quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Oikopolítica para Amazônia: bases científicas para o desenvolvimento regional




“A Amazônia tem sido vítima de suas incógnitas e de sua própria grandeza. A enormidade e diversificação de sua massa crítica continental de terras, selvas e rios, compõem os autos de um processo contraditório, no qual perguntas ficam sem respostas, acusações sem defesa, oportunidades sem realizações, destruições sem usufrutos, e até custos sem benefícios”
  

Embora publicado na década de 70, o livro de Samuel Benchimol "Uma Oikopolítica para Amazônia" lança raízes em suas reflexões das duas décadas precedentes, duodécada que o oferece os desafios, problemas  e  a maturidade necessária para pensar a formulação de um modelo teórico e político para dar conta da complexidade amazônica em sua multidimensionalidade. 

Uma oikopolítica para Amazônia, enquanto publicação, é resultado de sua participação no Simpósio nacional da Amazônia promovido pela Comissão do interior da Câmara dos Deputados em 1979. Trata-se de uma oportunidade que Benchimol teve de apresentar os pressupostos de uma nascente ciência, a oikopolítica, “nova ciência interdisciplinar na fronteira da economia, da ecologia, da sociologia e da política” para lidar com o “estudo da complexa Amazônia. No entremeio da explicação de sua proposta apresenta a Amazônia em sua megatonagem geográfica, botânica e fluvial, registrando seu potencial econômico (“painel Oikopolítico”), a grandeza de suas riquezas e seus possíveis usos, considerando os erros e dilemas envolvendo o aproveitamento desses potenciais. Não deixa, como de costume, de sugerir opções estratégicas (política florestal, agrícola, pecuária) face as ameaças e desafios que se apresentavam. Opções ancoradas em sua Oikopolítica para Amazônia.
            Além de conceber uma Amazônia de múltiplas vocações (Varzeana, Fluvia/Lacustre, Mineral, Hidrelétrica, Florestal, e Industrial) Benchimol realiza críticas, faz alertas, registra aspectos negativos da conjuntura do desenvolvimento amazônico e, por fim, acena para possibilidade de uma “política sadia” para Amazônia, pois esta “tem finitude e fragilidade”.
Do mapeamento, prospecção e registro de descobertas cujo potencial pode garantir o pagamento da dívida externa brasileira, o autor realiza algumas críticas vinculadas ao uso desses recursos, uma delas se encaminha aos planejadores da Sudam relativos aos seus erros expressos na criação do “Mega boi” e “Mega selva”.[1] O primeiro de resultados econômicos duvidosos, “mas quase certos pela destruição do ambiente”, concebido longe dos mercados consumidores e desconsiderando a necessidade de pesquisa “agronômica, pedológica e florestal para se determinar até que ponto a agressão ecológica desequilibraria o meio ambiente”. O segundo se consolida como “mercantilização do processo do aproveitamento indiscriminado da floresta”, evidenciadas através do amplo interesse de realizar a “cubagem da floresta” para geração de estimativas de seu preço. Um e outro se constituíam em “ameaça e desafio” para o autor, devendo urgentemente ocorrer suas avaliações “antes que seja tarde demais, a fim de que o bom senso e a perspectiva histórica do desenvolvimento sejam considerados em todos os seus desdobramentos atuais e futuros” (BENCHIMOL, 1979,p.76)
O autor alerta (sem catastrofismos, combatidos em outras ocasiões) para o ritmo de devastação em curso na região decorrente da abertura de estradas para a integração amazônica, mas que despertou a cobiça das “capitanias empresariais bovinas”[2] e dos latifundiários e que oportunamente foram beneficiados rastros dos projetos do Mega-boi e Giga-Selva , “aqueles convertendo ricas florestas em pastos pobres e estes derrubando árvores nobres e de lei, vendidas a preços vis na origem, extinguindo a flora e a fauna” (BENCHIMOL, 1979,p.29).
Ao registrar que a Amazônia é “uma das grandes regiões piscosas do Brasil interior” (item 26 do seu “Painel Oikopolítico”, Cap. III) alerta para possibilidade de uma rápida chegada ao “limite de desfrute de auto-sustentação oikopolítica, além do qual poderíamos mergulhar no desastre da pesca ambiciosa e predatória”, a qual pode levar “à extinção das espécies, e observar a manutenção de uma taxa ótima para uma pesca auto-sustentada”. Prossegue afirmando que,

