quinta-feira, 12 de junho de 2014

De Junho em Junho: O Brasil visto pelo debate em torno das "Copa" das manifestações.

E lá se vai um ano, temporalidade potente, transformadora. Junho de 2013 funcionou como uma flecha no tempo; entre utopias e nostalgias que expressaram o evento,alargou-se o presente com  diferentes e múltiplos devires insuspeitados. O presente antecipou realizações e debates  Essa constelação monstruosa de manifestações colocou o “Brasil Maior” em perspectiva, suspensão.
Certamente que as manifestações em si são prenhes de intenções, sentidos, transformações individuais e coletivas, afinal, uma alquimia dos corpos se realizou quando os mesmos se tocaram, tensionaram, dialogaram em suas diferenças para constituição de um “monstro selvagem”, rebelde, inominável, quase irracional.
É precisamente para dar conta dessa anomalia complexa e não linear que muitos se propuseram a codificá-la, dar-lhes nome, sentido, direção, lógica.
Narrativas foram construídas para decifrar a esfinge em movimento, é sobre algumas delas que me deterei nos próximos textos; colocando-as em diálogo convergente ou em fricção dialógica, trata-se de explicitar os dilemas e problemas do Brasil contemporâneo.
 2013, “o ano que não acabou”, sem sombra de dúvidas, já constitui um marco importante da história política brasileira. Não da política em seus moldes tradicionais mas, sobretudo, da política que emergiu, se explicitou, ganhou densidade em sua articulação entre redes e ruas. Essa outra política que abalou o poder constituído.
 Igualmente poderíamos afirmar que Junho de 2013 representou um forte impacto, não apenas para o poder e a política estabelecida, mas também pra as representações coletivas , quadros teóricos e cognições afins a elas relacionadas.
 Intelectuais, acadêmicos e pessoas comuns pensaram substantivamente nos desdobramentos do evento de junho; A produção teórica, analítica, opinativa em mídias tradicionais e alternativas, blogs, revistas ( com edições especiais e dossiês ) e livros foi gigantesca, evidenciando a diversidade de explicações e representações sobre o evento.
 E mais, explicitou as fragilidades,  limitações e esforços de quadros conceituais tradicionais em apreender e codificar o fenômeno. Ao mesmo tempo, criativas e inovadoras perspectivas de análise ganharam densidade e ocuparam um lugar que estava órfão de imaginação teórica e analítica.
Poderíamos afirmar que em um pequeno espaço de tempo se realizou uma espécie de mega reflexão sobre a nação vinda de todas as áreas, pessoas e direções; foi uma efervescência que tirou parte da intelligentsia da letargia e do “silêncio” e, além disso,  concedeu oportunidade para outsiders disputarem os sentidos e narrativas apropriadas para o evento em questão. Talvez estejamos vivendo um momento de deslegitimação de certos paradigmas explicativos e legitimação de novos modelos de apreensão da realidade. O momento de crise serviu apenas para acelerar mudanças em curso.
            Para adiantar, o capítulo central do diálogo dessas narrativas refere-se a  uma fricção entre, de um lado, as redes colonizadas dos poderes constituídos do  Estado e do capital e, de outro, a afirmação constituinte  de uma composição social criativa, potente, rebelde, múltipla, horizontal e auto-organizada. Uma multidão em extâse, pulsando emergentes subjetividades, desafiando  e resistindo as técnicas de poder, controle  e captura da ordem esta(do)belecida.


sexta-feira, 30 de maio de 2014

Bauman: O capitalismo parasitário e o Estado assistencial para os ricos.


O presente texto é um trecho da minha dissertação "NARRATIVAS SOBRE A CRISE ECONÔMICA MUNDIAL E CRISE DAS REPRESENTAÇÕES: O QUE A CRISE EVIDENCIA ?"

não foi apenas o sistema bancário e a bolsa de valores que sofreram duros e sucessivos golpes – nossa confiança nas estratégias de vida, nos modos de agir, nos padrões de sucesso e no ideal de felicidade que, dia após dia, nos últimos anos, nos disseram que valia a pena seguir também foi abalado e perdeu parte considerável de sua autoridade e poder de atração. O fato é que agora o tempo da orgia acabou. Chegaram os dias (meses, talvez anos) de fazer contas, de calcular, Dias de ressaca e de recobrar a sobriedade”  ZIGMUNT BAUMAN
                                                                                                               

Dentre os livros que tomam como objeto a crise que irrompeu em 2008 nos EUA e atingiu imediatamente a Europa, o de Bauman talvez seja o que reservou menos tempo para uma analise mais acurada da natureza e dimensões da crise, não obstante apresenta em seu ensaio,  Capitalismo Parasitário: e outros temas contemporâneos, ideias e sugestões que corroboram e complementam argumentos e análises desenvolvidos por Harvey (2011) e Santos (2011).
O estilo de apresentação dos textos de Bauman é ensaístico e geralmente associado a uma apreensão fenomenológica da vida social expressa em uma abordagem que privilegia o cotidiano, as percepções das pessoas e até seus sentimentos, mas nem por isso deixa de tecer relações mais densas e sofisticadas conectando ações individuais às dinâmicas mais gerais e estruturantes da vida social.
Dito isso vamos nos ater à sua breve análise.

 CAPITALISMO À CRÉDITO

            A primeira afirmação de Bauman (p.7) relativamente a crise irrompida em 2008 é a de que o ‘tsunami financeiro’ evidenciou a  milhões de indivíduos que o capitalismo se destaca por criar problemas, e não por solucioná-los.
. Lembra que “a aventura das ‘hipotecas subprime’, vendidas a opinião pública como forma de solucionar o problema dos sem-teto, esta praga que, como todos sabem, o capitalismo produz sistematicamente, acabou, ao contrário, multiplicando o número de pessoas sem casa, com a epidemia de retomada de imóveis. Se ele tenta resolver problemas, não pode fazê-lo sem cair na incoerência em relação a seus próprios pressupostos fundamentais” (Bauman, 2010:8)
Recorre a Rosa Luxemburgo que em “seu estudo sobre a ‘acumulação capitalista’, no qual sustentava que esse sistema não pode sobreviver sem as economias ‘não capitalistas’.  Esclarece que o capitalismo só  é “capaz de avançar seguindo os próprios princípios enquanto existirem ‘terras virgens’ abertas à expansão e à exploração” privando-as  de sua “virgindade pré-capitalista, exaurindo assim as fontes de sua própria alimentação”. Assevera, “o capitalismo é um sistema parasitário”, pois como todos os parasitas ele pode prosperar durante algum período explorando algum organismo que lhe forneça alimento. Contudo, adverte, que o parasita não pode “fazer isso sem prejudicar o hospedeiro, destruindo assim, cedo ou tarde, as condições de sua prosperidade ou  mesmo de sua sobrevivência” (Bauman, 2010:8-9)
É importante ressaltar aqui que os novos hospedeiros a qual Bauman se refere são os cidadãos que viviam à credito e consumindo por impulso, a exemplo do povo americano que antes da crise era responsável por 70% das atividades econômicas do pais realizadas basicamente pelo consumo. Além desses hospedeiros habituais há ainda aqueles que sem condições de conseguir sua habitação foram ‘contemplados’ pelas  operações sub-prime dos bancos que ofereciam crédito a pessoas sem condições de pagamento, mas com altas taxas de juros.Os milhares de despejos que já vinham acontecendo nos Eua (Harvey, 2011) já prenunciavam um mal maior.
Bauman  (p.9-10) escreve que Rosa Luxemburgo a mais de cem anos atrás não poderia prever que os “territórios exóticos não eram os únicos ‘hospedeiros’ potenciais, dos quais o capitalismo poderia se nutrir para prolongar a própria existência e gerar uma série de períodos de prosperidade”, sempre que as espécies anteriormente exploradas se tornam escassas ou se extinguem.  Prossegue argumentando que  um dos principais  hospedeiros, como já citado anteriormente, se expressa através das “hipotecas subprime”,

que estão na origem da atual recessão: o expediente de fôlego curto, deliberadamente míope, de transformar em devedores indivíduos desprovidos dos requisitos necessários à concessão de um empréstimo”(...) é também no oportunismo e na rapidez, dignos de um vírus, que se adapta às idiossincrasias de seus novos pastos

