos movimentos sociais que derramam pelas ruas e que tem como objetivo irrigar o atual sistema político que está longe e em descompasso com as aspirações populares.

Deixo uma mensagem de Negri para aqueles que acreditam estar prestando um serviço a democracia..

        “existe uma grande tradição do poder capitalista que garante eficácia na recuperação e na neutralização do antipoder: é a tradição do constitucionalismo.(...) resistência, insurreição e poder constituinte são aqui reduzidos a simples pretensão jurídica, e assim configurados como elementos dialéticos,  partícipes da síntese...democrática do sistema. ( IMPÉRIO,p.202 )

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Breves notas sobre a manifestação em Manaus: Carnaval ou Mobilização democrática


      Vi um movimento em celebração estranha, vi um movimento em disputa, vi um movimento que é vencedor na afirmação da liberdade de expressão, mas vi igualmente um movimento com futuro incerto. 

      No calor do movimento em alguns momentos me sentia bem, outras vezes me sentia estranho, como que participando de um “oba, oba”, como se estivesse no carnaval, com muita celebração, fotos, risos e tudo mais.. Fato é que as emoções mudaram durante a “marcha” significando sempre novas percepções. Me vi em uma cena histórica, orgulhoso e entusiasmado com as possibilidades de mudança, com a reinvenção da democracia, ao mesmo tempo que não me sentia as vezes muito confortável com certos discursos, críticas e desejos ao meu redor; algo que para alem do celebração da marcha em si indicava futilidades e pouca consciência do aquilo significava, mas é claro todos afirmam que as fotos serviriam “para mostrar para os filhos no futuro”, uma espécie de projeção no tempo onde a nostalgia emergia com muita força. 

     Fato é que me sentia pertencido ao movimento alguns momentos e outros não, talvez o deslocamento no meio da multidão me fizesse perceber uma multiplicidade de interesses, vozes e discursos que ora me inspiram sentimentos positivos aos quais eu me identificava e em outros momentos me deixava preocupado; discursos vazios, coros sem sentido, posicionamentos niilistas ( sim, em meio ao movimento! ) que simplesmente eram contra tudo, a tudo negavam e queriam simplesmente evidenciar isso.

     Vi pouquíssimos partidários e menos inda bandeiras. Vi algumas lideranças, na verdade diversas, mas eram lideranças que capitaneavam apenas pequenos grupos dentro do movimentos maior disputando coros, direcionamentos e o lugar de seus cartazes. Não que isso seja negativo, na verdade essa fragmentação possui uma riqueza ambivalente em seus desdobramentos, não dá para emitir palpites, o movimento prossegue inacabado e espero que assim continue, se acabar é porque se venceu a luta e se conquistou o que se pretendia ou simplesmente o movimento capitulou diante das concessões do constitucionalismo e das “regras” do regime democrático.

      Uma observação para finalizar esse comentário de uma noite de insônia. A Mídia e as forças tradicionais estão fechando o cerco no sentido de capturar a mais-valia simbólica do movimento, instrumentalizando e mercantilizando sua produção coletiva difusa. A celebração plural da democracia no movimento em Manaus foi espetacular, histórica, mas há que avaliar sua expressão contestatória face a celebração como um fim em si mesmo. Espero que os diversos grupos, coletivos, movimentos e lideranças afins reflitam após essa "marcha" e definam novas horizontes de luta, afirmem uma agenda concreta de ações e reivindicações.
      O movimento maior está em disputa e é preciso conjugar idéias e ações nesse momento, sob o risco de todos capitularem diante da malícia e do oportunismo de "operações de circulação sistêmica" por parte de forças vis e conservadoras. Não podemos atuar no vazio, urge a necessidade de diálogos e comunicação propositiva no interior do movimento!

quinta-feira, 20 de junho de 2013

OS FILHOS DO “LULISMO”: A reinvenção “desde baixo” no contexto da Globalização.