Com a abertura dessa nova frente comercial, poderemos causar um holocausto maior do que a destruição da floresta. É que o homem amazônida vive na beira do rio e depende do peixe para comer e viver. (BENCHIMOL,1979,p.29)

Neste item como na maioria dos outros Benchimol reclama a necessidade indispensável de se intensificar os estudos científicos na região, tendo em vista respaldar as ações políticas e os projetos de desenvolvimento sem “dar um salto no desconhecido”, o que poderia trazer sérios problemas para o ecossistema e populações amazônicas.
No item 1.12 “Barragens e uso florestal” de “Vocações Amazônicas” (Cap. V) fez uma alerta premonitória sobre a construção da hidrelétrica de Balbina, sugerindo na ocasião que se realizasse o desmatamento da área a ser alagada fazendo-se uso das árvores das florestas, inclusive para financiar o custo da hidrelétrica, caso contrário, “o afogamento da floresta e o seu apodrecimento poderá causar danos irreparáveis às turbinas, havendo o risco de agentes químicos da decomposição destruírem tudo sob às águas, tornando inúteis os investimentos”. O que de fato aconteceu. E na ocasião indagava:

“Por que então, ao invés de se dar um salto no desconhecido, não se concentram esforços de exploração madeireira nessas áreas de barragens, que terão de inundadas, ficando a floresta inteiramente devastada” (BENCHIMOL, 1979,p.56-57)

Além dessas alertas, o autor realça que muitas ações e processos em curso que pretendem desenvolver a região em âmbito urbano e rural , a despeito de seus aspectos positivos, tem gerados novos problemas e estão longe de equacionar os antigos, daí faz notar os problemas de urbanização, de mortalidade infantil, subnutrição, hanseníase, as parcas vagas oferecidas nas universidades
            Após esse preâmbulo que sintetiza parte das proposições que perpassam seu texto, cabe-nos apresentar as linhas gerais de sua Oikopolítica.
                Benchimol argumenta que  a herança indígena (cultura, visão de mundo, visão de Amazônia de mais justa) depois de desprezada pelos “conquistadores d’armas,” fora substituída por estudos e imagens que concebem a “Amazônia mais em termos de grandeza,” visualizando-a “em sua enormidade, sem pensar, ou pensando pouco, na sua fragilidade.” E mais, essas investidas interpretativas em geral “bastante fracionadas e segmentadas”, não possuem não “no sentido continental, os graus exigíveis de conexão, correlação e interdependência necessários ao estudo sistematizado do fascinante universo”. Terminam por rejeitar “a dúvida, a incerteza; prefere-se dar grandes saltos no desconhecido, perdendo-se o senso de distinção entre o verdadeiro e o falso, entre o fato e a ficção, entre a realidade e a fantasia” (BENCHIMOL,1979,p.3-4)
Oferecendo exemplos das implicações desses enfoques o autor argumenta que “a economia pode nos levar à cupidez; a ecologia pode nos conduzir ao imobilismo; a política pode nos forçar a aceitar valores e modelos perversos”. É diante desse cenário que, segundo autor, urge a necessidade, “ uma ciência deveras abrangente, multi e interdisciplinar, ciência que há uma década proponho – a OIKOPOLÍTICA, necessária ao estudo da complexa amazônica.” Acreditava que a falta de uma Oikopolítica era o motivo pelo qual a  poesia e o romance amazônico tenham se proliferado “em contraste com os poucos estudos científicos da gente amazônica, sem compromissos com o histórico, só com o verossímil”. Essa incapacidade de “percepção analítica” teria levado muito, inclusive o autor “como réu confesso, a visualizar a Amazônia através de sua megatonagem física, da sua grandeza continental. (BENCHIMOL,1979,p.6)
Referindo-se a esses enfoques enfatiza que,

alguns desses decorrentes conceitos são válidos, se os números em que se apóiam são verdadeiros. Muitos porém, devem ser considerados com a cautela e senso crítico, para que o infinito geográfico e a potencialidade econômica não conduzam a um modelo político perverso, muito embora construído com a melhor das intenções, porém deturpadas pela inocência útil, falta de vivência, pressa improvisada, sabedoria arrogante ou incompetência treinada, auto-suficiência ou simplesmente vontade de não ser omisso e tentativa de fazer algo para justificar as presença. (BENCHIMOL, 1979,p.6)