Aponta que “a atual contração do crédito não é um sinal do fim do capitalismo, mas apenas da exaustão de mais um pasto” que a busca de novas paisagens terá início imediatamente, alimentada, como no passado, pelo Estado capitalista, por meio da mobilização forçada de recursos públicos (usando os impostos, em lugar do poder de sedução do mercado, agora abalado e temporariamente fora de operação) (Bauman, 2010: 10)
Segundo o autor (p.11-12) o anúncio de nova ‘descoberta’, de uma ilha ainda não assinalada nos mapas, atrai multidões de investidores, destacando que a introdução dos cartões de crédito foi um sinal do que viria a seguir, pois foram lançados no mercado cerca de 30 anos atrás, com o slogan exaustivo e extremamente sedutor de ‘Não adie a realização do seu desejo’. Argumenta que se no passado era preciso adiar a satisfação, lembrando Weber de que esse adiamento (privações de alegrias, gasto com prudência e frugalidade, investindo em poupança) foi um dos princípios que ajudaram a forjar o capitalismo, atualmente “Graças a Deus e à Benevolência dos bancos, isso já acabou! Com um cartão de crédito, é possível inverter a ordem dos fatores: desfrute agora e pague depois!”  Se antes havia necessidade de ganhar  para  atender as satisfações agora trata-se de desejar e ‘passar o cartão.
Bauman sugere que essa atitude “desfrute agora, pague depois”, cedo ou tarde se converterá em “agora”, isto é, o crédito fácil dos cartões de crédito se tornam dividas que terão de ser pagas, por vezes, contraíndo empréstimos. É ai que a dívida contraída é “transformada numa fonte permanente de lucro”, e assim os “credores modernos e benevolentes resolveram e conseguiram transformar (o débito) na principal fonte de lucros constantes”. Para esses credores, acrescenta o autor, o “devedor ideal é aquele que jamais paga integralmente suas dívidas”(Bauman, 2010:13-15)
Bauman (p18) resume que “a atual ‘contração do crédito’ não é resultado do insucesso dos bancos. Ao contrário, é o fruto, plenamente previsível, embora não previsto, de seu extraordinário sucesso”.

O ESTADO ASSISTENCIAL PARA OS RICOS

Bauman  enfatiza que, como em todas as mutações pretéritas do capitalismo, o Estado também participou efetivamente no sentido da “criação de novos pastos a explorar” salientando que foi durante o governo Clinton que as hipotecas subprime foram introduzidas, “a fim de oferecer crédito, para compra da casa própria, a pessoas desprovidas dos meios de pagar a dívida assumida, e, portanto, a fim de transformar setores da população até então inacessíveis à exploração creditícia em devedores” (Bauman, 2010:19)
E assim a sociedade dos consumidores converte-se igualmente na sociedade dos devedores, que na atual fase de capitalismo financeiro, apresenta-se como principal componente de lucratividade e acumulação do capital.
Como exemplo dessa situação Bauman (p.20) registra que nos EUA o endividamento das famílias medias americanas cresceu 22% nos últimos oito anos e a soma de aquisições com cartão de crédito não ressarcidas cresceu 15%. Seus estudantes foram obrigados a “viver à crédito” para permanecerem estudando. Na Grã-Bretanha a situação não é nada alentadora, segundo o autor, em 2008 a inadimplência dos consumidores superou o PIB do país, isto é,

as famílias britânicas tem dívidas num valor superior a tudo o que suas fábricas, fazendas e escritórios produzem(...)  O planeta dos bancos está esgotando as terras virgens e já se apropriou implacavelmente de vastas extensões de terras endemicamente estéreis  (BAUMAN, 2010:20)

. Segundo Bauman (p.21-22)  nenhum dos pressupostos ou estratégias falenciais responsáveis pela crise atual foram postos em discussão pelos poderes constituídos, pois “na cabeça dos que detêm o poder, mais crédito (ou seja, a produção em série de indivíduos endividados) ainda é a chave da prosperidade econômica.” Afirmam que são apenas ‘ativos problemáticos’ e não ‘instituições problemáticas’ que causaram os problemas, precisa-se apenas de um ‘remédio’, e não “uma corajosa intervenção cirúrgica”
O autor destaca (p.23) que recapitalizar as empresas emprestadoras e reabilitar seus devedores para o crédito,  de modo que o negócio de emprestar e pedir emprestado possa voltar à ‘normalidade’, eis a opção política atual. Prossegue informando que,

O Estado assistencial para os ricos voltou ao salão (..)O Estado voltou a exibir e flexionar sua musculatura como não fazia há tempo, pelo bem da continuidade do jogo que tornou sua flexibilização difícil e até – horror! – Insuportável; um jogo que, curiosamente, não tolera Estados musculosos, mas ao mesmo tempo não pode sobreviver sem eles

Anota  que na ocasião da crise o que ficou “alegremente (e loucamente) esquecido nessa ocasião é que a natureza do sofrimento humano é determinada pelo modo de vida dos homens.” , que  as raízes da dor da qual muitos passam, assim como as raízes de todos os males sociais, estão profundamente vinculadas no como nos ensinam a viver: “em nosso hábito, cultivado com cuidado e agora já bastante arraigado, de correr para os empréstimos cada vez que temos um problema a resolver ou uma dificuldade a superar. Como poucas drogas, viver a crédito cria dependências” (BAUMAN, 2010: p.24)
O autor explana (p.25) que chegar as “ raízes do problema que agora saiu do compartimento top secret  para o centro da atenção pública não é uma solução instantânea” , mas precisamente “ a única  que tem alguma possibilidade de se mostrar adequada à enormidade do problema e de sobreviver aos intensos – mas comparativamente breves – tormentos da desintoxicação”. Afirma que por mais imponentes que sejam as medidas que os governantes já tomaram, pretendem tomar ou dizem que querem tomar, todas elas buscam ‘recapitalizar’ os bancos e deixa-los novamente em condições de desenvolver suas ‘atividade normais’: em outras palavras, a atividade que é a principal responsável pela crise.
Assevera (P.26) que  “ ainda não começamos a pensar seriamente sobre a sustentabilidade dessa nossa sociedade alimentado pelo consumo e pelo crédito.”  O ‘retorno a normalidade’ prenuncia, pois, um retorno aos métodos equivocados e potencialmente perigosos. “ São intenções que preocupam,  pois sinalizam que nem as pessoas que dirigem as instituições financeiras nem os governos chegaram à raiz do problema em seus diagnósticos”
Destaca (P.27) que,

essa espécie de Estado assistencial para os ricos (ou mais exatamente, a política de mobilizar, por intermédio do Estado, os recursos públicos que as empresas capitalistas não conseguem convencer o público a lhes entregar diretamente) não é novidade: apenas o alcance e a publicidade que o acompanham assumiram proporções capazes de causar escândalo.