    É se os dois primeiros governos do PT foram marcados pelos bons ventos externos, por uma dinâmica favorável do processo de globalização da economia aliado as manobras política de Lula  que conseguiu realizar reformas não desprezíveis, ao final do segundo e no interior do terceiro mandato, instala-se desestabilizações negativas relativas as injunções da economia global somadas a um “despertar” de trabalhadores e uma geração conectada, em um contexto de insatisfação generalizada com medidas que acentuam a sensação de deterioração da qualidade de vida expressa na experiência de uso dos serviços públicos oferecidos pelo Estado.
Os ventos históricos do Estado Nacional parece encontrar ventanias globais não muito favoráveis. Ventanias, diga-se de passagem, amplamente traduzida pela mídia de plantão como plena incompetência das políticas nacionais, como se a inflação nacional fosse um fator independente, autônomo em sua realização.
       O fato é que PT engendrou os atores que vão empunhar as armas para sua dissolução. A  opção  social-democrata perdurou na Europa por “30 anos gloriosos” em parceria com o capital, mas nos últimos 30 anos tem se desmantelado no mesmo ritmo de destruição do Estado de bem-estar social. No Brasil com um governo semelhante a perspectiva socialdemocrata ( cunhado de neodesenvolvimentismo por analistas ) me parece que não chegaremos a 15 gloriosos ( com otimismo ) seja pelas injunções externas ou por efervescências internas. Ambos os casos não estão desvinculados a dinâmica mundial do capitalismo, especialmente a partir de mudanças geradas após a crise na década de 70, início da ofensiva neoliberal para transferir os custos de reprodução social ao Estado, induzindo um tipo reforma estatal bem ajustada aos interesses mercado global.
        O PT Surfou positivamente na dinâmica mundial, potencializou a economia interna, ampliou e facilitou obtenção de crédito, criou políticas sociais com efeitos positivos reduzindo a pobreza, e por consequência gerou uma “nova” classe média sou nova classe trabalhadora ( a luta para definir a mudança na estrutura social brasileira segue polêmica ). Agora, contudo, a crise do capitalismo que é mundial - inicialmente tida como apenas uma “marolinha” quando deflagrada nos EUA e impactara a Europa -  cria as condições para que novos sujeitos contestarem seus “criadores”.
       O PT certamente na sua militância com os movimento sociais realizaram muitas lutas, negociações e conquistas ( como a redemocratização e indiretamente a constituinte ), mas agora enquanto poder instituído esbaram nos limites da legalidade, nos marcos de ação e negociação previamente estabelecidos. Institucionalizou-se o PT e muitos outros movimentos sociais - como os estudantis - ocorrendo incorporação massiva deles em um multiplicidade de conselhos criados nos últimos anos. A burocracia tornou-se um peso significativo, a relação com os novos movimentos sociais se mostrou rarefeita.  Suas dificuldades em lidas com as manifestações atuais revelam um pouco dessas dimensões, obrigando o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad a admitir as limitações para  entendimento desse momento e propor uma nova pedagogia entre Estado e sociedade, baseada em uma aprendizagem construída no calor do movimento.
       Reitero que  houve avanços certamente, mas as novas gerações não conseguem ver o diferencial do PT em relação aos outros partidos da direita, alias esse diferencial no atual cenário está mesmo deixando de existir, depois de anos o processo de institucionalização é forte, a burocratização do partido é significativa, as gerações mais jovens alem disso já tomaram “consciência política” ou se incluíram no debate político sem muita memória de conquista recentes e  sob a égide do “príncipe eletrônico” que na última década direcionou seus esforços contra o governo estabelecido, o que é natural, quem não está no poder realizar críticas, mas também é verdade que informa “verdades” tendenciosas, faz sensacionalismo, desqualifica sem análises mais contundentes para desestabilizar o governo.

       Acontece que povo expresso sobretudo pelas novas gerações,  não quer ser apenas “objeto” de políticas públicos, não quer só aumento de renda e educação. O povo quer converte-se em multidão, quer se sentir partícipe da mudança, quer reconstruir por baixo outra democracia possível !  É Essa participação ativa na mudança que atualiza as instituições retirando-as do engessamento e modificando as formas de pensar e fazer política. Como diria Bruno Cava, a composição social surgida no âmbito do lulismo não fica Assistindo tudo parada, apenas consumindo ( tese catastrófica) . É mais do que isso, é reinvenção de subjetividades, é resistência classista, é poder instituinte, que antropofagiza as políticas verticais e as converte criativamente, potencializando novas formas de resistir e existir.
        É, esta em causa o próprio modelo de desenvolvimento ( mundialmente desigual e combinado ) responsável pela emergência da “Nova” classe média e da “geração facebook”, são os ventos nacionais “desde baixo” reinventando as lutas democráticas em um contexto de falência da política tradicional e da própria democracia em Âmbito mundial.


terça-feira, 18 de junho de 2013

BREVES NOTAS SOBRE A INDIGNAÇÃO.