Para não se incorrer no risco de, através desses enfoques, se construir modelos políticos perversos para Amazônia Benchimol sugere que “somente um enfoque oikopolítico, de caráter interdisciplinar, abrangente da economia, da ecologia e da política, poderá permitir a construção de um modelo mais justo e adequado”. Acreditava que  somente a nova ciência, a Oikopolítica, por

“favorecer um estudo universal combinado do Homo Sapiens, de Lineu, que pertence ao ecólogo, com o Homo Oeconomicus, de Adam Smith, que se insere no setor produtivo, e com o Zoon politikon, de Aristóteles, que pertence ao domínio da boa política, seria capaz de repensar e reavaliar a nossa Amazônia.Enquanto isso não se realiza resta repetir conceitos faraônicos, apologéticos, ufanísticos, hiperbólicos, alguns até triunfalistas. (BENCHIMOL, 1979,p.7)


É essa visão ampla, holística, oikopolítica que inspirava o pensamento de Benchimol. Nela  se combinariam “os aspectos econômicos e os aspectos políticos, não apenas justapostos ou paralelos, mas interligados por dependência, cada aspecto com suas peculiaridades, processando-se a integração de todos os seus componentes”.(BENCHIMOL,1979,p.33)
Mais adiante reafirma sua perspectiva de integração de saberes necessárias para a o entendimento adequado da Amazônia:

A Oikopolítica reúne as fonte da economia, da ecologia e da política, interdisciplinarmente, promovendo uma visão multifocal e sugerindo uma compreensão globalizada. No caso amazônico, a Oikopolítica é abrangente. A Amazônia é vista como um complexo, e só assim podemos compreender, holísticamente, as suas peculiaridades e diferenciações, sem violentar e fragmentar a sua multivocacionalidade. (BENCHIMOL,1979,p.36)

Benchimol reconhece que se, por um lado, a metodologia oikopolítica, “do ponto de vista intercientífico”, não apresentaria grandes dificuldades teóricas e conceituais, sua operacionalização, por outra lado, encontraria, dificuldades diversas, “pois os diferentes aspecto muitas vezes entram em conflito  e se chocam, ao se defrontarem a realidade amazônica”. Sublinha que especialistas de distintos “níveis profissionais tendem a encarar essa realidade sob óticas próprias, unilaterais, para, para não dizer paroquiais”. Os ecólogos tenderiam a  “defender a preservação da Amazônia a qualquer custo”; os economistas perceberiam-na nas perspectiva de sua utilidade e rentabilidade; os políticos, “voltados para o compromisso histórico da nação”, teriam receio “que a sua exploração” descambasse “para a espoliação e alienação”. (BENCHIMOL,1979,p.43)
Diante desse impasse o autor finaliza seu texto registrando a dificuldade de conciliar os diversos enfoques e que a superação dessa dificuldade exigiria 

uma mudança de atitudes e de comportamento em cada especialista envolvido, para que adquiram uma visão mais ampla da multivocacionalidade, habilitando-se cada um à conciliação, embora admitindo riscos calculados, para elaboração de um projeto consensual e abrangente, que leve em conta, sobretudo, os interesses do homem amazônida como integrante da nacionalidade brasileira.(BENCHIMOL, 1979,p.43)