Bauman (p.28)recorda Habermas afirmando que a substancia do capitalismo “é o encontro entre capital e trabalho” e que a principal  “tarefa  (e, portanto, legitimação) do Estado capitalista é garantir que ambas as condições se cumpram”, isto é, que o capital compre o trabalho, garantindo ao primeiro subvenções e concessões para que haja a comercialização com o segundo.  Ocorre que, segundo o autor, a sociedade contemporânea viveu uma transição da sociedade ‘sólida’ de produtores  para a sociedade ‘liquida’ de consumidores, resultando que acumulação capitalista migrou da indústria para o mercado de consumo.
Essa transição resultou que,

Para manter vivo o capitalismo, não era mais necessário ‘remercadorizar’o capital e o trabalho, viabilizando assim a transação de compra e venda deste último: bastavam subvenções estatais para permitir que o capital vendesse mercadorias e os consumidores as comprassem. O crédito era o dispositivo mágico para desempenhar esta dupla tarefa. E agora podemos dizer que, na fase líquida da modernidade, o Estado é ‘capitalista’ quando garante a disponibilidade continua de crédito e a habilitação continua dos consumidores para obtê-los. (BAUMAN, 2010:29)

Ilustra (p.30) que  quando os  elefantes brigam, quem paga o pato é a grama, pois antes de mais nada é preciso sublinhar que os dois elefantes, “ o Estado e o mercado, podem lutar entre si ocasionalmente, mas a relação normal e comum entre eles, num sistema capitalista, tem sido de simbiose.”
A cooperação entre Estado e mercado no capitalismo é a regra; o conflito entre eles, quando acontece, é a exceção.  Em geral as políticas do Estado capitalista. ‘ditatorial’ ou ‘democrático, são construídas e conduzidas  no interesse  e não contra o interesse  dos mercados; seu efeito principal (e intencional) embora não abertamente declarado) é avalizar/permitir/garantir a segurança e a longevidade do domínio do mercado. (BAUMAN, 2010:32)
Conclui afirmando (p.32) que,

Se o Estado assistencial hoje vê  seus recursos minguarem, cai aos pedaços ou é desmantelado de forma deliberada, é porque as fontes de lucro do capitalismo se deslocaram ou foram deslocadas da exploração da mão de obra operária para a exploração de consumidores. E também porque os pobres, despojados dos recursos necessários para responder às seduções dos mercados de consumo, precisam de dinheiro – não dos tipos de serviços oferecidos  pelo Estado assistencial – para se tornarem úteis segundo a concepção capitalista de “utilidade”

Depreende-se  desses últimos  argumentos do autor, que  a vertiginosa onda de privatizações que atingiram o mundo nas últimas décadas, traduze-se em  diminuição ou desmantelamento deliberado dos serviços públicos simultâneo à  ampliação dos serviços privados para  atender a condição de consumidores dos antigos cidadãos. Se antes havia serviços públicos para cidadãos agora há serviços privados para consumidores.
Exposta essa breve análise do autor, conclui-se que as raízes da crise estão vinculadas ao próprio desenvolvimento do capitalismo; ao modo como cria modos de vida e inovações tecnológicas que permitem descobrir `novos` pastos de acumulação sempre que limites se apresentam na sua frente. Bauman resume que o modo de vida que propiciou a crise atual é a vida a crédito para o  consumo descartável, e as inovações que o capitalismo realizou para atender esse modo de vida foram os cartões de crédito, com crédito fácil, eletronicamente fornecidos pelas instituições financeiras.
Embora nesse livro o autor não apresente medidas ou indicações políticas que poderiam ser resolver ou atenuar seja a crise econômica ou seus impactos sociais, em livro mais recente Danos colaterais: desigualdades sociais numa era Global (2013), apresenta alguns indícios de mecanismos que poderiam fazer face aos “danos colaterais” da crise que atinge especialmente a Europa.
De modo sucinto Bauman argumenta nesse livro que existe e se potencializa no mundo atual repleto de crises uma correspondência entre “danos colaterais” e seu impacto nos “dejetos da ordem”, no “refugo da modernização”. Cada vez mais os efeitos explosivos e indiretos da globalização afetariam as classes mais baixas, o polo pobre da reprodução e criação das desigualdades.
Afirma que num passado recente os “Estados sociais”, responsáveis pelos “30 gloriosos” na Europa, eram fundamentais para atenuar efeitos perversos distribuídos desigualmente na sociedade. Não obstante, após o divórcio entre poder e política - acarretado pelas forças cegas e sem condução política da globalização – todas as instituições politicas no âmbito das soberania territoriais estariam fadados ao fracasso diante dos impasses e problemas gerado globalmente, que é precisamente o caso da crise que atualmente afeta o conjunto da Europa. Os Estado-Nacionais diante da crise, utilizando os argumentos de Bauman, seriam no máximo “delegados de policia locais no estilo ‘lei e ordem’, na medida em que apenas cumprem rigorosamente as diretrizes impostas pela Troika,  e por instâncias financeiras globais, o tal do ‘mercado’.
Diante de um poder livre da política e “de uma política destituída de poder”, onde o poder é global e a política permanece local, Bauman sugere a criação de um arcabouço institucional supranacional a partir de instrumentos e ações qualitativamente superiores aos nacionais,  como num plano mais elevado dos anseios e desejos de uma solidariedade humana. Nesse sentido, sugere (p.36) que a modernidade levou a integração humana até o nível das nações, especialmente através do “Estado social”, mas que agora, essa integração desse se dar no nível da humanidade, incluindo toda população do planeta. Trata-se agora, de criar um equivalente global,  do “Estado social”.
Segundo Bauman (p37),

Em algum momento uma ressurgência do cerne essencial da ‘utopia ativa’ socialista – o princípio da responsabilidade comum e do seguro coletivo contra a miséria e o infortúnio – será indispensável, embora desta vez em escala global, tendo como objeto a humanidade como um todo

Bauman sugere que “a pobreza, a desigualdade e, de modo mais geral, os desastrosos efeitos e “danos colaterais” do laissez-faire global”,  - e aqui podemos naturalmente incluir os efeitos “colaterais” da crise e sua própria resolução – não podem, enfatiza,

ser enfrentados de maneira efetiva nem isolado do resto do planeta, num canto do globo(...) Não há uma forma decente pela qual um ou vários Estados territoriais possam ‘optar por se excluir’ da interdependência global da humanidade. O “Estado social’ não é mais viável; só um ‘planeta social’ pode assumir as funções que os Estados sociais, com resultados ambíguos, tentaram desempenhar.(Bauman,2013:37-38)


Por fim, Bauman (p.38) suspeita que os prováveis veículos para nos conduzir a esse ‘planeta social’ não “sejam estados territorialmente soberanos”, mas sim “organizações e associações não governamentais cosmopolitas”, aquelas que segundo o autor, “atingem diretamente as pessoas necessitadas por sobre as cabeças dos governos locais ‘soberanos’ e sem interferência deles”.

Bibliografia
BAUMAN, Zygmunt. Capitalismo parasitário: e outros temas contemporâneo. Rio de Janeiro: Zahar, 2010
__________________. Danos colaterais: desigualdades sociais numa era global. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Boff: A tese de base que sustenta é: a desigualdade não é acidental, mas o traço característico do capitalismo.