Acontece que momentos de crise são momentos de alargamento da percepção do mundo que nos rodeia, são esclarecedores das razões e causas de problemas estruturais, são por excelência desnaturalizantes do que Ianni denomina de “”relações, processos e estruturas de de dominação política e expropriação econômica”.


 NOTA 3


        Esse é o novo “palco da história” de que falava Ianni (1996), momento de afirmação da sociedade da mundial ou “modernidade-mundo”. Evento surpreendente de ruptura teórica-epistemológica que abala os quadros mentais estabelecidos: subverte as categorias referidas no tempo-espaço do Estado-Nação; desloca o “o lugar da política” reinventando-a; redefine as soberanias e hegemonias tanto quanto a democracia.

        O espaço nacional revela-se apenas um elo do encadeamento global de redes de movimentos sociais que conectam suas aspirações e indignações contra a captura da democracia representativa pelo mercado; contra a falência teórica e prática da política tradicional ( seus partidos, eleições e lideranças ); contra a mercantilização da vida; contra a privatização dos bens públicos; contra o aumento e manutenção das contradições sociais expressos em desigualdades, pobrezas, fome, injustiças de toda ordem; contra a destruição em massa do meio ambiente caracterizado pela poluição do ar, rios, oceanos, terras; contra as monoculturas de pensamento e produção que aniquilam pluralidades, diversidades e diferenças; contra todas formas de dominação, exploração e controle do trabalho e da vida que aniquilam os direitos humanos e reduzem a liberdade humana a uma condição miserável; contra as formas de produzir e consumir que atentam contra a saúde humana; contra um modelo de “desenvolvimento” urbano insustentável que prioriza a circulação e acumulação do capital em detrimento da saúde e liberdade humana.

         Esses são os pontos que motivam e inspiram através de experiências coletivas de ação, a globalização contra-hegemônica, a globalização "desde baixo" em contraposição à a globalização “pelo alto”, perversa, neoliberal. 

     É a globalização do comum face a globalização privada. É a globalização do poder biopolítico constituinte contestando a globalização instituída do biopoder.


NOTA 2

        20 centavos foi o elemento catalizador, o pretexto para deflagração de sentimentos bloqueados, vontades negadas, desejos suprimidos, demandas não atendidas. Foi um impulso de negação das estruturas políticas e formas tradicionais de operá-la com simultânea afirmação afirmação da vontade de potência do multidão, insinuando outros valores, outra política. A resistência cotidiana individualizada converte-se e é potencializada em resistência plural de uma coletividade indignada, libertária, autodeterminada. É poder constituinte em movimento abalando o poder constituído!


NOTA 1

Nunca vi mobilização tão massiva no brasil!


Nunca vi os usuários do facebook tematizando e debatendo sem interrupções sobre um evento de caráter político.

A repercussão é teórica e prática simultaneamente.

Mobilizam-se calorosamente nostalgias e utopias. Os mais velhos rememoram o maio de 68 e o processo de redemocratização seja para inspirar os mais jovens ou para caracterizar o evento como uma "velha novidade". Os mais jovens de maneira um pouco confusa e sem muita precisão tateiam na ação e na reflexão um outro estado de coisas, uma sociedade mais libertária, democrática e justa, não possuem uma imagem perfeita desse "não lugar", mas já sabem o que não querem e tecem em rede as linhas gerais do porvir. Estaria havendo apenas um blefe em relação a significativas mudanças, ou ao contrário, estaríamos em um parto histórico, geracional, eminentemente revolucionário ? Ou nada disso, o evento ainda estaria envolta de nuvens nebulosas, com desdobramentos ainda não previstos, sendo impossível prever os próximos movimentos? Não se sabe, mas a disputa política sobre os significados desse evento estão em efervescência  na rede.