            Nesse registro e em outros argumentos de Benchimol fica evidente a defesa da centralidade dos interesses, visões e valores do homem amazônida como elementos  indispensáveis para balizarem  qualquer proposta científica, política ou econômica que se oriente para Amazônia.
Não há dúvidas de que além de ciência e metodologia empenhadas em interpretar e analisar a complexidade amazônica – combatendo simplificações e fragmentações - a Oikopolítica se constitui igualmente em instrumento de caráter político para orientar ações, programas e projetos para uma estratégia de desenvolvimento integral da Amazônia, estratégia que tenha como prioridade, de um lado, a valorização dos valores e conhecimentos acumulados pela indigenidade e pelos caboclos e,  de outro, considera a diversidade ou o mosaico de Amazônias em suas diferenças e particularidades. E, por fim, que sirva de instrumento de combate a pobreza, as disparidades inter-regionais, a concentração e desperdício de recursos, aos problemas de ocupação tematizados em seu painel Oikopolítico.
Esse é o panorama geral dessa publicação na qual o autor apresenta as linhas gerais de seu modelo, anota as dificuldades operacionais de pô-lo em funcionamento, mapeia e problematiza alguns enfoques (racionalista, utilitarista,empírico-tradicionalista,predatório radical que buscam explicar e procurar soluções para os problemas amazônicos, realiza um inventário de suas potencialidades (multivocacionalidades) ao mesmo tempo em que critica e alerta para as repercussões negativas dos projetos em curso, sempre sugerindo opções políticas para suas readequações. E, no mais, em suas reflexões o autor já inseria como variável de análise em suas problematizações as noções de incerteza, caos, entropia e complexidade, tão em voga nos dias que se seguem[3].

Referência
 
BENCHIMOL,Samuel. Uma Oikopolítica para Amazônia. Manaus, 1979.106 pg. Edição xerografada.
 


[1]O boi e a floresta, por implicarem agressão ecológica à tropicologia amazônica, têm que ser melhor estudados para se evitar a planetarização amazônica, não mais pela intocabilidade panteísta, mas pela desertificação substitutiva” (p.77)
[2] “ Como se fosse o paraíso terrestre dos grandes latinfúndios, a região foi loteada para 337 capitanias empresariais bovinas” (p.21)
[3] À título de informação importa registrar que a incorporação da noção de entropia emerge em um contexto no qual o autor refletia sobre as “necessidades e vantagens interdisciplinares; refletindo senti que brotava as primeiras idéias oikopolíticas, socorridas por um conceito do romeno Gerogescu, citado por Celso Furtado in O Mito do Desenvolvimento econômico (...) Daí  concluí-se que toda economia moderna é altamente entrópica, altamente desorganizada, altamente poluidora” (BENCHIMOL,1979,p.38)

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Touraine, ALAIN. Um novo paradigma: para compreender o mundo de hoje. 3º Edição –Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2007. P10-84



 Em seu conjunto o livro de Alain Touraine trata da “crise e decomposição do paradigma social da vida social” e da emergência do “paradigma cultural”. Trata-se, de um lado, da mudança do tipo dominante de representação de sociedade e, de outro, da redefinição  do tipo dominante de modernização, ambos baseado no modelo europeu.

Segundo Touraine, o paradigma social em decomposição, ancorado na ideia de sociedade e precedido pelo paradigma político -  é aquele que edificou a própria construção da modernidade ocidental, baseada na dominação, conquista e colonização do mundo, atributos qualitativamente masculinos. Seu ator principal seria o Estado-Nação, interventor e gestor de um capitalismo e uma industrialização nacional, regulador de conflitos internos e da  relação capital-trabalho em um território soberano. Como atores centrais destacam-se os sindicatos, partidos políticos e empresa nacionais. Suas principais categorias seriam as “classes sociais e riqueza, burguesia e proletariado, sindicatos e greves, estratificação e mobilidade social, desigualdades e redistribuição”. Seu principal trunfo foi a modelagem de um tipo de modernização que permitiu a construção de modelo social denominado Welfare-State, mecanismo de proteção e integração social construído no pós-guerra.

O paradigma emergente, por sua vez – que não é nem uma etapa do progresso, nem uma ideologia - torna-se mais nítido e se consolida em um cenário de transição histórica que teria como marco simbólico de uma ruptura o setembro de 2001. Este momento marcaria não apenas o fim de uma época, “mas sobretudo de certa concepção , de certo funcionamento da sociedade norte-americana e do mundo como um todo”. 