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Para teólogo, “O Capital no Século XXI” acerta quando diz que “a desigualdade não é acidental, mas o traço característico do sistema”


Por Leonardo Boff, no Brasil de Fato


Está causando furor entre os leitores de assuntos econômicos, economistas e principalmente pânico entre os muito ricos um livro de 700 páginas escrito em 2013 e publicado em muitos países em 2014. Tranasformou-se num verdadeiro best-seller. Trata-se de uma obra de investigação, cobrindo 250 anos, de um dos mais jovens (43 anos) e brilhantes economistas franceses, Thomas Piketty. O livro se intitula O capital no século XXI(Seuil, Paris 2013). Aborda fundamentalmente a relação de desigualdade socialproduzida por heranças, rendas e principalmente pelo processo de acumulação capitalista, tendo como material de análise particularmente a Europa e os EUA.


A tese de base que sustenta é: a desigualdade não é acidental, mas o traço característico do capitalismo. Se a desigualdade persisitir e aumentar, a ordem democrática estará fortemente ameaçada. Desde 1960, o comparecimento dos eleitores nos EUA diminuiu de 64% (1960) para pouco mais de 50% (1996), embora tenha aumentado ultimamente. Tal fato deixa perceceber que é uma democracia mais formal que real.


Esta tese sempre sustentada pelos melhores analistas sociais e repetida muitas vezes pelo autor destas linhas, se confirma: democracia e capitalismo não convivem. E se ela se instaura dentro da ordem capitalista, assume formas distorcidas e até traços de farça. Onde ela entra, estabelece imediatamente relações de desigualdade que, no dialeto da ética, significa relações de exploração e de injustiça. A democracia tem por pressuposto básico a igualdade de direitos dos cidadãos e o combate aos privilégios. Quando a desigualdade é ferida, abre-se espaço para o conflito de classes, a criação de elites privilegiadas, a subordinação de grupos, a corrupção, fenômenos visíveis em nossas democracias de baixíssima intensidade.


Piketty vê nos EUA e na Grã-Bretanha, onde o capitalismo é triunfante, os países mais desiguais, o que é atestado também por um dos maiores especialistas em desiguldade Richard Wilkinson. Nos EUA, executivos ganham 331 vezes mais que um trabalhador médio. Eric Hobsbown, numa de suas últimas intervenções antes de sua morte, diz claramente que a economia política ocidental do neoliberalismo “subordinou propositalmenet o bem-estar e a justiça social à tirania do PIB, o maior crescimento econômico possível, deliberadamente inequalitário”.


Em termos globais, citemos o corajoso documento da Oxfam intermón, enviado aos opulentos empresários e banqueiros reunidos em Davos nos janeiro deste ano como conclusão de seu “Relatório Governar para as Elites, Sequestro democrático e Desigualdade econômica”: 85 ricos têm dinheiro igual a 3,57 bihões de pobres do mundo.


O discurso ideológico aventado por esses plutocratas é que tal riqueza é fruto de ativos, de heranças e da meritocracia; as fortunas são conquistas merecidas, como recompensa pelos bons serviços prestados. Ofendem-se quando são apontados como o 1% de ricos contra os 99% dos demais cidadãos, pois se imaginam os grandes geradores de emprego.


Os prêmios Nobel, J. Stiglitz e P. Krugman têm mostrado que o dinheiro que receberam do Governo para salvarem seus bancos e empresas mal foram empregados na geração de empregos. Entraram logo na ciranda financeira mundial que rende sempre muito mais sem precisar trabalhar. E ainda há 21 trilhões de dólares nos paraísos fiscais de 91 mil pessoas.


Como é possível estabelecer relações mínimas de equidade, de participação, de cooperação e de real democracia quando se revelam estas excrecências humanas que se fazem surdas aos gritos que sobem da Terra e cegas sobre as chagas de milhões de co-semelhantes?


Voltemos à situação da desigualdade no Brasil. Orienta-nos o nosso melhor especialista na área, Márcio Pochmann (veja também Atlas da exclusão social – os ricos no Brasil, Cortez, 2004): 20 mil famílias vivem da aplicação de suas riquezas no circuito da financeirização, portanto, ganham através da especulação. Continua Poschmann: os 10% mais ricos da população impõem, historicamente, a ditadura da concentração, pois chegam a responder por quase 75% de toda riqueza nacional. Enquanto os 90% mais pobres ficam com apenas 25%”(Le Monde Diplomatique, outubro 2007).


Segundo dados de organismos econômicos da ONU de 2005, o Brasil era o oitavo país mais desigual do mundo. Mas graças às políticas sociais dos últimos dois governos, diga-se honrosamente, o índice de Geni (que mede as desigualdades) passou de 0,58 para 0,52. Em outras palavras, a desigualdade que continua enorme, caiu 17%.


Piketty não vê caminho mais curto para diminuir as desigualdades do que a severa intervenção do Estado e da taxação progressiva da riqueza, até 80%, o que apavora os super-ricos. Sábias são as palavras de Eric Hobsbown: “O objetivo da economia não é o ganho, mas sim o bem-estar de toda a população; o crescimento econômico não é um fim em si mesmo, mas um meio para dar vida a sociedades boas, humanas e justas”.


E como um gran finale a frase de Robert F. Kennedy: ”o PIB inclui tudo; exceto o que faz a vida valer a pena.”

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Pochmann: ortodoxia nostálgica e economicista