Características desse momento de transição seriam as novas modalidades de “guerra santa”, os comunitarismos, nacionalismos, o medo ampliado juntamente com as desigualdades, exclusões e precariedade em um contexto de livre mercado mundial. Uma das implicações centrais desse cenário seria a “inquietude, e mesmo a angústia, que nascem da perda de referência habituais”. De forma que teríamos a “sensação de perder toda distância, toda independência em relação a construções, na realidade ideológica, que determinam tanto nosso olhar quanto os objetos que olhamos”. Em suma, para o autor, estaríamos em uma situação de crise dos quadros mentais e dos conceitos que tornam inteligíveis o mundo que habitamos. Daí derivaria a decomposição do social, marcado especialmente pelos processos de dessocialização, em  outras palavras, a dissolução dos mecanismos de pertença a grupos e a instituições capazes de perenizar sua integração e de gerir suas transformações”, A transição seria marcada, portanto, pela desagregação do tecido social que estaria inapto par realizar processos de integração e geração de sentido ao mesmo tempo em que a sociedade estaria incapacidade ou limitada para gerir suas transformações.

A matriz ou vetor principal desse cenário seria, segundo Touraine, a Mundialização.  Os processos de desagregação e de limitações para gestão da sociedade estariam vinculados à globalização.

 A globalização representaria a passagem definitiva de um capitalismo nacional para um “capitalismo extremo” eminentemente global. A Globalização seria, para Touraine, um modo capitalista extremo de modernização, um modo de gestão da mudança histórica contemporânea. Gestão capitaneado e dominada por grandes empresas transnacionais e redes financeiras, além de organismos como o Banco mundial, Fundo monetário internacional e organização mundial do comércio.

É diante desse novo modelo de gestão histórica, potencializado nas últimas três décadas, que se realiza processos de globalização sem contrapesos, dominados pela imposição da lógica econômica que perpassa facilmente fronteiras, soberanias e hegemonias, o que sugere a decadência do intervencionismo estatal no âmbito de seu território e uma mudança drástica em sua gestão, afinal, agora importa mais atrais investimento, alocar recursos e potencializar as exportações do que garantir proteções sociais. 

Segundo Touraine (p.30) estaria ocorrendo a imposição de uma visão econômica da história, conferindo uma importância cada vez maior aos fatores econômicos e tecnológicos da mudança social”. Esse é o ambiente no qual as grandes empresas aparecem “menos como vanguarda da modernização  e mais como agentes de uma especulação desenfreada, ou como fontes de enriquecimento direito para seus dirigentes”.  A Europa, estado sem nação, sob os efeitos desagregadores da globalização apresentaria mudanças históricas que expressariam o que autor denomina de “O fim da sociedades”. Este fim seria caracterizado em outras coisas pela dissociação entre mecanismos econômicos – que operam em nível mundial – e as organizações sócias, políticas e culturais que operam em nível nacional. Deriva daí a separação entre economia e sociedade. A economia globalizou-se mas os movimentos sociais, sindicatos e partidos ainda sofrem sérias restrições para atuarem em nível mundial, em outras termos, o sistema político e seus atores nacionais lidam com problemas e conflitos que extrapolam suas possibilidades de gestão. 

É nesse sentido que ocorre o declínio das formas de vida social e política e a separação entre ator e sistema ou entre economia e trabalhadores. Ocorreria igualmente o declínio das categorias que a explicavam e organizavam seus atores.  A luta de classes e relação capital e trabalho sob este prisma perderiam valor explicativo, assim como as condutas individuais se orientariam por outro paradigma, mais individualista e libertário no qual a resistência dos atores se faz não através das instituições/mediações/representações tradicionais mas sim através de “uma afirmação de si, não apenas como ator social mas como sujeito pessoal”.

Esse sujeito individualista ao criar a si mesmo, engendraria uma subjetividade que não se definiria por “situações, funções ou identidades” definidas pela sociedade ou por algo exterior como Deus, ao contrário esse sujeito se definiria pela sua capacidade criadora fundamenta na liberdade e na responsabilidade face as autoridades e aos autoritarismos  que bloqueiam sua capacidade de se produzir como sujeito e ator que produz e reivindica direitos. A noção de sujeito mobilizada pelo autor refere-se, sobretudo, a capacidade que os atores possuem de traçar e percorrer seu próprio caminho a despeito das determinações sociais e das relações travadas com outros indivíduos e culturas.