Publicado em 15 de maio de 2014 por BRUNO CAVA

Resenha de POCHMANN, Márcio. O mito da grande classe média; Capitalismo e estrutura social. São Paulo: Boitempo, 2014.
MarcioPochman
Fazer de um país fraco com miseráveis um país forte de classe média, este é o projeto declarado do governo. Seu slogan “país rico é país sem pobreza” se realiza publicitariamente na figura da “nova classe média”. Dezenas de milhões de brasileiros que, graças às políticas de inclusão social dos governos Lula/Dilma, “ascenderam” socialmente. São milhões de brasileiros incluídos no mercado de trabalho e consumo. Formou-se uma nova composição social. O mito da grande classe média, do economista Márcio Pochmann, se insere nessa discussão vívida sobre os projetos de desenvolvimento e suas bases sociais, políticas e econômicas.
O autor coloca em xeque que o Brasil esteja se tornando um país de classe média. O termo de comparação é a classe média surgida na Europa ocidental e nos Estados Unidos, no período seguinte à segunda guerra mundial. Naquele período, as economias centrais do capitalismo global se industrializaram densamente, segundo o modelo fordista. No fordismo, a construção da cidadania se dá pela inclusão no mercado de trabalho e consumo da grande indústria, e pela generalização do consumo de bens duráveis, como casa, carro e utensílios domésticos, que uma indústria nacional diversificada produz. Nesse contexto fordista, a esquerda europeia adotou a linha do reformismo gradual, de inspiração keynesiana, fundada na defesa de um estado forte, planificador e investidor da produção nacional, e garantidor direto dos direitos sociais como saúde, educação e transportes. Apoiada nas relações de produção do fordismo, essa esquerda se organizou em sujeitos e instâncias políticas típicas desse período: o sindicato, o partido operário, os movimentos sociais tradicionais, que pressionaram o capital e dele arrancaram direitos. Márcio explica que, como resultado dessa específica correlação de força entre capital e trabalho, operante no panorama fordista, foi possível formar no primeiro mundo uma “classe média densa e estruturada”, até então inédita.
O fordismo foi um fenômeno de regulação do capital bastante localizado histórica (1945-75) e geograficamente. Suas características simplesmente não aconteceram na América Latina em nenhum período. Hoje, em especial, a formação da “grande classe média” no Brasil não está condicionada pelas coordenadas próprias da luta de classe no fordismo. Não existem mais as condições históricas que propiciaram aqueles sujeitos políticos, suas formas de organização e atuação. O momento do capitalismo é de pós-industrialização da economia, com primazia do setor de serviços, globalização das cadeias produtivas e deslocalização financeira dos centros de comando. Na ausência da centralidade da grande indústria, desaparece também o operariado de massa, outrora estruturado politicamente em sindicatos e no partido operário
Para Márcio, a restruturação do capitalismo, na passagem do fordismo para o pós-fordismo, dissolveu as instâncias e sujeitos políticos daquela esquerda, que tanto serve de referência à boa fração da brasileira. Seguindo sua narrativa, com o derretimento das formas “clássicas” de lutas do trabalho, se desarticularam as formas de pressão e mediação ante o capital, o que por sua vez serviu de sésamo para a regressão das conquistas e direitos sociais. Nesse momento, o welfare state vira uma quimera política, já que a margem de lucratividade do capital se torna cada vez mais inacessível, rapidamente fluidificada e abstraída dos lugares da produção. A dinâmica do valor pulveriza-se mundialmente, movendo-se com liberdade por sobre as fronteiras, numa era de desregulamentação e privatização. Representado pelo neoliberalismo, o capitalismo no pós-fordismo se torna hegemônico a partir dos anos 1990, com a derrocada final do socialismo real e o desmantelamento do estado de bem estar social, nos países de primeiro mundo. O resultado disso é que a classe trabalhadora vira suco. É nesse cenário que se forma a “grande classe média”, consumidora sim de bens duráveis e inserida a seu modo no mercado de trabalho, porém desestruturada e inorgânica, enquanto classe. Impossibilitada de organizar-se, pressionar o capital e formular projetos alternativos em termos próprios, a nova classe trabalhadora termina por tendencialmente aderir aos valores do próprio capitalismo: despolitização, moralmente conservadora e consumista, atravessada inclusive por pulsões fascistas. Eis aí o diagnóstico pessimista de boa parte da esquerda brasileira, para quem a ascensão da “grande classe média” acelera o fim da história.
Então, o que fazer quando tudo está escoando? É aí que, segundo o quadro pintado por Márcio, só apareça um único sujeito com nitidez para disputar hegemonia com a dissolução final da pauta de classe e a consequente vitória derradeira do neoliberalismo. É o governo do PT e seu projeto de desenvolvimento, o único sujeito forte para formular e realizar uma estratégia vantajosa aos novos trabalhadores brasileiros. Diante de uma globalização que reserva ao Brasil um papel coadjuvante, faz-se necessário forjar um pacto abrangente entre o que sobrou da esquerda e a burguesia nacional mais esclarecida, a fim de inserir a economia do país nas cadeias produtivas globais em condições minimamente vantajosas. Isto significa, por um lado, enfrentar o “capital financeiro” e promover uma industrialização que diversifique o “setor produtivo”; por outro lado, dinamizar o mercado interno, combatendo as ineficiências e arcaísmos crônicos, incluindo todos nos circuitos de trabalho e consumo. Para o autor, não há alternativa à esquerda ao projeto do governo do PT, já que, afinal, não existem bases materiais para radicar outros sujeitos políticos ou tensionar uma “correlação de forças” muito desfavorável. Deveríamos nos unir, portanto, em estratégica coalizão pelos interesses industrial-nacionais.
***
Ao criticar o “mito” da “grande classe média”, Márcio no entanto tampouco enxerga o outro lado da inclusão social, patrocinando seus próprios mitos de esquerda desenvolvimentista. A estrutura social aparece como reflexo objetivo das transformações do capitalismo, como se o capital estivesse em épica jornada. No livro, a passagem do fordismo ao pós-fordismo é apresentada apenas como uma estratégia vitoriosa do capital, achatando a ambivalência do processo. Não aparece o lado da produção de subjetividade, a formação de novos sujeitos. Isto significa que só aparecem na análise os momentos de reorganização do capital, mas não da classe trabalhadora, suas transformações políticas e antropológicas. Porque ela muda, junto das mutações do próprio conceito de trabalho, que nunca foi a-histórico.
A cegueira da análise compromete as conclusões políticas. Márcio não lembra que o fordismo das economias centrais e também o socialismo real foram destruídos não por iniciativa do capital, mas antes pelas próprias lutas operárias. A passagem para o pós-fordismo foi uma imposição de uma luta de classe ampliada, ao que o capitalismo teve de reestruturar-se, reflexamente. As lutas operárias, anticoloniais, estudantis e feministas dos anos 1960 e 70 bombardearam a ordem fordista/socialista a tal ponto que o modelo se tornou produtiva e politicamente insustentável, em Paris, Nova Iorque, Budapeste ou Praga. A globalização do capital nunca avançou independente da globalização das lutas. Uma produção de subjetividade em disseminação mundial que explica não só o surgimento da cultura pop dos Beatles, como também a possibilidade de um movimento black power global ou de transformar a cultura em trincheira para a luta de classe. A classe trabalhadora quis virar suco. Seu projeto histórico não se limitava ao welfare state, este foi um projeto mediador e arbitral de uma esquerda dirigista aliada à parcela nacionalista da burguesia. O projeto era deixar o macacão em casa e organizar sua vida e seu tempo. Na base do fordismo ainda estava o pequeno patrão pai de família homem branco ocidental, governando com os jugos da família nuclear, do colonialismo e do racismo, da heteronorma — tudo isso que a esquerda clássica não fez autocrítica. Por isso, é mais correto politicamente enxergar que a classe não virou suco, ela se liquefez para escoar dos muros da sociedade disciplinar, nomadizou-se, derramando-se pela cidade, para produzir mais viva e liberta. Nada disso aparece na narrativa extremamente ortodoxa do autor. O livro traz argumentos ilustrados com tabelas e gráficos, como se estivesse reunindo dados empíricos, embora só consiga com isso reforçar o próprio economicismo, já abundante na narrativa.
A ortodoxia da análise repercute a ortodoxia de certa esquerda no governo, mas também fora dele. A “grande classe média” até agora falhou porque não reproduz a bitola da esquerda fordista/keynesiana. É um mito porque não se parece à “densa e estruturada” classe média fordista do segundo pós-guerra europeu e norte-americano, a Meca dos sonhos branco-esquerdistas. Já a nossa não passaria de um suco Tang: desestruturada e inorgânica, tendencialmente conservadora, manipulável, negativamente liquefeita a ponto de balouçar ao sabor das flutuações econômicas, correntes consumistas ou derivas midiáticas. Uma análise muito próxima de André Singer (Os sentidos do lulismo, 2012), que fala em “subproletariado”, realçando o caráter de “subclasse” da nova composição social. Estamos novamente na literatura de formação do Brasil, que diagnostica o fracasso congênito do projeto de desenvolvimento devido a suas heranças malditas: os ibéricos pessimistas e , os índios preguiçosos e atrasados, os negros malandros e sentimentais, as mulheres promíscuas… e por aí vai, cabendo à esquerda aliar-se com a burguesia mais esclarecida para modernizar e emancipar o país, seguindo o exemplo da modernidade colonizadora e São Paulo.
Tanto Márcio quanto André no fundo fazem a mesma coisa: uma história da luta de classe do ponto de vista do capital, uma ciência do capitalismo perfeitamente acomodável na ideologia do governo. Apesar de colocarem-se como críticos dos rumos do PT e vocalizadores de uma guinada à esquerda, seus livros estranhamente acabam parecendo justificativas lógicas para os pactos e mediações em que os governos Lula/Dilma, paulatinamente, se atolaram. É que, se a “nova classe média” que serve de base social ao governo é um suco manipulável facilmente pela direita, então é preciso apegar-se quase paranoicamente às últimas instâncias de organização da “boa e velha” classe, ao PT. E tentar realizar algum tipo de nacional-industrialismo e welfare dentro das tenebrosas condições pós-fordistas de hegemonia neoliberal.
Trata-se de um livro que reproduz a incapacidade crônica da esquerda, e não só no poder federal, em reconhecer culturas dissidentes e lutas heterodoxas na condição subdesenvolvida, além do marco da modernidade estatal e capitalista. Um livro estritamente ideológico, no sentido que sua narrativa passa a borracha nas resistências e desmerece sistematicamente as subjetividades. Não à toa, o levante de junho de 2013 seja um não-fato na narrativa de Márcio, enquanto Singer restringe-se a reconhecer-lhe um amorfo caráter reivindicativo. Os ideólogos não percebem que, — não fossem tão nostálgicos, nem acomodados nas pranchetas maceteadas de sua zona de conforto intelectual e política, — poderiam pesquisar e identificar outras bases materiais e sujeitos sociais, que atuam no pós-fordismo, dentro do suco, tensionando-lhe sem saudosismos.
Não seriam os termos pós-fordistas da luta, os mesmos termos em que, fora das economias centrais da Europa, se formaram as culturas diaspóricas, como os fluxos e redes afroatlânticas, em permanente reorganização e luta? Não poderíamos simplesmente pular a miragem da sociedade disciplinar fordista onde algo como o keynesianismo ainda poderia fazer sentido, e encontrar as nossas próprias tendências e coordenadas da luta de classe, além da fixidez e das estruturas “clássicas”? Nonsense, dirão! Para eles, não passa de pós-modernismo sofisticado, a serviço do avanço dissolvente da nêmese neoliberal. Com essa “nova classe média”, pelo jeito, precisaríamos mesmo era continuar fazendo o jogo da direita.

A Chave explicativa Global-Local: um momento lógico de esclarecimento.



Desafiando-me ao participar de uma seleção para professor de Sociologia da UFAM fui movido, pelo sorteio temático realizado, a dar uma "aula" sobre o Global e o local: Amazônia no Século XXI. Transcrevo abaixo a introdução que fiz da aula, texto escrito na tensão de apresentá-lo menos de 14 horas depois como ponto de partida da minha exposição.


Sem essa dimensão lógica a Amazônia sofreria de um déficit explicativo; não se pode compreendê-la ou interpretá-la isoladamente, sem situarmos sua geografia no âmbito das relações, processos e estruturas que agenciam a globalização. Sem essa chave analítica a Amazônia e o mundo seriam representados analiticamente pela desordem e pelo caos. Seus processos culturais, econômicos e políticos que  lhes são constitutivos são melhor visualizados sob esse prisma: A dialética Global e Local , em suas acomodações e conflitos, é definidora da formação social amazônica. Se há um devir-Mundo na Amazônia, existe igualmente um devir-Amazônia que atua sobre o mundo. Muito do que foi local, a exemplo da cultura ocidental, tornou-se global.
 Nesse sentido, podemos afirmar que Amazônia globaliza-se não apenas como receptáculo de forças, relações e processos vindos do mundo. A amazônia nesse mesmo processo se afirma e se recria diante do mundo, se coloca como força e ator na dinâmica global. Se o global habita o local, por outro lado, o local não deixa-se capturar; rebela-se, insurge-se, reinventa-se “desde baixo” e “por dentro” das estruturas globais, de  forma antropofágica.
Trata-se, pois, de um momento lógico muito fecundo para entender a dinâmica da Amazônia contemporânea no âmbito da globalização.
Poderíamos dizer que a Amazônia é emblemática nesse sentido; é um laboratório empírico  de articulações entre o local e o global, permite pensar e esclarecer não apenas as formas de poder, dominação e sociabilidade contemporâneos, mas igualmente é fonte para pensar lutas, resistências e emancipações.
Entender as relações entre o local e o global pressupõe, antes de mais nada, o entendimento adequado sobre os processos de globalização.  Aspecto a ser desenvolvido no segundo momento da presente aula. Sim. As relações entre o local e global no mundo contemporâneo  correspondem em boa medida aos movimentos da globalização enquanto modo de produção e processo civilizatório. A verdade é que todo empreendimento intelectual sobre a Amazônia não pode prescindir dessa chave analítica. Como seria explicar impactos locais de demandas globais como a mineração, soja e outros commodities cuja produção alteram profundamente as dinâmicas locais
O movimento entre o local e o global na Amazônia se traduz na redefinição entre Região e Nação, Nação e mundo, capital e trabalho, subdesenvolvimento e desenvolvimento, exploração e conservação, conhecimento científicos e conhecimentos tradicionais, ilustrados no terceiro momento da presente aula.
Não se pode negar que a Amazônia já fora narrada e interpretada múltiplas vezes, desde os viajantes, missionários, ficcionistas até as aquelas invenções mais recentes Europeias,  Americanas e a realizada pela nação brasileira, mas é no âmbito da globalização e suas articulações com a nação e o mundo, que a Amazônia tem as melhores condições e possibilidades para se pensar e firmar no mundo, enquanto geográfia, história, política e cultura autodeterminada, inventada horizontal e autopoieticamente em suas dialética complexas e não lineares, em sua zona de contato com as forças e relações externas.
A amazônia já foi periferia, inventada como periferia. No século XXI ela explode potentíssima como centro do mundo; o centro habita nas suas entranhas e como registra Ianni, Corrêia da Silva e Cocco, a crise da relação entre o centro e a periferia acena para superação em potencial, das dimensões hierárquicas e deterministas que condicionam o habitar da Amazônia no Mundo, me refiro os “ismos” que capturam suas energias insurgentes, colonialismo, neocolonialismo, imperialismo, neoliberalismo.
Por fim, vale registrar que através dessa perspectiva, visualizamos não apenas o mundo na Amazônia através dos movimentos que  a sociologia clássica apanhou teoricamente; modo de produção de produção, processo civilizatório, divisão social do trabalho, ocidentalização, racionalização, burocratização. Visualizamos igualmente a Amazônia no mundo, através de lutas, resistências, epistemologias pós-coloniais, processos de indigenização, saberes insurgentes. Sim! No Âmbito da dialética Global-Local na Amazônia do século XXI, não apenas identidades, culturas e conflitos se redefinem como simultaneamente se realiza uma amazonização do mundo (Cocco,2009). Está em curso um devir-Amazônia do Brasil e um devir-Amazônia do mundo marcado pela hibridização, crioulização, pluralidade e  libertação de uma cosmologia ameríndia que requalifica as ideias de crescimento, desenvolvimento e progresso, expressões evolucionistas e lineares da  “máquina antropológica do ocidente”.
 Um exemplo dessa dialética antropofágica no âmbito da teoria pode ser vista em Marx Selvagem (Tible,2013) expressão de uma interlocução crítica e radical entre o local selvagem representado pelo pensamento revolucionário de Mariategui e o Global , representado pela tradição crítica elaborada por Marx. O diálogo de Marx com os “povos sem história” ou “América Indígena” , impacta de modo notável seus últimos escritos. Tal impacto se realizou como autocrítica ao seu pensamento, permitindo um “deslocamento de posições eurocêntricas, em direção a uma crescente abertura ao ‘outro’”. É assim que Marx indigeniza-se, coloca em xeque sua perspectiva linear de história e passa a vislumbrar possibilidades de rupturas emancipatórias através da potencialização dos comunismos primitivos, a exemplo da organização social dos Iroqueses estudadas por Morgan, cujo material etnológico Marx leu com fascínio. Eis um exemplo criativo e rebelde (Demo,2012) da dialética local-Global no plano teórico, cabe agora pensar possibilidades práticas dessa perspectiva.