Nesse quadro de despertar de sujeitos e de afirmação do paradigma cultural as mulheres assumiriam papel central, pois esta mudança seria 

“levada a cabo sobretudo pelas mulheres, pois ela é inseparável do declínio da dominação masculina e do surgimento de uma nova cultura que se liberta da dependência masculina e ao mesmo tempo liberta homens e mulheres da obsessão com a produção e a conquista para introduzi-los juntos numa cultura da consciência e da comunicação”.( TOURAINE p.115)

                As mulheres, portanto, desempenhariam - na análise normativa do autor – um papel central no âmbito dessa transição paradigmática que se realiza no quadro da globalização. Afinal, as mulheres encarnam historicamente o sujeito mais oprimido, dominado e privado de sua liberdade em sua experiência terrena. Daí que a mulher representa uma variável importante na potencialização desse novo processo de modernização eminentemente feminino, posto que não baseado na conquista, domínio e opressão do outro, mas sim ancorado numa capacidade de lutar contra poderes, ordens e instituições que privam de sentido a existência humana e a condição de sujeito. E como sugere Touraine (p.115) “não há sujeito senão rebelde, divido entre a raiva contra o que ele sofre e a esperança da existência livre, da construção de si mesmo – que é sua preocupação constante”.

 Resta indagar, a formação de um precariado global teria relação direta com essas dissociações aventadas por Touraine? Parece-nos indiscutível tal relação, afinal uma globalização neoliberal que potencializa um mercado mundial livre e desregulado não poderia gerar outra coisa senão processos de terceirização, flexibilizações e precarizações de trabalho instituídos por grandes empresas desterritorializadas que tornam Estados, sindicatos, partidos e movimentos sociais forças locais menores diante do avassalador poder financeiro desses atores globais.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Diagnóstico do Brasil segundo o economicismo da direita



Para boa parte dos intelectuais da direita, especialmente seus economistas, o problema do brasil contemporâneo pode ser resumido por muitas ausências ou faltas: 

Falta de produtividade, falta um bom superávit primário,falta de liberdade econômica, falta de metas claras de desempenho, falta de “boa governança”, falta de controle da inflação, falta abertura econômica, falta inserção nas cadeias produtivas globais, política monetária equivocada, falta comprometimento com “o ambiente de negócios”.

 Enfim, a existência brasileira e seu “desenvolvimento sustentado” nessa perspectiva se reduz a um economicismo pavoroso, frio e calculista. Falta mais lucratividade para eles!

Não se fala, nem de longe, em qualidade de vida, cidadania, justiça, igualdade de oportunidades, combate às desigualdades, reforma agrária, reforma política, reforma tributária ou auditoria da dívida.

O que é o amor se não a renúncia da vida em prol de outra vida.



Para não se perder entre os milhares posts do facebook.

O que é o amor se não a renúncia da vida em prol de outra vida.

 Qual pai (ou mãe) não concederia sua a vida, morreria por seu filho, tal como Jesus o fez em relação à humanidade. Sim! Existe relações entre essas expressões do amor, ambas partem da renúncia à vida para que outros a tenham, e a tenham em mais abundância. Mas não é preciso morrer fisicamente para que a consciência desse sentimento floresça. Mesmo quanto não morremos literalmente, há uma dimensão de renuncia à vida, aquela dedicada ao cuidado e a formação de um ser. Uma renúncia que se faz cotidianamente, mesclada por preocupações e angústia mas também por fortes doses de alegria, sentimentos genuínos de amor e felicidade.
Trata-se da renúncia mais extraordinária que existe, um espetáculo da criação, uma poética da vida que aprende a amar, aprende que o amor tem uma conexão direta com a renúncia e o cuidado.

Há um ano atrás ela fazia sua primeira aparição física a este mundo. Física, pois espiritualmente já nos conhecíamos. Foi amor à primeira vista, potente, radical, subversivo. Impactado pela emoção o brilho nos meus olhos cedeu espaço para o choro imediato, Choro tímido, com lágrimas contadas, mas cada pequena gota carregava um mundo de alegria,felicidade. As lágrimas eram amor em movimento, representavam o desbloqueio de emoções acumuladas, a chave de um porta que alguém esperava ansiosamente para abrir. Nasceu, está ali, a vida e seus dilemas estavam se renovando. Era a própria recomposição do cosmos traduzido em vida humana. 

Um ano de vida, uma ano de experiência, um ano de aprendizado, de emoções, de percepção, É o próprio tatear da vida em emergência, movimentando-se precariamente em seu início, mas desde sempre evidenciando um movimento progressivo de afirmação de vida, de expressão vital e propositiva diante do meio circundante. 