Cumpri agora registrar o panorama lógico e histórico sobre o nexo explicativo Global-Local na Amazônia no século XXI, intenção primeira da presente aula. O objetivo é, pois, iniciar o debate e quiçá convertê-lo em uma disciplina acadêmica. 

sábado, 15 de fevereiro de 2014

É hora de retomar a reflexão!

      Na minha dissertação intitulada "NARRATIVAS SOBRE A CRISE ECONÔMICA MUNDIAL E CRISE DAS REPRESENTAÇÕES: O QUE A CRISE EVIDENCIA ?" sugeri a hipótese de que a crise que irrompera nos EUA (em 2008) e que se alastrara pela Europa estava intimamente conectada com as implicações dos processos de globalização ( que permitiu por exemplo o "big bang" dos mercados financeiros, isto é, a conexão online dos mercados ) e ela (a crise ) explicitava os principais impasses de uma ruptura histórica-epistemológica em curso. Um indicador ou sintoma dessa ruptura estaria na redefinição das "representações coletivas"  em escala global, especialmente as representações tradicionais  vinculadas a dimensão política.              
    Registrei que os "Indignados" na Espanha, Occupy nos EUA e as "jornadas de junho" no brasil se inscreviam nesse processo de redefinição. 

   Eu estava apenas intuindo no calor dos acontecimentos da conjuntura global, mas me parece apropriado retomar as reflexões considerando, sobretudo, a conjuntura nacional após junho de 2013, afinal, seus desdobramentos estão se prolongando e parecem indicar uma ruptura em curso.

   Um trecho da dissertação para deixar mais claro a ideia de crise e redefinição das "representações coletivas".

p.194-197

    "As representações coletivas em Durkheim em termos conceituais possuem uma vinculação direta com os fatos sociais.  São, portanto, maneiras de pensar, sentir e agir internalizadas durante o  aprendizado nas instituições de socialização e terminam por orientar a experiência individual. Funcionam enquanto crença,  “institui fora de nó certos modos de agir e certos juízos que não dependem de cada vontade particular tomada isoladamente”. Vale ressaltar que em Durkheim as representações coletivas não são entidades que pairam sobre o indivíduo, “ Sem dúvida, cada um contem alguma coisa dela; mas ela não existe inteira em nenhum”. mas  se constituem na forma e conteúdo com que este opera no cotidiano, pois,  “as representações coletivas são o conteúdo conceitual interno da sociedade. O conceito expressa a maneira que a sociedade, no seu conjunto, representa os objetos da experiência. Se o conceito muda, não é porque está na sua natureza mudar, mas porque descobrimos nele uma imperfeição, é porque ele deve ser corrigido. O conceito torna-se, de alguma maneira, uma ferramenta da existência coletiva; se ele é imperfeito ou torna-se inútil, nós o mudamos”. (  Durkheim, 2004, 2005, 2009 )

    Não temos dúvida de que esse processo de mudança conceitual entrelaçada com as mudanças de pensar, sentir e agir se realizam continuamente e nunca param, contudo, devemos salientar que existem momentos crísicos  onde essa mudança acelera, ocorre de maneira abrupta, pegando muitos de surpresa ao deslocar os quadros habituais de apreender e classificar as eventos e movimentos sociais, políticos e econômicos que nos condicionam.

     Esse é o momento que Durkheim torna-se extremamente atual, pois tal como sugere Ianni, as ideias ou categorias forjadas exclusivamente no interior do Estado-nação (Democracia, Partido, sociedade civil, Sindicato etc.. ) estão em crise, redefinição, tal redefinição é precisamente a reformulação das representações coletivas, do “conteúdo conceitual interno da sociedade”. Ora, se os indivíduos, grupos, coletividades e nações percebem na “pele” que tais conceitos e sua realização prática não está coerente, não faz sentido , é porque tais conceitos se realizam de forma imperfeita, tornam-se inúteis, daí a vivacidade da multidão que de repente foi para as ruas em várias partes do mundo para mudarem tais conceitos, representações coletivas que carecem de legitimidade, isto é,  precisam de atualização histórica.

     Na esteira dessa reflexão podemos afirmar que o quadro de crise e mudança representacional pode se incluir como evento emblemático daquilo que Santos designa por “transição paradigmática”  que tem como uma de suas características uma “crise de confiança epistemológica, de crescente confrontação entre conhecimentos rivais”, onde a ciência, o direito – acrescentaria a política -  como motores da racionalidade moderna explicitam seus limites ( sua arrogância ) indicando a exaustão da modernidade ocidental defrontada com os entulhos do “progresso”, “modernização”, “desenvolvimento” que sua “monocultura racional” tem amontoado nas últimas décadas. 

    A conjuntura de múltiplas crises e déficit teórico e político para solucioná-las revelam a incapacidade da racionalidade ocidental ( racionalidade da dominação do mundo ) para realizar uma autocritica e se reinventar diante dos desafios que se apresentam. 

    Redefinição de representações coletivas podemos sugerir é a resposta crítica e criativa de grupos e coletividades para fazer face a crise da racionalidade ocidental, para tentar renová-la a partir de outros saberes, lógicas e processos que a médio e longo prazo possam constituir uma nova gramática epocal. Essa nova gramática talvez se revele com mais lucidez no léxico das lutas e resistências que se realizam em várias partes do mundo, viabilizando a reinvenção da política através de processos instituintes, gerados na efervescências das lutas e movimentos  políticos concretos, que criam, recriam e reorganizam através de suas experiências, as instituições que vão referenciar  os horizontes  de vida e trabalho, práticas e usos sociais das próximas gerações.

    Em uma conjuntura onde as representações coletivas estavam se tornando cada vez mais globais  e cuja vanguarda representacional estava sendo realizada sobretudo por algumas empresas transnacionais e agencias multilaterais no contexto da globalização dos mercados  ( globalização hegemônica ), as lutas e resistências de caráter contra-hegemônico  assumem vital importância no sentido de desestabilizar a repetição do presente enquanto ideologia assente no “fim da história. 

    O futuro deixa ser repetição ( economia de mercado e democracias liberais que dinamizam os fluxos do capital ) e abre-se, nervoso e instável, para experimentação política, social e econômica no interior de lutas institucionais e extra-institucionais em várias escalas que,  operadas por  subjetividades rebeldes e insurgentes tateiam de forma ousada “ampliar o presente” e “antecipar o futuro”  através de  outros regimes de existência e coexistência."

sábado, 11 de janeiro de 2014

CAVA, Bruno. A Multidão foi ao deserto: As manifestações no Brasil em 2013 (Junho-Outubro) – São Paulo: Annablume.156 páginas.




“Em 2013, a poeira debaixo do tapete acabou por levantar o tapete, despindo a dominação de seu discreto charme e sua altiva soberba” Bruno Cava

A multidão foi ao deserto  é um livro que exala paixão pela resistência, resultado da práxis de um “pensador-manifestante” (p.9). A cartografia das lutas e microinsurreições é tecida em 20 textos; 2 entrevistas, 4 textos escritos em parceria e 14 que foram publicados inicialmente em seu blog quadradodosloucos.com.br, espaço no qual o autor articula literariamente o “campo das lutas e das ideias”, “produzindo conhecimento nas lutas e para as lutas” (p.120),  produto de co-pesquisa.

      Se a narrativa captura por dentro um evento inscrito no tempo e espaço, contextualizado será igualmente os interlocutores que durante os acontecimentos travaram debates analíticos e teóricos sobre os desdobramentos múltiplos das manifestações. Parte da interlocução se realizou com os pesquisadores colaboradores da Universidade Nômade ( UniNômade brasileira)  entre os quais Giuseppe Cocco, Alexandre Mendes, Hugo Albuquerque, Bárbara Szaniecki entre outros que mobilizam o arsenal teórico e analítico do Filósofo Italiano Antonio Negri para pensar as relações e processos insuspeitados que conformam as transformações  do devir brasileiro e mundial.


       Pensando o livro objetivamente pode-se afirmar que o mesmo exala política, política em sentido bruto; das formas pelas quais razões, interesses e afetos “selvagens” se convertem em resistências e lutas extra-institucionais face ao poder da ordem, poder constituído.

   Trata-se de uma lúcida análise de conjuntura do Brasil contemporâneo! Apresenta-se, portanto, não apenas como parte da política, é em si mesmo um ato político. Como diria Betinho (2009:8) faz análise política quem faz política, mesmo sem saber. Neste caso em particular o autor do livro, Bruno Cava, sabe que seu texto é “uma arma de combate” pela qual articula estrutura e conjuntura do Brasil contemporâneo, mapeando acontecimentos, cenários, atores e correlações de forças explicitadas de forma aguda no evento[1] de junho.


      A imersão do autor no interior das lutas se comprova pela pela etnografia dos acontecimentos, lugares, performances e seus atores. Sua militância se homologa pelo risco assumido entre o ricochetear das balas e lançamentos de gás lacrimogêneo acionados pela política da violência e criminalização. Se legitima pela expressão fenomenológica que o texto apresenta; captando intuitiva e intelectualmente ritmos, movimentos, sonoridades, cores e sensibilidades que atravessaram os corpos da multidão enquanto experiência ontológica. Consciência e evento, experiência e razão, campo de lutas e de idéias são mobilizadas processualmente para constituição do texto, “um evento no evento” segundo Giuseppe Cocco, alem de “um belo momento de luta”, sem insinuar-se “vanguarda”.

     É assim que Cava apanha criticamente no interior das manifestações o movimento real do campo político brasileiro; mapeia as lutas e suas respectivas agendas, táticas e estratégias; registra as artimanhas do poder dominante com suas formas de controle e captura dos poderes que colocam a “terra em transe”. Sua análise corresponde a  uma desnaturalização de um Brasil “Maior” realizada por um mosaico de micronarrativas tecidas “por dentro” das manifestações, no calor das lutas e no sofrimento dos corpos que não apenas resistiam a um “choque de ordem”, mas igualmente denunciavam as rachaduras, contradições e conflitos de um Brasil escravocrata, racista e colonial. Sim! Este livro se fez nas lutas e pelas lutas e trata, sobretudo, das relações e tensões do poder constituído contra o poder constituinte.

       Cava deixa claro que o ciclo de lutas atacou frontalmente não apenas a imagem superlativa de uma Brasil “para inglês ver” mas, sobretudo, a máquina representativa, responsável por operacionalizar uma democracia mesquinha de baixa intensidade, capturada pela lógica econômica  que regula, pacifica e converte os votos e zonas eleitorais em territórios onde os fluxos de capital devem circular com segurança.


     Evidência que ciclos de protestos e indignações não são particularidades de países que estão inscritos em crises econômicas e financeiras, que existe um “fator global” em cena, disparado pelas revoluções árabes em 2011 (p.51). Segundo Cava as manifestações no Brasil “se inserem no ciclo global de lutas insurrecionais e constituintes” (p.81). Lutas e microinsurreições podem igualmente ocorrer em momentos de expansão do capital, de crescimento econômico e inclusão social. Aliás, segundo o autor as manifestações também expressam um revolta com um certo tipo de inclusão (p.109). Resumidamente Cava sugere, captando os sentidos em mudança, que a “realidade está solta, sem gentileza pros esquemas” (p46;56;55), por isso a mídia corporativa com seu arsenal de jornalistas  e os partidos tradicionais erraram amplamente na explicação do evento.


       A multidão de Junho em sua retroalimentação entre redes e ruas atravessou o Brasil de Oiapoque ao Chuí em um contexto de relativo  crescimento econômico, baixas taxas de desemprego e forte inclusão social realizada na última década que criou as condições para emergência da “nova classe média”; “monstro” forjado pelo Lulismo,  seu melhor produto e pior pesadelo, que de repente ousou “querer mais” e saiu às ruas, gerando incompreensão e perplexidade da direita à esquerda, que impossibilitadas de ler a multidão de junho (p.43;78;106) trataram imediatamente de desqualificá-la (p.86), criminalizá-la. Da mobilização produtiva de caráter econômico originou-se por dentro das políticas oficiais uma criativa mobilização produtiva da multidão de pobres, emergentes e bárbaros que ousaram não apenas dinamizar o mercado interno ( atenuando o impacto da forte crise que atingia a Europa e os EUA ) mas abalar o mundo política brasileiro, dinamizando igualmente as condições históricas e políticas de mudança social.

     O livro está recheado de intuições e lampejos teóricos que transbordam de texto em texto, contudo, para finalizar a presente resenha cabe sugerir o que seria o argumento central do conjunto de textos: que o ciclo de lutas, protestos, tumultos e resistências se inscreve em um contexto de “constituição selvagem” ainda em curso, uma mudança subjetiva de larga escala nascida do crescimento econômico (p.11) e caracterizada pela nova composição social brasileira (p.106) que em um certo momento de suas ascensão cansou das múltiplas e naturalizadas violências e humilhações da qual seu corpo ainda é objeto; uma violência seletiva, “cristalizada no ônibus, no metrô, no hospital, na escola, na arquitetura (p.103), na atuação da polícia que mata, enfim, nas operações de higienização, remoção e expropriação explicitadas em um projeto de cidade que privilegia grandes projetos e eventos em detrimento do trabalhador metropolitano. Sim! Os corpos da multidão se chocam contra um projeto de cidade (p.59), contra um estado distante da composição social, “incapaz de comunicar-se, de ser perpassado desde baixo” (p.117) e que prossegue bloqueando  perspectivas de vida, ampliação de liberdades.


      A mudança na esteira das manifestações de junho converteram-se em novas relações entre Estado e sociedade, mas impactaram especial e irreversivelmente a percepção política de toda uma geração, traduzindo-se numa mudança em curso da cultura política brasileira que apesar de  funcionar pela “pacificação do dissenso” e “esquemas de governabilidade” nada transparentes, agora se vê mexida por

 “forças subterrâneas e míticas, até então mantidas escravas e domesticáveis(..) que desobstruíram forças, desataram conflitos, desencadearam possibilidades. Nascidos de pressões insuportáveis, pelas quais se movem e vivem as tensões sociais, políticas e econômicas do novo brasil e os ‘custos do progresso’. Foi como se placas tectônicas tivessem se mexido, transmitindo abalos em vários níveis, mudando a paisagem, reconfigurando espaços e temporalidade da políticas brasileira” ( CAVA,2013, p.134)

BIBLIOGRAFIA
SOUZA, Herbert J.S. Como se faz análise de conjuntura. 3ª Edição.  Petrópolis, RJ:Editora Vozes, 2009
NEGRI, Antonio.Kairós, Alma vênus, Multitudo: Nove lições ensinadas a mim mesmo. Rio de Janeiro: DP&A,2003




[1] Ver  (p.39) Kairós, prolegômenos do nome comum. In: Kairós, Alma vênus, Multitudo. Antonio Negri Evento significa um temporalidade histórica onde o “nomear e coisa nomeada nascem ao mesmo tempo. Ambos são chamados a existir: nesse sentido, o nome e nome comum constituem um evento.