E é assim que eu vejo o desenvolvimento desse “foguinho” que nos primeiro dias quase não iluminava, seu corpo apenas tremia, espasmos inarticulados era o que havia. 

Aos poucos os movimentos foram se desenhando, ganhando precisão, articulação. De repente segurou, fixou os olhos em objeto e pessoas, sentou, engatinhou, andou e formulou seu mundo semântico.

 Ao classificar o mundo dividiu-o, segunda sugere Manuela Marinho, em 3 esferas: Os seres animados ela expressa através do enunciado “gato”, o mundo dos objetos, dos seres inanimados é denominado de “arte” , por fim, qualquer coisa que se coma ou beba é “água”.

 Eis a simplicidade de um mundo alegre, inocente e rico de humanidade. Te amo filha!

domingo, 26 de outubro de 2014

O PT habita nas novas gerações: Capacidade pouco vale sem oportunidade.



Os filhos do Lulismo na era do globalismo não experimentaram a vivência da destituição e da privação aguda que que caracterizam a vida de mais de 30 milhões de brasileiros há cerca de uma década. Esse cenário, em boa medida, desapareceu e agora os "filhos" não apenas comem, se vestem e escrevem  como  acessam a internet, se informam e fazem ensino superior. Agora querem mais, e é bom que assim seja.

 Ótimo que não tenhamos mais fomes coletivas e violação das liberdades políticas básicas. Seria prudente também que essas novas gerações, filhos de uma certa conjuntura histórica parassem alguns minutos para refletirem, reorientando seu olhar para um passado não muito distante e constatar que as condições sociais, políticas e culturais legadas desse passado foi o que lhes permitiu a possibilidade de olhar o atual governo de maneira mais crítica. Foi um legado de oportunidades, de justiça social e ampliação das liberdades. Não peço votos para o PT, mas sejamos críticos também em relação a esse legado, a saída do Brasil do Mapa da Fome da ONU é uma expressão positiva desse passado. O significado disso ainda será bem avaliado futuramente.

Sim. A trajetória do PT está repleta de erros, desvios, casos de corrupção etc.. Mas me digam um governo ou partido que jamais cometeu erros. Não! Não quero justificar esses erros, são imperdoáveis. Assim como será imperdoável não reconhecer a transformação social que ocorreu em seu governo, expressa em termos de mobilidade social, por exemplo. Como bem registra SEN (199,p.10)

Eu só uma grão de areia desse desenvolvimento. Eu sou uma potencialidade ativada, Eu sou resultado de desbloqueios de privações. Eu me tornei cidadão e agente certamente por algum esforço individual, mas principalmente pelas condições sociais que ampliaram minhas escolhas e oportunidades. Eu sou crítico do lulismo e do Petismo, mas igualmente reconheço a paternidade da minha trajetória. Apesar das limitações, da escola primária ao doutorado, reconheço o solo histórico de oportunidades sobre o qual eu piso. Minha vaga na universidade não foi apenas mérito, foi resultado da democratização do acesso ao ensino superior, do aumento de vagas e universidades. Minha primeira iniciação científica, assim como minhas bolsas de Mestrado e Doutorado, não derivaram de simples mérito, foi resultado da criação de agências de fomento à pesquisa, do aumento dos recursos e ampliação do número de bolsas. Não fosse tais bolsas certamente meu futuro seria outro assim como minhas ambições pessoais. Reconheço, portanto, um vínculo indissociável entre minha trajetória individual e a trajetória política de ampliação de oportunidades ocorridas na última década.

Olhem suas trajetórias por essa lente, deixem a meritocracia de lado por um momento e reconheçam que o indivíduo faz história, mas a faz sob condições e oportunidades legadas pelo passado. Certamente o governo do PT não fundou o Brasil e criou “o país do futuro” mas inegavelmente redefiniu as condições de vida e trabalho que vão permitir a chegada mais prematura desse futuro. O futuro não se faz por si e tenho certeza que sua construção vai contar com uma contribuição generosa das transformações antropológicas incorporadas nas novas gerações. Uma revolução subjetiva ocorreu e sua certidão de nascimento não foi registrada. Eu já comecei a digitá-la!